08 de julho de 2026
Geral

Entrevista da semana

Ana Paula Pessoto
| Tempo de leitura: 10 min

Para Riad, arquitetura deve impressionar

Riad Elia Said nasceu no Líbano onde também cresceu, realizou o sonho de ser arquiteto e viveu por 24 anos até concretizar um outro grande sonho de infância: conhecer o Brasil. Conheceu e gostou tanto que voltou para o Líbano, casou-se e veio de mudança para o País cuja beleza e pessoas sempre o encantaram.

Foi em São Paulo que “seo” Riad começou a trabalhar com arquitetura no Brasil e montou sua empresa, a Residec Construtora. Paralelamente, expandiu os negócios para Bauru onde teve o apoio e ajuda dos irmãos que vieram antes dele para o País. Mais tarde, com o crescimento do empreendimento na cidade, o arquiteto se mudou com a esposa e filhos, onde criou e executou mais de 25 grandes obras e recebeu o título de Cidadão Bauruense - de todos, o que mais o emocionou.

Há cinco anos, o libanês que adotou e foi adotado por Bauru é o diretor regional do sindicato da habitação (Secovi). Ele acredita que na revitalização do centro comercial de Bauru está a principal solução para os problemas arquitetônicos da cidade.

Riad Elia Said foi escolhido como o “arquiteto do ano” pela 6.ª edição do Festival Imobiliário de Bauru (Feimob). Ele abre sua vida pessoal e profissional ao Jornal da Cidade. Leia os principais trechos da entrevista.

Jornal da Cidade - Como foi sua infância no Líbano?

Riad Elia Said - Minhas lembranças são de uma infância bastante feliz e sonhadora.

JC - Quais eram os seus sonhos?

Riad - Sonhava com o Brasil. Desde menino tinha muita vontade de conhecer esse País maravilhoso. Eu tinha 4 anos de idade quando o primeiro de nós foi para Ipaussu morar com um tio com o intuito de começar a vida. Lembro-me que esperávamos com ansiedade as correspondências do Brasil, que eram diferentes das outras internacionais e conhecidas por suas faixas verde e amarelo. Somos em nove irmãos, cinco homens e quatro mulheres. Quatro homens e uma irmã já tinham vindo para cá quando eu decidi realizar meu sonho de também conhecer o Brasil.

JC - Quando isso aconteceu?

Riad - Me formei em arquitetura no Líbano e decidi que visitaria meus irmãos e realizaria meu sonho de infância. Isso foi em 1971. Um irmão foi chamando o outro. Eu vim por caminhos diferentes dos demais imigrantes, vim para estudar a convite da Universidade de São Paulo (USP), de quem ganhei uma bolsa de estudos para fazer pós-gradução e pesquisas. Eu tinha uns 24 anos. Estudei, conheci o País e visitei meus irmãos.

JC - O que mais chamou a atenção do senhor nessa primeira viagem?

Riad - Como disse, sou encantado pelo Brasil desde muito pequeno e o conhecia por fotos e postais, inclusive Bauru. Uma vez recebi uma foto aérea da cidade e fiquei admirado pela topografia e pela forma como é desenhada.

JC - Foi a arquitetura brasileira que o encantou?

Riad - A arquitetura, a natureza e as pessoas.

JC - Ainda tem família no Líbano?

Riad - A maior parte está aqui. Lá, tenho apenas uma irmã.

JC - E como o seu talento para a arquitetura surgiu?

Riad - Toda pessoa que sonha gosta de projetar, e o arquiteto, sem sonhar, não consegue projetar uma coisa boa. Essa paixão me acompanha desde cedo. Comecei a trabalhar como ajudante em obras e senti gosto pelas construções. Eu desenhava coisas pequenas sem ter noção nenhuma de arquitetura.

JC - Além do Brasil, o senhor estudou em outros países?

Riad - Fiz estágio em Londres e em Paris antes de me formar.

JC - O senhor conheceu muitos países. Por que escolheu o Brasil?

