08 de julho de 2026
Articulistas

Brasileiro e a devoção aos santos

Tamara de Souza Brandão Guaraldo
| Tempo de leitura: 3 min

Nesse mês de outubro, em que o dia 12 é feriado nacional em homenagem à Padroeira do Brasil, Nossa Senhora Aparecida, é oportuno refletir sobre a relação que o brasileiro estabelece com os santos, no plano da cultura. Interpretada por muitos, em certas áreas da ciência e da religião, como alienação, fanatismo, idolatria e válvula de escape da realidade, essas análises se apresentam como exemplares do ponto de vista da construção teórica, porém, são muitas vezes cegas para a relação entre o brasileiro e os santos em se tratando da experiência popular, dos usos e costumes religiosos. Se voltarmos nosso olhar para a história do povo, na Europa, durante a Idade Média, imagens passaram a ser utilizadas para a proteção contra enfermidades, demônios e ladrões. Nessa época se tornou um costume rezar frente à imagem do santo, pois se acreditava que assim as orações seriam mais eficazes.

Em muitas casas, o único luxo que as pessoas possuíam era um pequeno altar no qual se depositava a imagem ou uma gravura do santo. No Brasil rural dos séculos XVIII e XIX e meados do século XX, cada família e cada bairro tinham o santo de sua preferência, o chamado padroeiro, que podia ser cultuado no oratório doméstico enfeitado de flores e velas na ocasião de novenas e ladainhas, e também nas festas em louvor ao padroeiro, organizadas em torno da capela. O santo era percebido como uma pessoa viva que não se podia enganar, por isso, era necessário prestar-lhe culto e dedicar ritos que lhe agradassem. Como na relação padrinho-afilhado, o devoto pedia a benção do santo, certo de contar com sua intercessão. A crença nesse poder mediador, pois o santo leva a súplica do fiel junto a Deus e por ele intercede, é baseada na reciprocidade: o devoto oferece velas, rezas, e em troca, espera a proteção dos santos nos momentos difíceis. Reciprocidade que também era presente nas relações diárias do camponês, entre familiares e vizinhos através da ajuda mútua, expressa, por exemplo, no mutirão. Como explicar a permanência dessa devoção do brasileiro aos santos durante o século XX e já no século XXI? Observar a experiência religiosa concreta do povo pode oferecer algumas pistas. Quem visita o Santuário Nacional de Aparecida, percebe na Sala das Promessas um discurso silencioso: são vestidos de noiva, bonecos que representam bebês, miniaturas de casas, diplomas, cartas, fotos forrando as paredes e milhares de ex-votos (que são objetos em formatos de cabeças, pés, braços, e outras partes do corpo) colocados em cumprimento de um voto, uma promessa.

Como uma voz informadora de cultura, as pessoas pedem e agradecem o fim das doenças, sofrimentos, desemprego, alcoolismo, a graça da aquisição da casa própria, da conclusão de um curso. A filósofa Marilena Chauí, numa lúcida análise, aponta que quem conhece a situação do povo brasileiro em relação à medicina, habitação, emprego, sabe que não é por alienação, mas por viver essa experiência em seu dia-a-dia que se pede a Deus e seus intercessores o auxílio para a sobrevivência: “Os pedidos não são feitos porque se escolhe uma via religiosa, mas se escolhe uma via religiosa porque se sabe que, no presente, não há outra”. Assim, o que o brasileiro pede ao santos, num misto de conformismo, mas também de fé, esperança e um grito de socorro, é que a vida não continue como está.

A autora, Tamara de Souza Brandão Guaraldo, é jornalista e colaboradora do JC