09 de julho de 2026
Tribuna do Leitor

Fazendo companhia a Alighieri


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Toda a nação encontra-se em um verdadeiro êxtase devido à divulgação da descoberta da camada pré-sal. Estimativas de reservas gigantescas que consistiriam em uma das maiores descobertas dos últimos anos são anunciadas. Propagandas oficiais enaltecendo toda a riqueza existente inundam os meios de comunicação. O presidente ousou afirmar que as reservas eram uma chance divina.

No entanto, a quadro real não é exatamente igual ao mostrado. A camada pré-sal é uma faixa a qual se estende por oitocentos quilômetros, englobando os estados de ES, RJ, SP, PR e SC. Abaixo de uma camada de sal, a cerca de sete quilômetros de profundidade, estima-se que haja reservas grandes, as quais seriam capazes de levar o Brasil à condição de um dos dez maiores produtores do mundo.

Ao analisar essa situação, deve-se partir do senso comum, o qual não necessariamente é correto – nesse caso, muito pelo contrário. A primeira questão a ser feita é se achar petróleo é algo bom. Dos vinte maiores exportadores de petróleo do mundo, dezesseis são ditaduras. Monarcas e déspotas cujos países têm uma economia à base desse produto, administradores que não prestam contas à sociedade que governam e um projeto de desenvolvimento incomum: esbanjar dinheiro para que o próximo grupo no poder não o tenha.

O Kwait, por exemplo, tem quarenta mil barris de petróleo por habitante, o que implica que cada kwaitiano teria vários milhões de dólares. Muitos mal têm milhos pequenos para alimentar-se. México e Venezuela são democracias entre os vinte líderes, mas têm instituições fracas e estão impregnados de corrupção.

Além disso, há outro ponto a ser ressaltado. Todo esse alarde está sendo feito pelo atual governo a fim de que o pré-sal faça parte das eleições presidenciais de 2010, e o partido que hoje está no poder continue a exercê-lo. Porém, ainda não há tecnologia para que tal reserva, tão profunda, seja explorada. Diversos problemas foram enumerados, de tal modo que uma tecnologia totalmente nova deve ser criada, e não se sabe quanto óleo e gás pode ser efetivamente extraído, e muito menos quando todo esse investimento monumental viria a gerar lucro.

Aí entra outra questão: caso esse ponto seja atingido (daqui a trinta anos segundo estimativas), é possível afirmar que o petróleo não desempenhará mais um papel crucial no mundo. Os países estão caminhando rumo à sustentabilidade, e o uso do petróleo é o maior obstáculo. Em breve, esse obstáculo será definitivamente derrubado. Alguns baseiam seus argumentos no exemplo norueguês. O país é o terceiro maior exportador de petróleo do mundo e o segundo maior IDH (Índice de Desenvolvimento Humano). A esses, um pouco de realismo. Em um futuro próximo, o Brasil não pode ser pretensioso a ponto de, como Estado, funcionar como a Noruega. Mesmo no país nórdico, o petróleo desencadeou uma crise política a qual acaba por prejudicar os noruegueses.

Em suma, além de manter no poder um partido que repetidas vezes mostrou-se claramente incapaz de resolver questões internas com eficiência e justiça e incompetente para com questões externas através de inverdades, na nem um pouco provável melhor das hipóteses, o pré-sal deteriora por completo a nossa economia e sociedade. Na pior das alternativas, um esforço dantesco será feito e não haverá retorno algum.

O pré-sal não é um milagre de Deus, mas sim, como diria Juan Pablo Pérez Alfonso, apenas mais um pouco de excremento do diabo. Ao invés do pré-sal, porque não investir nos nossos jovens, fornecendo-lhes, por exemplo, uma educação de qualidade?

Eles sim são uma chance divina para a melhora da nossa nação.

André Chang França