07 de julho de 2026
Geral

AHB - cenário macabro da saúde

João Jabbour
| Tempo de leitura: 11 min

Bauru ficou indignada no último dia 30 quando o escândalo financeiro na AHB se tornou público, a partir de uma enérgica ação da Polícia Federal, Ministério Público Federal e Estadual e Justiça Federal. As denúncias de malversação do dinheiro público da saúde foram apenas o primeiro capítulo de mais uma triste história de um mal enraizado na sociedade como uma praga: a corrupção. Nesta reportagem, o JC revela, através do depoimento de uma técnica de enfermagem e conselheira que ousou denunciar falcatruas, o pano de fundo desse descalabro que abalou a cidade. Atendendo a um pedido dela, no longo depoimento que se segue não tornaremos público seu nome, para evitar que sofra represálias e outros transtornos que costumam acometer os poucos brasileiros que tem a bravura de denunciar a farra que se faz com o dinheiro de todos, principalmente este, que é usado para garantir o mínimo de dignidade a pessoas sem condições alguma de pagar por um plano de saúde, do mais simples que seja.

O leitor do JC terá a seguir um relato firme, convicto, detalhado, sem rancor, apenas interrompido em alguns instantes pela emoção dessa testemunha ocular de uma situação fétida que contaminava pessoas, seringas, leitos, equipamentos cirúrgicos, alimentação, vestuário, corredores e o nome de uma importantíssima instituição, que precisa ser resgatada urgentemente pela sociedade bauruense e pelas autoridades públicas de saúde. A técnica de enfermagem testemunhava há anos as inúmeras situações absurdamente claras que se acumulavam e, como representante eleita dos funcionários, tentava conversar, pedir soluções, denunciar, mas vozes mais poderosas se sobrepunham à dela, aliadas à covardia e conivência de outras que se omitiam. A profissional foi demitida por justa causa em março deste ano, logo após denunciar o escândalo ao vereador Amarildo de Oliveira (PPS), testemunhada pelo ex-vereador Benedito Benê da Silva, num momento em que também se preparava para entregar um dossiê ao Conselho Administrativo, documento que hoje se encontra com a comissão de inquérito interna instalada para apurar as denúncias e com as autoridades policiais e judiciárias. Alguns meses antes de falar com o vereador Amarildo, ela havia relatado o caso ao então vereador João Parreira de Miranda. A Justiça do Trabalho rejeitou o caráter de justa causa da demissão e ela, então, seguiu com sua cruzada de indignação, agora freqüentando apenas o Conselho Administrativo da Associação Hospitalar, para o qual foi eleita como representante dos funcionários e onde permanecia até o órgão ser dissolvido por ordem da Justiça estadual, na semana passada.

Pergunta - O que a levou a fazer as denúncias?

Resposta - O que me levou a tomar essa atitude foi as péssimas condições que os funcionários e os pacientes vivenciaram na associação, falta de medicação, falta de equipamento no centro cirúrgico, falta de estrutura dentro do hospital para se trabalhar com os funcionários e com os pacientes, a falta de humanização com os pacientes, a estrutura do hospital também não tinha condições de dar uma assistência adequada no centro cirúrgico, na UTI, na Hope (espécie de sala equipada para recuperação pós-cirúrgica), na central de material, faltando equipamento para cirurgia, era um absurdo.

Pergunta - Quando você foi eleita representante dos funcionários?

Resposta - Em dezembro de 2008 eu participei de uma eleição para fazer parte do Conselho Administrativo, fui eleita pelos funcionários, eu com mais dois funcionários.

Pergunta - O que aconteceu a partir daí?

Resposta - Comecei a participar das reuniões do conselho e comecei a observar que estava havendo alguma coisa muito errada ali, porque tinham denúncias, apresentavam documentos concretos de que tinha algo acontecendo de errado, só que ninguém tomava uma posição, falavam em investigar, mas ninguém fazia uma denúncia por escrito para que realmente fosse investigada toda a situação que estava acontecendo lá naquele momento. A partir daí, eu comecei a fazer uma denúncia, eu pensei: o que eu posso fazer para realmente dar início a essa denúncia para que seja investigada com clareza? Aí eu fiz um documento, todas as denúncias foram feitas por escrito e entregues para o conselho, para o presidente, senhor Cardoso (José Cardoso Neto), para que ele investigasse.

