09 de julho de 2026
Regional

Municípios preservam história sem orientação profissional

Rita de Cássia Cornélio
| Tempo de leitura: 3 min

Com a intenção de preservar a história, os municípios instalam seus museus para acolher objetos e documentos que possam contar para as gerações futuras como nasceu e vive aquela cidade. Mas a falta de formação e informação daqueles que trabalham na área tem tornado alguns desses equipamentos, um verdadeiro depósito de relíquias, quinquilharias. No Estado de São Paulo, um dos que mais possuem museus no País, não há graduação em museologia, o que agrava o problema, diz o diretor do museu municipal de Jaú, Guilherme Eduardo Almeida Prado de Castro Valente.

Para ele, faz falta um especialista no assunto que pudesse orientar sobre a maneira correta em se trabalhar com os museus. “Acredito que esse obstáculo foi sentido na maioria dos municípios do Estado de São Paulo, tanto que o governo estadual está oferecendo assessoria e promovido cursos de capacitação para suprir a falta de técnicos graduados.”

A secretária municipal da Cultura de Ourinhos, Neusa Fleury, faz uma leitura crítica da situação. “Faltam profissionais habilitados e a maioria dos museus são depósitos de relíquias. Conheço poucos que não se encaixam nesse perfil. O que acontece na maioria dos municípios de pequeno porte é que os moradores fazem uma limpeza em suas casas, geralmente quando morre o patriarca, e fazem as doações. Se o funcionário não é preparado e não sabe dizer não, acaba recebendo objetos e nem sempre essas velharias tem conotação direta com a história da cidade. Por isso, é preciso critérios até para receber as doações.”

Para ela, antes do objeto fazer parte do acervo é preciso pesquisar e verificar se a doação é interessante para a história da cidade ou é importante para a família do doador. “Muitas famílias doam e no dia seguinte correm ao museu para ver o objeto exposto e se não encontram correm para reclamar com os vereadores e prefeito. Dessa forma, a doação fica importante e é exposta, mas não tem significado nenhum para a cidade.”

Em Ourinhos (130 quilômetros de Bauru) há um “depósito de relíquias”, admite a secretária. “É o equipamento cultural mais difícil de trabalhar, porque não existe uma consciência muito clara do que é preservar a memória. A vida é muito curta e o tempo não é suficiente para pensar em guardar as coisas. O nosso museu tem muitos objetos, fotos e documentos. Eu acho que não só ele, mas a maioria dos museus mantidos pela administração pública tratam a história do ponto de vista do governante, do dominador, assim como os jornais que nem sempre escrevem a história real. Geralmente a história é contada sob a ótica de um grupo.”

Neusa Fleury frisa que nos museus há fotos das famílias fundadoras, das tradicionais, dos prefeitos. “Porém, as pessoas comuns, que fazem a vida da cidade, ficam de fora. Elas não têm vez e nem voz no museu. Por isso eu gosto do museu da pessoa em São Paulo. Ele é interessante. No lugar dos objetos há depoimentos. Guardar coisas é importante, porém não é o principal.”

Na opinião dela, o museu do futuro será uma sala limpa com computadores contendo fotos digitalizadas e filmes. Os objetos ganhariam um lugar só para eles. “Não podemos nos limitar a objetos para contar a história de uma cidade”, finzaliza Neusa.