09 de julho de 2026
Articulistas

A violência está aqui

Adriana Nigro Cardia
| Tempo de leitura: 3 min

Na semana passada, assistimos estarrecidos a mais um capítulo da guerra civil instalada no Rio de Janeiro, mais precisamente nos morros cariocas. Então, devemos nos perguntar: até quando a população vai continuar desprotegida do Estado, sob o comando do tráfico e sob as balas perdidas nesta guerra? Por que a população carioca, gente alegre e sorridente, sempre de bem com a vida, eleita a cidade mais feliz do mundo, mesmo com os percalços inevitáveis de uma cidade tão dividida socialmente e economicamente, não merece viver normalmente? Isto porque o controle da segurança pública é aparente. Volta e meia a população se vê envolvida nesta guerra, com fechamento de túneis, arrastões nas praias mais frequentadas pelos turistas, tiroteio em pleno centro da cidade, mortes com balas perdidas e arrastões em prédios. Quem comandou a invasão do morro e o ataque aos policiais com uma metralhadora antiaérea foi um traficante beneficiado pelo regime semiaberto, relata a revista Época desta semana.

Para os especialistas, a questão principal envolve uma mudança na lei de execução penal e na lei de tóxicos (no 11.343/06). O argumento mais forte para que isto aconteça é que de cada dez presos, oito são reincidentes. Em entrevista a esta mesma revista, o ministro Tarso Genro anunciou que o governo federal encaminhará ao Congresso até o mês que vem um projeto de lei que prevê o fim da progressão do regime para grandes traficantes e o aumento de penas por tráfico e penas alternativas para os considerados pequenos traficantes; porque haja cadeia para tantos traficantes! O tráfico e outros delitos como o roubo ou furto são sinônimo de recurso de vida para muitos jovens que se veem desprotegidos pelo Estado. Segundo dados de uma pesquisa divulgada pelo Secretário Nacional de Segurança Pública, Ricardo Balestreli, o principal motivo que leva os jovens a praticarem o primeiro assalto é a necessidade de aquisição de um tênis!

A região central da nossa cidade e os bairros que circunvizinham duas grandes Universidades, a USC e USP, se tornaram lugares propensos a inúmeros assaltos, roubos e espancamentos de vítimas que nem sequer um dia, imaginariam que poderiam sofrer tanta violência. Um par de tênis, uma camiseta, um celular ou por até R$ 20,00, como ocorreu na semana passada, um grupo de adolescentes vem perturbando definitivamente a paz dos moradores destas regiões. Não sabemos ao certo se são vários grupos ou um grupo específico, mas o que vem ocorrendo é inadmissível para os padrões de segurança atual que pensamos possuir. Não há mais tranqüilidade alguma em sair de casa caminhando durante o dia em ruas ermas, aos finais de semana e principalmente à noite, depois das dez horas, horário em que esta última vítima perdeu seus R$ 20,00, a dignidade e o direito de ir e vir, porque é morador da região.

Dessa maneira, há que se rever a nossa política de segurança de forma que poderíamos contar mais com a presença da polícia nas ruas, principalmente nos horários e locais em que os crimes vem ocorrendo e apostar numa polícia mais preventiva do que punitiva, o caminho seguido pelas Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs) do Rio de Janeiro, que conseguiram manter o tráfico afastado de cinco morros da cidade e colocando policiais recém-saídos da academia e no policiamento comunitário. Alguma coisa precisa ser feita, em definitivo.

A autora, Adriana Nigro Cardia, é mestra em Ciências da Comunicação pela USP, professora universitária e jornalista