09 de julho de 2026
Tribuna do Leitor

Ame... Ame-o ou não?


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Uma vez mais, a saúde em Bauru vive uma expectativa, tanto por parte da população quanto dos médicos e da administração pública. Por quê? Por muitos anos, o esqueleto do hoje Hospital Estadual, erguido em meio ao mato, embalou a esperança da população em uma unidade salvadora da pátria para a promover a saúde de todos. Inaugurado o hospital, veio a euforia para depois a decepção com a constatação de que o HE atende mais a população da região que a de Bauru. Agora, vive-se a expectativa gerada pela abertura do Ambulatório Médico de Especialidades (AME). Qual será o benefício da população de Bauru com essa nova instituição de saúde? O tempo dirá em breve. Pessoalmente, acredito que a decepção (se não for revolta) da população será maior e mais rápida que a experimentada em relação ao HE. As razões são simples. Primeiro por se tratar de uma Unidade Ambulatorial que se propõe a dar solução a problemas de saúde com consultas especializadas, exames de resolução rápida, sem a angústia das intermináveis esperas de até agora. Segundo porque o ambulatório também será voltado à população de Bauru e região. É aí que a situação tem desdobramentos desfavoráveis à população de Bauru. Explico.

As pequenas cidades têm poucas, senão apenas uma unidade de atendimento básico de saúde e, por isso, o seu contexto de funcionamento é mais facilmente administrável, as facilidades para se “quebrar um galho” e conseguir um encaminhamento são muito mais exeqüíveis que nas cidades maiores. Por sua vez, Bauru apresenta uma rede básica com mais de 30 unidades de saúde que não conseguem funcionar atendendo a demanda da população. Essas unidades atendem com certa dificuldade os programas de saúde como diabetes, hipertensão arterial, não sobrando espaço para agendamento de consultas ditas eventuais, para que o paciente não programático possa passar por consulta e conseguir o encaminhamento que necessita.

É público e notório que a saúde pública em Bauru enfrenta dificuldade para contratar médicos tanto para a rede básica quanto para a saúde mental e para os “ditos pronto-socorros” que atendem 90% ou mais de consultas ambulatoriais que urgências, dada a impossibilidade de a população conseguir atendimento em outros locais. Muito bem, se para consultar-se no AME o paciente necessita de um encaminhamento feito por médico da unidade básica, como resolver tal problema? Ou se contrata mais médicos para a rede básica, ou se estende a carga horária dos já contratados ou se impõe guela abaixo dos médicos da rede de urgência e emergência mais esse desvio de função. Ocorre que a situação do pronto-socorro já está quase insustentável como até então e vimos nos últimos anos o êxodo de médicos para fora do quadro do PS. Êxodo que pode continuar. A equipe aguarda ansiosa por uma solução que tarda e passa pela revisão da grade salarial da classe. Manter as coisas como estão e ainda acrescentar algum tipo de atribuição indevida a mais poderá ter conseqüências ainda mais indutoras do esvaziamento da equipe do pronto-socorro.

Portanto, ou se mexe na grade salarial para aumentar o quadro de médicos tanto da rede básica quanto de pronto-socorro ou a saúde em Bauru caminhará no mesmo rumo que vinha das gestões anteriores. Aí veremos a população impossibilitada de conseguir atendimento no AME recém-aberto ao público. O bauruense ficará na situação do indivíduo que vê o filho do vizinho comendo frutas de seu próprio quintal, enquanto seu filho fica impossibilitado de fazê-lo. Não se quer que o AME atenda só a população de Bauru, mas que haja um equilíbrio entre a população local e a circunvizinha. Urge que as autoridades municipais equacionem o mais rapidamente os problemas da saúde pública em Bauru. Afinal, em todas as campanhas políticas, todos colocam a saúde como prioridade. É hora de se passar da retórica à prática.

Áureo Antonio Érnica - médico