Montevidéu - Um alerta meteorológico advertiu que a chuva forte e as rajadas de vento chegariam na noite de anteontem a Montevidéu. A Capital uruguaia respirou aliviada. O mau tempo terminaria ontem. “O domingo será de sol. Poderemos fazer festa’’, disse a eleitora Helena Luzardo, que vota no candidato favorito da eleição presidencial de hoje, o socialista José Mujica (Frente Ampla).
Se Mujica for eleito, marcará a segunda vitória consecutiva da Frente Ampla, que chegou ao poder pela primeira vez em 2005, com o atual presidente, Tabaré Vázquez. No entanto, todas as pesquisas de opinião realizadas às vésperas da eleição apontam que haverá segundo turno entre o socialista e o conservador Luis Alberto Lacalle, do Partido Nacional, que ocupou a Presidência entre 1990 e 1995, numa gestão marcada pelas privatizações de empresas estatais.
Mujica e Lacalle têm em comum o fato de despertarem alta rejeição fora das fileiras de partidários que os acompanham apaixonadamente.
“Somos duas pessoas de perfil marcado. Somos bebida forte. Temos rejeição, sim. Na vida, quem não tem rejeição é água morna’’, declarou Lacalle. Advogado, o opositor chegou a ser preso durante alguns dias pela ditadura, por participar de reuniões políticas.
Atribui ao grupo guerrilheiro Tupamaro (ao qual pertenceu Mujica) ataques contra a sua casa, nos anos 70, e se considera sobrevivente de uma tentativa de assassinato - enviaram à sua residência uma garrafa de vinho envenenado, em 1978.
Mujica passou 14 anos preso, dois deles incomunicável. Ele era um dos nove líderes guerrilheiros aos quais o regime militar deu o status de “reféns’’. Se o Tupamaro cometesse algum ato terrorista, os “reféns’’ seriam executados em represália.
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Campanha acirrada
Montevidéu - Além de José Mujica e Luis Alberto Lacalle, a eleição de hoje tem outro candidato de perfil “marcado’’. Pedro Bordaberry (Partido Colorado) é filho de Juan María Bordaberry, em cuja gestão presidencial ocorreu o golpe.
Com tal reunião de personalidades, a corrida presidencial uruguaia foi marcada pela alta voltagem dos discursos, com farpas atiradas de lado a lado. Em contraste com o acirramento de suas diferenças pessoais e políticas, os candidatos favoritos tentaram convencer o eleitorado de que farão um governo moderado em matéria econômica, assim como foi o de Vázquez, que chega ao final do mandato com cerca de 60% de aprovação popular.
Lacalle tentou permanentemente desmontar o discurso de Mujica, acusando-o de estar “maquiado’’ para a campanha. Para o opositor, um eventual governo do socialista teria consonância com os princípios da “esquerda radical’’.
Apesar das “ameaças’’, o mercado não tremeu no Uruguai. O fator de segurança, na avaliação de observadores políticos, é o vice na chapa de Mujica, o economista Danilo Astori, “moderado’’ a quem Mujica promete entregar a gestão econômica.
A artilharia da Frente Ampla contra Lacalle, por sua vez, acena com o retrocesso das políticas sociais do governo Vázquez, que avançou nas áreas de educação e saúde e implementou planos assistenciais à população de baixa renda.