Pergunta - O conselho logo acatou ou foi difícil, ali no conselho, fazer com que as denúncias fossem encaminhadas?

Resposta - Teve resistência no conselho, porque, pelo que eu percebi, alguns conselheiros não tinham interesse em apurar as denúncias. Eles falavam que isso não ia dar em nada. Eu falei que ia levar a alguns políticos as denúncias e eles falaram que não, que político não resolvia nada, que eu ia ser a maior prejudicada em tudo isso e era para eu ficar quieta, para eu deixar isso para lá, deixar na mão do conselho fiscal, que o conselho fiscal ia resolver a situação. Só que isso não acontecia nunca.

Pergunta - E você acabou levando para políticos essas denúncias, no ano passado e neste.

Resposta - É. No início eu levei a denúncia para o vereador João Parreira, ele era vereador ainda, em outubro. Depois, este ano, acho que em fevereiro, eu levei a denúncia para o vereador Amarildo.

Pergunta - Enquanto isso, lá no conselho, seguia a discussão...

Resposta - Enquanto isso o conselho seguia a discussão com uma certa... eles não queriam... não é que eles não queriam, tinha uma certa resistência, o conselho deslanchou mesmo com as minhas denúncias a partir do momento que o seu Cardoso assumiu a presidência, porque aí eu fiz as denúncias e ele apoiou as denúncias com alguns conselheiros como o Dudu Ranieri, o Pili Cardoso, o seu Durvalino, era a minoria ali que apoiava, a maioria tinha resistência em apurar o caso.

Pergunta - E logo no começo do ano, fevereiro, se não me engano, você teve uma desagradável surpresa, que foi, em sequência das suas denúncias, a demissão, e por justa causa, não é?

Resposta - Exatamente. No início eu pensei em denunciar para a Câmara, mas aconteceu que uma certa noite, quando eu estava saindo do trabalho, às 19h, 19h30, eu encontrei com o vereador Amarildo. Aproveitando que ele estava no hospital também por denúncias, conversei com ele e falei o que estava acontecendo. Comentei com ele o empréstimo de R$ 16 milhões, do desvio de R$ 4 milhões que foi para pagar uma conta do então presidente sr. Saab, uma conta pessoa física, sendo que saiu dos cofres do hospital, comentei o fato do elevador ter quebrado quatro meses, os funcionários levando as roupas sujas e as roupas limpas na mesma escada, e isso é errado porque a roupa contaminada tem que passar por uma porta e a limpa pela outra, e isso não acontecia Durante quatro meses a roupa limpa encontrava nas escadas a contaminada, sendo que os funcionários carregavam nas costas, e isso era um absurdo. E eu questionava quando iam consertar e os funcionários falavam para mim que ouviram comentários que não ia consertar enquanto o hospital não fizesse o pagamento dos valores. E eu fiquei preocupada porque já que sumiu o dinheiro, porque desviou o dinheiro, que pagou conta do senhor. Saab de R$ 4 milhões, por que não pagar as contas do hospital para os equipamentos funcionarem e não prejudicar nem os funcionários, nem os pacientes? E comentei também da alimentação dos funcionários que, à noite, comiam comida azeda. A comida vinha azeda para os funcionários e eles não podiam reclamar porque, se reclamassem da comida, a gerente de enfermagem mudava de plantão. Tinha uma certa perseguição com os funcionários também, e não podiam reclamar porque eram perseguidos. E comentei com ele da dificuldade que eu estava tendo no conselho para fazer as denúncias e pedi para que ele me ajudasse de alguma forma, como ele era eleito pelo povo ele teria como me ajudar. E foi isso que aconteceu. Passou um tempo e isso tudo eu falei na presença do ex-vereador Benedito e do supervisor de segurança Joel.

Pergunta - Foi logo depois sua demissão?

