O oficial de cartório aposentado Henrique Dyna residente em Domélia conta que por várias vezes os brancos tentaram invadir a aldeia dos índios Oti-xavantes. Nesses ataques ocorreram grandes baixas na população indígena. “Eles tinham até cemitério separado.”
Mas, segundo ele, os índios reagiram e foram à revanche. “Os brancos invadiam a área ocupada por eles e queriam tomar as terras. Em uma dessas investidas, eles reagiram e mataram cerca de 60 pessoas de uma única vez.”
Os corpos foram transportados de charretes para a cidade a fim de serem enterrados. “É o caso mais famoso e comentado aqui em Domélia.”
A história desses índios foi pouco estudada, segundo o historiador João Francisco Tidei de Lima, que escreveu “A ocupação das terras e a destruição dos Índios na região de Bauru”. A dizimação foi rápida que os historiadores não tiveram tempo de estudar, explica.
Um desses ataques é citado na dissertação de mestrado em Ciências Humanas de História Social pela Universidade de São Paulo (USP) em 1978 com base em relatório da repartição geral de terras públicas de 1859. A Freguesia de São Domingos foi salteada pelos índios, mas os moradores repeliram obrigando-os a abandonarem em fuga diversos objetos furtados.
De acordo com João Tidei de Lima, o antropólogo Egon Shaden citou os Oti-xavantes em um artigo no antigo Diário de São Paulo de Assis Chateaubriand. “Na ocasião do IV centenário de São Paulo, em 1954, ele fez um trabalho interessante sobre a população indígena do Estado. Mapeou a população indígena. Ele cita que na região de Campos Novos Paulistas, entre Ourinhos e Marília pela rodovia, havia 500 índios Oti-xavantes que foram dizimados pelos brancos. Não sobrou ninguém para contar a história. Eles teriam habitado a região no final do século 19, começo do 20.”
A destruição da população indígena, ressalta Tidei de Lima, foi obra de fazendeiros. “Eles contratavam as tropas de bugreiros para dizimar os índios e tomar posse da terra. Esses homens eram pagos para acabar com toda uma aldeia e recebiam por isso.”
O historiador explica que a expressão bugreiros é francesa e significa pessoa má. “Os índios eram em pequeno número. Os bugreiros acabavam com eles rapidamente. Eles serviram, posteriormente, às empreiteiras que construíram as ferrovias. As doenças transmitidas pelos brancos também cooperaram com as mortes indígenas.”
O poder dos proprietários de terras era tão grande na época que eles conseguiam desviar a trajetória de uma linha férrea. “A Estrada de Ferro Sorocabana deveria passar por Campos Novos Paulista a partir de Botucatu, mas foi desviada por força do coronel Sanches de Figueiredo que mantinha o título por tê-lo adquirido”. O coronel não teria permitido que a estrada passasse pela sua propriedade.
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Indígenas foram massacrados
A onda repressiva do braço armado da ocupação do Oeste de São Paulo adquiriu uma rapidez avassaladora, a ponto de riscar sumariamente do quadro etnográfico brasileiro os índios Oti-xavantes. “O fulminante extermínio não permitiu que fosse conhecido os Oti-xavantes”, lembra João Francisco Tidei de Lima.
O professor conta que o principal relator da agonia da sociedade dos Otis no século 20 foi o antropólogo alemão Curt Unkel, chamado pelos índios guaranis do Oeste Paulista, de Curt Nimuendaju. Ele reconstitui a trajetória dos Otis, desde os anos 1870, quando os campos do vale do Paranapanema começaram a ser invadidos pelo gado dos criadores.
Reunidos em aldeias de 30 a 40 pessoas, não somavam os Otis mais do que 500 ao todo, quando o território - tornado devoluto pela Lei de Terras de 1850 - foi apropriado por José Theodoro e por seu genro João da Silva. Como reagissem à invasão de seu território, diz Nimuendaju, os Otis tiveram como resposta, ainda na década de 1870, a primeira das grandes chacinas que levariam o grupo ao extermínio. Chamavam-se dadas as expedições armadas com a finalidade de destruir as aldeias. Novas incursões foram organizadas, relata Nimuendaju, por um tal João Hipólyto, que morava nas vizinhanças de Platina.
Em 1893, a Câmara de Campos Novos relata a presença naquela vila, de três índios Otis sem recursos para alimentar-se. “Apertados de um lado pelos fazendeiros criadores, e de outro, pelos índios Caingangues, estão numa pequena extensão de campo, que já não tem mais caça, a ponto de morrerem de fome”,
Em 1903, restavam dos Otis um homem, quatro mulheres e quatro crianças. O último Oti é José “Xavante”, capturado numa dada, onde perdeu pai e mãe. Já foi vendido uma vez e em outra trocado por uma vaca.