Eles nasceram com perdas expressivas de audição. Por não estarem acostumados aos sons, possuem, em sua maioria, grande dificuldade de se expressar oralmente. Preferem se comunicar por gestos e sinais. Mesmo que tivessem condições de realizar uma cirurgia que os tornassem aptos a ouvir “normalmente”, eles não aceitariam.
Os surdos têm uma cultura própria, baseada na língua de sinais. São defensores ferrenhos do idioma dos gestos. Também não se consideram deficientes. Como nunca tiveram contato com o mundo dos sons, acreditam que não ouvir é uma coisa normal.
Os surdos costumam ser contrários ao implante coclear - dispositivo eletrônico, também conhecido como ouvido biônico, que estimula as fibras nervosas remanescentes na orelha interna, permitindo a transmissão para o nervo auditivo do sinal elétrico, que depois é decodificado pelo cérebro.
Indivíduos com grandes perdas de audição que realizam o implante são denominados pelos surdos de D.A.s (sigla de deficientes auditivos). Pessoas que se submetem a esse tipo de cirurgia encontram dificuldades de ser aceitas na comunidade surda. Se abandonarem a língua brasileira de sinais (libra) em detrimento da comunicação oral, então, correm sérios riscos de serem excluídos para sempre do grupo.
A reportagem apurou que os surdos tendem a desestimular os colegas de comunidade a realizarem o implante coclear. Para tanto, apelam a todo tipo de argumento. Chegam a afirmar que o dispositivo atrai raios ou eletricidade estática das telas de computadores. Dizem, ainda, que o paciente tem grandes chances de morrer na mesa de operação.
Alguns chegam a dizer que se tivessem um filho com problemas de audição, jamais aceitariam submetê-lo a um implante desse tipo. Surdos que passaram pela cirurgia tendem a não defender publicamente o dispositivo eletrônico.
Emmilly Fernanda Alves dos Santos tem 15 anos de idade e fez o implante três anos atrás. Ela freqüenta o Núcleo Integrado de Reabilitação e Habilitação (Nirh) do Hospital de Reabilitação de Anomalias Craniofaciais (HRAC, mais conhecido como Centrinho) da Universidade de São Paulo. O serviço oferece capacitação profissional e ensino de libras a indivíduos com perda auditiva profunda.
Emmilly afirma que só aceitou receber o implante porque os pais pediram. Diz que não sentia necessidade de passar pela cirurgia, pois antes sua vida era normal. Garante ainda que nada mudou em seu dia-a-dia, depois da operação.
A situação, porém, não é tão simples como pode parecer. Antes da cirurgia, a garota até chegou a se animar com a possibilidade de ouvir. Só que os colegas da comunidade surda passaram a dizer que ela poderia ter a saúde seriamente afetada pelo aparelho.
Depois da operação, vários surdos chegaram a ficar estremecidos com Emmilly, por algumas semanas. Hoje, as coisas voltaram ao normal entre ela e os integrantes da comunidade. Ana Paula Onishi tem 17 anos e mora em Garça. Ela tem perda profunda de audição, mas garante que jamais faria o implante. Afirma ter medo da operação.
Luiz Augusto Pires Júnior, 20 anos, também é contra o implante. Ele disse em libras à reportagem que se Deus o fez surdo, não haveria motivos para querer mudar sua condição. Em público, o rapaz evita usar aparelho auditivo, pois acredita que será discriminado pela sociedade.
O instrutor de libras Valdecir Henrique Santana, 41 anos, também engrossa o coro contra o implante. Na opinião dele, um surdo que recebe o dispositivo jamais conseguirá se igualar a um ouvinte. Ele defende que todas as pessoas com perdas auditivas deveriam aprender a língua de sinais.
Dificuldades
A auxiliar de serviços-gerais Cristiana Henrique, 31 anos, tem perda profunda de audição, em um ouvido, e moderada, em outro. Prefere ser chamada de deficiente auditiva, em vez de surda. Usa aparelho e consegue pronunciar perfeitamente as palavras. Também sabe se expressar por sinais.
Antes de aprender libras, ela teve dificuldades de se aproximar da comunidade surda. “Eles ficavam meio ‘assim’ quando eu chegava perto deles”, explica. A reportagem conversou com indivíduos que se definem como deficientes auditivos, e eles confirmaram a existência dessa barreira cultural. A maioria deles acredita que “surdo” é uma expressão pejorativa.