A expressão “inédito viável”, cunhada por Paulo Freire, é a “futuridade a ser construída”. A construção e concretização deste “só se verifica, porém, através da práxis, que não é uma ação cega, desprovida de intenção ou finalidade. É ação e reflexão”. O que seria então, hoje para nós, o inédito viável? É a superação de situações obstaculizantes que impedem o advento do outro mundo possível, de paz, fruto da justiça e reconciliação.
Sabe-se que a transformação da situação social, política e econômica é muito mais complexa do que se imaginava. Contudo, há sinais visíveis de melhora e crescimento, tanto em nível pessoal, quanto relacional e sócio-econômico. Trata-se de cultivar o otimismo, contudo temperado pelo otimismo trágico, proposto por Mounier, que recolhe a grandeza das coisas e fatos, mas também, as lutas e tensões. A vida humana se move entre o festejar e o lutar. A alegria da vitória e conquistas não dispensa o seguir lutando para a concretização do inédito viável. Isso implica acentuar a beleza, alegria, entusiasmo, graça e luz. Diante de sombras e desgraças urge afirmar a vida e a Graça, aproximar o que é daquilo que pode ser. O real sempre aponta para o ideal da consolidação de um Brasil solidário, justo e promotor de vida com qualidade e dignidade para todos.
Vale apontar que o Brasil joga hoje um importante papel na comunidade internacional, sobretudo quando se verifica a valorização e acolhimento das várias iniciativas made in Brazil. Pode-se constatar que a América Latina, em geral, e o Brasil, em particular, podem oferecer contribuições relevantes e originais; não são, portanto, apenas destinatários ou receptores passivos. Por outro lado, há também focos de resistências, preconceitos e impermeabilidade que aos poucos estão sendo superados.
A constatação e provocação de R. Zimmermann, em América Latina o não ser, produziu bons resultados, embora haja ainda um longo caminho a percorrer. O convite foi vencer o complexo de inferioridade e sair da menoridade. Segundo ele, há pensamentos próprios e práticas que podem ser jogadas no grande concerto do pensamento universal. O Brasil é hoje uma vitrine que dá visibilidade ao inédito viável. Tem muito a oferecer e a contribuir, contudo em atitude de reciprocidade, humildade, sem excesso de auto-afirmação, presunção e isolamento. É sempre possível fazer algo e vencer a sensação de impotência. A mudança é factível.
A Olimpíada, em 2016, na cidade do Rio de Janeiro, certamente potencializará no povo brasileiro, desde já, o desejo da construção do inédito viável que implica acreditar que um outro Brasil é possível. A Olimpíada é hoje uma ocasião ímpar de confraternização universal, de encontro, partilha e solidariedade. É uma ocasião para fazer com que os povos sonhem o mesmo sonho, ou seja, o sonho de um mundo mais humano, fraterno e justo. Emerge, também, a valorização do corpo, como instrumento para fazer o bem, amar e servir com alegria e generosidade. Os jogos mostram que é possível superar os limites físicos, mas também os limites morais e éticos, ou seja, os vícios e atitudes que impedem o ser humano de ser melhor, de ser aquilo que ele deve e pode ser. Por fim, a Olimpíada lembra que a vida humana é marcada por vitórias e derrotas, por luzes e trevas que exigem constância e fortaleza. De fato, a vida é luta, vicissitudes...
A conquista da escolha do Rio de Janeiro revela que toda vitória tem que ser construída de modo gradual e constante. O Brasil saiu da menoridade e hoje é um “igual” entre iguais. Portanto, aproveitemos a ocasião para reafirmar nosso potencial e eliminar, decisivamente, qualquer complexo de inferioridade, pessoal ou nacional, que pode gerar resignação e paralisação diante das inúmeras possibilidades que a vida e o cenário atual oferecem.
No período helênico os jogos olímpicos foram, também, ocasião de realização de concertos, leituras, declamações e conferências. Heródoto aproveitava a ocasião para ler os fragmentos de suas histórias. Os jogos atraíam multidão de pessoas. Os artistas e literatos aproveitavam a ocasião para se fazer conhecer. Pintores e escultores expunham em Olímpia suas obras. Os escritores faziam leituras públicas de suas produções literárias (cf. Enciclopédia Universal Ilustrada). A Olimpíada no Brasil é desafio, mas acima de tudo ocasião. Ocasião para o Brasil mostrar não apenas suas belezas naturais, mas, sobretudo, sua beleza humana, seu potencial criador e criativo, sua produção cultural e intelectual, de mostrar não o “jeitinho brasileiro”, mas o jeito de ser do brasileiro, seu ethos, sua identidade, sua acolhida e alegria contagiante. Afinal, belo e bom se conjugam; estética e ética se completam.
O autor, Luiz Antonio Lopes Ricci, é sacerdote, vigário geral da Diocese de Bauru e professor de Teologia Moral, na Faculdade João Paulo II, em Marília