Resposta - Passados dois dias, eu recebi uma ligação no meu setor de trabalho que o seu Vladmir Scarpp queria ter uma reunião comigo, então eu falei tudo bem, que eu ia sim. Chegando lá estavam o dr. Samuel, o Vladmir, o Joel, o supervisor dos porteiros, a Carla Ceppo e o Celso, que também é conselheiro. E começaram a me questionar do que eu tinha falado para o vereador Amarildo. Eu falei: eu disse as verdades, o que estava acontecendo aqui. “Mas que verdades?”, perguntaram. Eu falei, comentei tudo que tinha falado para ele, o desvio do dinheiro R$ 16 milhões, os R$ 4 milhões, do total abandono que estava o hospital, como estavam sendo tratados os pacientes, comentei também que faltava equipamento no centro cirúrgico e que os pacientes que entravam em jejum ficavam o dia inteiro em jejum, com fome, quando iam fazer cirurgia eles iam para o centro cirúrgico e voltavam porque não tinha equipamento, alguns foram até anestesiados, recebiam anestesia e voltavam para o setor sem fazer a cirurgia, e isso é desumano, é um absurdo com o paciente, porque o paciente, muitas vezes humilde, nem percebia o que estava acontecendo, achava que isso era normal, isso não é normal, o paciente tem que ser tratado com humanização, mas na realidade não acontecia, era totalmente desumano com os pacientes e com os funcionários. Aí depois, passados dois dias dessa reunião com a diretoria do hospital, fui trabalhar e quando eu cheguei tinha um guarda me esperando que disse para mim não entrar que eu ia ser demitida por justa causa por ter feito as denúncias, e no dia da reunião o sr. Vladmir falou que eu tinha prejudicado o hospital, que eu tinha feito denúncias infundadas, que eu tinha denegrido a imagem do hospital e que ele ia tomar uma atitude em relação ao meu posicionamento. Eu falei que ele podia tomar uma atitude sim porque eu estava falando a verdade e não tinha medo.

Pergunta - E depois você foi para a Justiça do Trabalho e conseguiu anular a demissão por justa causa, não voltou para o hospital, mas pelo menos isso foi consertado, não é?

Resposta - Então, depois que eu fui mandada embora por justa causa o hospital mandou uma carta para o seu Cardoso, que é do Conselho Administrativo, que eles queriam a minha saída imediata também do conselho. Então, o seu Cardoso ele falou que não podia me tirar do conselho porque eu fui eleita pelos funcionários, e como eu fui no Ministério do Trabalho, fiz uma denúncia com um advogado do que estava acontecendo comigo e o advogado entrou na Justiça, eu estava sub judice, então, como eu estava sub judice, eu teria direito de participar das reuniões e fazer parte do conselho. E foi acatado pelo conselho, teve uma votação e o conselho todo aprovou a minha permanência. Então, mesmo sendo afastada por justa causa eu continuei no conselho, participando de todas as reuniões e acompanhando as denúncias, de perto.

Pergunta - Você disse que o elevador não funcionava, que roupa que acabava de ser usada em cirurgia se misturava com roupa limpa, fale sobre isso em detalhes?

Resposta - Na realidade, na lavanderia da associação, eu não sei como a Vigilância (Sanitária) está deixando ainda funcionar, porque aquilo é um absurdo, os equipamentos são muito velhos, teve funcionário que já teve acidente de trabalho gravíssimo dentro da lavanderia, os equipamentos não têm manutenção, o elevador ficou quebrado quatro meses porque quebrou uma peça e o hospital não tinha dinheiro para pagar a peça do elevador, devido a isso os funcionários ficaram quatro meses colocando em situação de risco os pacientes porque é roupa de centro cirúrgico do Hospital de Base e também da maternidade, então, é uma escadinha, para vocês entenderem, tem uma escada que leva a lavanderia até o primeiro andar do hospital, então, aquelas roupas desciam e subiam sujas com limpas, com o sangue, com secreção, com tudo, com tudo, era cruzamento de roupa ali, e não pode, é risco grande de contaminação.

Pergunta - E o setor de alimentação?

Resposta - A cozinha também, eu também falo a mesma coisa, eu não sei como a vigilância ainda não fechou a cozinha porque é um absurdo, os equipamentos não têm manutenção, muito, muito, muito antigo, o setor de água tem vazamentos, constantes vazamentos dentro da cozinha e funcionários já viram até ratos dentro da cozinha, tanto na cozinha como na lavanderia, é um absurdo, ali vaza água, aquela água podre, suja, contaminada e fica por isso mesmo, ninguém faz nada, quando eu questionava, vamos reformar a cozinha?, não pode, porque o hospital não tem dinheiro, o hospital nunca tinha dinheiro, a desculpa sempre era essa, o hospital está com dificuldade financeira.