Riad - E continuo gostando muito. Por haver muitas pessoas de origem libanesa, o laço que existe aqui é grande. O brasileiro tem muita ligação com o povo libanês. Ambos são abertos, acolhedores e com uma natureza linda. O Brasil tem natureza, povo, música e artes fantásticas e tudo é muito semelhante para o libanês. Inclusive, a tese da minha pós-graduação foi a comparação entre uma cidade brasileira e outra libanesa.

JC - Quais são as semelhanças e as diferenças entre elas?

Riad - Olha, cada uma tem sua cultura porque depende de material e de conceito. Lá, a arquitetura tradicional e mais antiga era feita de pedra. Aqui, apesar da maioria ser de tijolos, tem sua beleza. Na arquitetura antiga, o ponto de semelhança está na maneira de construir. Eu acho que pau-a-pique é muito semelhante com a arquitetura antiga do Líbano.

JC - Como a sua trajetória profissional foi desenhada?

Riad - Fui convidado a trabalhar em um escritório de arquitetura em São Paulo, onde comecei minhas atividades projetando e acompanhando construções. Pouco tempo depois, comecei a fazer serviços por minha conta. Abri minha empresa, a Residec Construtora, e passei a projetar e a executar. Há mais de 25 anos e em paralelo ao trabalho de São Paulo, eu abri, junto com meus irmãos, um escritório em Bauru. Na verdade, foi a ampliação da empresa de São Paulo. Continuei morando na Capital do estado e vinha acompanhar o trabalho aqui e, quando o serviço aumentou muito, já estava preparado para vir para cá. Fizemos uma reunião de família e meus filhos, ainda crianças, e minha esposa aceitaram a mudança. Todos gostavam muito de passar finais de semana no interior.

JC - O senhor veio casado do Líbano?

Riad - Vim estudar, voltei para o Líbano, me casei e viemos morar no Brasil. Ela não teve grandes dificuldades porque também tinha parentes aqui. Hoje, como eu, Florence se considera uma bauruense.

JC - Já foi premiado por seu trabalho?

Riad - Felizmente já recebi muitas homenagens e uma das que mais me deixou feliz foi o título de Cidadão Bauruense. Ele representa um reconhecimento profissional e humano, além disso, significa que fui adotado pela cidade que também adotei.

JC - Quais são seus trabalhos de maior destaque em Bauru?

Riad - Para mim, todas as obras que nós fizemos tem muita importância porque eu gosto do que faço junto com a minha equipe. Agora, cada empreendimento tem seu projeto e sua época. Eu não posso falar que um ou outro é o melhor. Cada um teve sua vez. O arquiteto tem que colocar o melhor do seu conhecimento, seu gosto arquitetônico e também o melhor material. Entre os muitos empreendimentos que fizemos aqui em Bauru, e foram mais de 25, na minha opinião de arquiteto, o melhor foi ser sincero com o projeto.

JC - Esse é o seu segredo?

Riad - Sim. É preciso impressionar sem explicar o projeto. Uma pessoa passa pela rua, olha a construção e diz: “Bonito”. Você sente que aquilo saiu de dentro da pessoa, ela gostou e não sabe o porquê. Mas, a arquitetura não é somente para enfeitar, ela é a combinação entre a forma e a estética com a função. Se o ser humano não sentir conforto, segurança e que a necessidade espacial dentro de si foi atendida, não há arquitetura e sim uma mera construção. Le Corbusier é o pai da arquitetura moderna e disse que aquilo que fica das atividades humanas não é o que serve, mas o que emociona. Ou seja, aquilo que te impressiona, não se apaga da sua mente e o corriqueiro, o fazer por fazer, some.

JC - Para o senhor, quais são os grandes desafios arquitetônicos de Bauru?

