09 de julho de 2026
Tribuna do Leitor

O pão nosso de cada dia...


| Tempo de leitura: 3 min

Todo dia se vai ao mercado, e ao menos um 3 virou 4 na etiqueta do café. Isso hoje, ontem foi o 0,20 do pão que deu um triplo carpado corvertendo-se em 0,30. Será que ainda uma mente lúcida se lembra da boa sensação de comprar pão à 0,05 centavos? Para quem não entendeu vai uma dica: estamos sendo roubados! saqueados! E ainda agradecemos a bala ‘pepper’ que vem junto com ao troco! É como se a cada dia comprássemos um pão a menos tendo a mesma fome, ou abrissemos o armário e percebessemos que agora ele faz eco! Tomar um café gradativamente mais fraco pra poder tomar café todas as manhãs. Eles estão com essa mania agora, os preços todos os dias sobem! Todos os dias, sem exceção! Feijão, arroz, legumes! As frutas agora se deram a vender a preço de carne.

Tirando a banana, que mais humilde da em qualquer quintal e passadinha até se consegue por uns 0,49 centavos! As hortaliças então, nem a alface mais popular se encontra com freqüência à menos de um real! Talvez boa parte da população respeitável que agora lê este ao menos indignado artigo, não tenha sérios problemas com essa volubilidade progressiva no preço dos itens mais básicos do cotidiano, mas sentem, sabem, tem ciência de que quem quer que seja que assim decidiu não o fez por escolha de vida ou morte, certamente pouco ponderou os efeitos práticos de cada centavo a mais no nosso dia-a-dia, ou melhor, a menos. Pode ser que não seja o dono ou gerente do mercado quem aumentou todos os preços por vontade própria, digo todos porque muitos com certeza ele mesmo etiquetou, mas outros foram inflacionados, grandes produtores, grandes distribuidoras, praticamente fantasmas sem uma identidade individual e que vivem sabe-se lá em que céu do qual não temos idéia de onde é, mas enfim, esses espectros da economia, precisando recuperar sua lucratividade devido as coisas mais banais, devido a perda de carga, de safra, impostos, mais taxas ou pura ganância mesmo, aproveitando-se da nossa passividade eterna, da nossa morosidade, — e porque não do nosso individualismo? — aumentam constante e inescrupulosamente nosso acerto de contas.

Se pensássemos como estão sofrendo os mais necessitados e nos importássemos realmente com isso, será que nos contentaríamos em dar-lhes cestas básicas hora ou outra, e continuaríamos não nos importando com a dignidade alheia? E se tivéssemos noção do quanto somos feitos otários, tendo que mudar hábitos e gostos a fim de nos adequarmos ao custo de vida freqüentemente modificado, ainda chegaríamos em casa e comeríamos o pão ser perceber que fora o diabo quem o amassou?

Afinal o pão está quente assim como o inferno também está! Será que cientes e indignados desse modo resolveríamos ajustar as contas por onde alcançam nossos braços? Ninguém do meu círculo de convivência é capaz de mudar o problema de onde ele começa, me incluindo nessa, não temos a importância ou autoridade suficiente a ponto de promovermos uma justiça comercial por meio de conversações, propostas, elucidações, pedidos de misericórdia que fossem. E infelizmente não nos vejo capazes de ao menos sair convictamente do mercado com nosso pão embaixo do braço depois de dar justos 0,05 centavos por cada um sem se importar com os protestos do padeiro, do gerente, do segurança que quisesse impedir a saída.

Não temos a unidade necessária, e nem nenhuma, nesse quesito nosso saldo é negativo, para que pudéssemos todos mudar por onde alcançamos, para fazer algo com as próprias mãos sem ficarmos temerosos com as conseqüências, pois uma comunidade agindo conjutamente responde aos atos conjuntamente, junto solta e segura o rojão. Bem ao lema mosqueteiro sim.

Portanto, não proponho nada, pois nada do que aqui propusesse seria aceito pela moral e pelos bons costumes tradicionais, e por que não sei a quem propor, pois do mesmo modo que, daqui de baixo, não sabemos quem é o explorador, não sabemos quem é exatamente a comunidade explorada sem identidade que não dá a cara a bater.

Dayane Rose Cerigatto Tavano, dando a cara a tapa!