10 de julho de 2026
Geral

Apagão revela a ausência de planos emergenciais nos serviços públicos

Luiz Beltramin
| Tempo de leitura: 4 min

Cidade, Estado e País não estão preparados, de maneira geral, para enfrentar interrupções prolongadas e inesperadas no fornecimento de energia elétrica. A exemplo dos problemas causados pelo blecaute ocorrido entre a noite de terça e madrugada de ontem, quando 18 Estados ficaram parcial ou totalmente às escuras - segundo o Ministério das Minas e Energia, devido a um curto-circuito ocorrido na região de Itaberá (SP) nas linhas de transmissão da energia gerada em Itaipu - novos transtornos não estão livres de ocorrer pela falta de um plano emergencial por parte de órgãos públicos, alerta a Defesa Civil.

Dificuldade no atendimento por parte de serviços essenciais, entre eles Corpo de Bombeiros, hospitais, segurança pública e controle de trânsito, além da fragilidade, exposta com o mais recente apagão, do próprio sistema de transmissão de energia elétrica, evidenciam a carência de um plano de urgência e contingência para suprir a falta prolongada de energia elétrica.

Das 22h13 de terça-feira até as 3h20 de quarta, a exemplo de outras cidades de médio e grande porte em todo o País, moradores de Bauru enfrentaram alguns transtornos como o desligamento de semáforos, dificuldades em contato telefônico com serviços públicos e, principalmente, medo, não “do escuro”, propriamente dito, mas dos que podem agir sob as sombras do blecaute (leia texto ao lado).

Dificuldades em elaboração de boletins de ocorrência no Plantão Policial, bem como alegado congestionamento nas linhas telefônicas do Corpo de Bombeiros e Polícia Militar, segundo pessoas que reclamaram à redação do JC, também seriam outros transtornos gerados pelo apagão em Bauru.

Por outro lado, assegura o tenente-coronel Benedito Roberto Meira, comandante do 4º batalhão da PM em Bauru, a corporação não sentiu os efeitos do blecaute no atendimento, que de acordo com o oficial, ocorreu integralmente e sem problemas nos 38 municípios sob abrangência da unidade.

“Não é verdade isso (supostos telefonemas não atendidos). Nosso centro de operações funcionou normalmente. Houve dificuldades no Samu (Serviço de Atendimento Móvel de Urgência) e Bombeiros”, observa o tenente-coronel. “Não tivemos problemas”, insiste o oficial, que, apesar da alegada normalidade, enumera iniciativas que otimizarão o serviço, entre elas a construção de um novo centro de operações e o aumento no número de atendentes. Extraoficialmente, o JC apurou que a corporação recebeu, durante o blecaute, em torno de 1,9 mil telefonemas, mais do que o dobro em circunstâncias rotineiras.

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Noite de pavor

“A noite não acabava nunca. Fiquei apavorada quando quatro ou cinco pessoas gritavam em frente à minha loja, dizendo que iam invadir”, relata a comerciante Maria José Simão, proprietária de uma loja de aluguel de trajes no Jardim Carolina. “Liguei quatro vezes para a polícia durante a madrugada, implorei para passarem aqui. Ninguém veio. Por Deus que não invadiram a minha loja”, diz, revoltada.

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Contra o caos

Para Álvaro de Brito, coordenador da Defesa Civil em Bauru, os órgãos públicos, de forma geral, não têm salvaguarda contra blecautes prolongados. “Com relação ao serviço público, há a necessidade de uma estrutura para se evitar o caos”, atenta. “Felizmente não tivemos grandes problemas em Bauru, mas é fundamental que haja uma melhor preparação”, observa.

Nos hospitais, por exemplo, o coordenador sugere a instalação de três geradores de energia. “Um estaria em constante manutenção, um em atividade e outro reserva”, detalha Brito. Em contato com um funcionário do Hospital de Base, o coordenador da Defesa Civil na cidade testemunha que, por sorte, a unidade hospitalar também não ficou às escuras. “Tive a informação de que a geração no hospital não suportaria mais duas horas (além do que funcionou durante o blecaute)”, aponta Brito. “Empresas e hospitais de São Paulo possuem terminais para receber energia de geradores móveis, com caminhões, geralmente usados por emissoras em transmissões esportivas”, ilustra.

O coordenador também aponta procedimentos estruturais para o trânsito, em caso de nova penumbra. “Em Nova York, mesmo com a falta de energia após os atentados de 11 de setembro, os semáforos continuaram funcionando devido a sistema de emergência. Aqui não temos isso”, exemplifica Brito, que, paradoxalmente, atribui a falta sistemas emergenciais e de contingência ao, segundo ele, bom serviço prestado pelas concessionárias.

“As concessionárias do Estado de São Paulo estão entre as melhores do Brasil. O alto padrão no atendimento gera certa acomodação, pois os problemas não são freqüentes”, atribui. “Muitas pessoas ficaram às escuras em suas casas por não ter uma lanterna ou vela guardados.”