Riad - A revitalização do centro comercial. A cidade precisa voltar a ocupar a linha de progresso. Bauru nasceu e cresceu a partir da estação ferroviária e a linha do trem tem muitas construções ociosas e abandonadas. São espaços bonitos do ponto de vista arquitetônico e do ponto de vista do espaço, grandes. Porém, não são aproveitados. O maior desafio é tentar voltar a moradia para o centro. Foram feitas ações de limpeza na Batista mas, na minha opinião, ações maiores precisam ser feitas como aproveitar aquelas construções da linha férrea, doando-as para entidades culturais, faculdades e centro de lazer. Centros de estudos reanimam qualquer bairro porque os alunos precisam morar o mais próximo possível do estudo. O Poupatempo, onde foi instalado, é um ponto positivo da cidade.

JC - Como chegou à direção regional do Secovi?

Riad - O então presidente do órgão me fez o convite há cinco anos. Eu agradeci e aleguei que não tinha tempo. Ele me perguntou se eu não queria ajudar minha cidade instalando uma unidade em Bauru e integrando-a com São Paulo. Realmente isso me tocou um pouco e pedi dois meses para conhecer o Secovi porque eu só sabia que ele é o sindicato da habitação. Depois de conhecer, fiquei tão encantado que era para ficar um ano e já estou no quinto.

JC - Quais são os benefícios que o Secovi trouxe para a cidade?

Riad - Em primeiro lugar, é uma entidade sem fins comerciais e a cultura que introduz, cursos, revistas, informativos e a oportunidade de estudo para ajudar os profissionais da área, é muito bom. Além disso, o Secovi tem o seu braço social que ajuda meninos de rua com orientação profissional e cidadania. Também ajuda com doações de brinquedos, roupas etc. É um sindicado longe da demagogia, que age social e profissionalmente. E o melhor, sem esperar retorno.

JC - O que faz quando não está trabalhando?

Riad - Gosto de praticar esportes. Faço natação e condicionamento físico três vezes por semana. Para mim é uma diversão. Também saio com a família e amigos para jantar, passear ou viajar.

JC - O que a família e os amigos representam para o senhor?

Riad - Tudo o que é bom!

JC - O senhor é um homem bem sucedido. Como vê todas as conquistas?

Riad - Do ponto de vista profissional é a realização do sonho de menino. Mas, para ficar completo, preciso ver a justiça social feita. Digo sempre para meus filhos e sobrinho que quem quer, chega. Quem tem objetivos na vida, consegue realizá-los. Quando pequeno eu desenhava casinhas e dizia que seria engenheiro. Cresci, senti gosto pela arquitetura e me considero feliz com o que faço. Passo horas e horas projetando e desenhando e não sinto o cansaço chegar.

JC - O senhor já viajou muito?

Riad - Viajo sempre para São Paulo e Líbano. Conheço alguns lugares do Brasil, mas preciso viajar mais, principalmente para o Nordeste já que ainda não tive a oportunidade devido ao trabalho. Estou com planos de diminuir o ritmo para viajar mais.

JC - Qual é o seu sonho atual?

Riad - Continuar muito feliz com minha família. Ganhamos o primeiro neto há dois meses e nossa alegria aumentou ainda mais. Meus dois garotos são arquitetos, além de ter uma equipe grande formada por sobrinhos e amigos que também considero como família. Não tem nada melhor do que sentir as pessoas que você gosta ao seu lado. Nunca forcei nada com meus filhos, eles vieram por vontade própria. Tanto é que brinquei com minha filha dizendo que ela devia seguir os irmãos, mas ela preferiu o direito. Outro grande sonho, esse como arquiteto, é que cada ser humano tenha seu próprio teto.

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Perfil

Nome: Riad Elia Said

Idade: 64 anos

Local de Nascimento: Líbano

Signo: Câncer

Esposa: Florence

Filhos:Rodrigo, Fernanda e Rogério

Hobby: Leitura, esportes, artes e viagens

Livro de cabeceira: “Dois irmãos” de Milton Hatoum

Filme preferido: “Uma linda mulher”

Estilo musical predileto: MPB

Time: Corinthians

Para quem dá nota 10: Ao progresso

Para quem dá nota 0: À impunidade

E-mail: residec@reside.com.br