09 de julho de 2026
Tribuna do Leitor

Jogador entristecido? Que tremenda bobagem!


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Estamos cansados (eu, no caso, indignado) de ouvir com grande frequência que o jogador “X” não está feliz, que o jogador “Y” perdeu a alegria, que o jogador “Z” anda muito triste, que o jogador “W” não mais sorri. Já aconteceu com Adriano (o tal do Imperador), quando estava vinculado à Inter de Milão, aconteceu com Ronaldo Nazário (o tal do Fenômeno), aconteceu com Ronaldinho (o tal do Gaúcho) quando no Barcelona e agora acabou de acontecer com Kleber (o tal do Gladiador), atualmente no Cruzeiro. A bobagem de tanto repetida pelos personagens e tanto esparramada pela imprensa (Galvão Bueno à frente) acabou se tornando um lugar comum. E muita gente acha que estes atletas, todos salarialmente muito bem pagos, necessitam “ser profundamente felizes” nos clubes que jogam para que seu rendimento corresponda ao esperado. Houve até quem lamentasse a ausência de sorriso (por sinal horrível) de Ronaldinho que não sorria porque estava triste. Ora, tenham dó! Estes senhores desfrutam das maiores mordomias em seus clubes. Têm astronômicos salários. São cuidados para que tenham tudo aos seus pés, quando, onde e como quiserem. Num país e num mundo cheio de contrastes, jogar futebol é o sonho de consumo de todo menino pobre. E foi o sonho destes senhores. Chegando ao estrelato se comportam como prima-donas, cheios de não-me-toques, melindrando-se com qualquer situação que os coloque em mínimo risco.

Não nos esqueçamos que Adriano ficou triste na Internazionale de Milão, veio para o São Paulo, envolveu-se em várias encrencas, sempre foi perdoado. Voltou à Inter, dali a um tempo voltou a entristecer. Retornou ao Brasil sumiu por uns tempos no sub-mundo da criminalidade no Rio de Janeiro para se fortificar no convívio dos amigos, porque estava triste. Ressurgiu no Flamengo, que o recebeu como um pobre-menino-sem-juízo viciado em bebidas e alguns pós indevidos. Mas daqui a pouco pode ficar sem alegria de novo. Não nos esqueçamos que Ronaldo Nazário “deu uma banana” literalmente para o Milan, envolveu-se no episódio dos travestis, perambulou pelo Flamengo e acabou obtendo um contrato milionário no Corinthians. Não nos esqueçamos que Ronaldinho permaneceu à margem das necessidades do Barcelona, sendo costumeiro frequentador das baladas madrilenhas com muitas mulheres e muita bebida. Ganhou uma festa quando chegou ao Milan, onde continua a festejar individualmente, frequentemente sequer ostentando um lugar no banco de reservas do time. E Kleber, cansado do frio da Ucrânia, desembarcou no Palmeiras com pompa e circunstância, fez gols, foi expulso várias vezes, usou de violência em demasia no campo de jogo contra colegas de profissão. Deixou o Palmeiras falando sozinho. Foi recebido com festa pelo Cruzeiro onde seu futebol não corresponde ao que ganha. E agora também está triste e diz que só joga a próxima partida contra o Barueri. Porque perdeu a alegria.

O futebol profissional e o endeusamento criminoso destes quase-meliantes (pelo menos civilmente o são porque se recusam a cumprir contratos assinados) trazem esta triste realidade, no Brasil e no mundo. O atleta é pago para trabalhar, e por dá cá aquela palha, se recusa terminantemente a fazê-lo. Geralmente, apenas porque não está feliz. Porque perdeu a alegria. E o cumprimento do contrato? Ora, o que é um contrato para quem está sem alegria? Para muita gente no mundo alegria é ter o que comer. Alegria é ter um chuveiro de água quente para tomar banho, se possível usando um sabonete. Alegria é ter um teto. É mandar os filhos para a escola. É conseguir pagar as contas no final do mês. É, enfim, se divertir, inclusive assistindo na televisão a genialidade dos craques. Desde que estejam estejam felizes, com sorriso estampado em suas dentuças, com a alegria que pediram a Deus e que na verdade não fazem por merecer.

Marco Antônio de Souza