10 de julho de 2026
Economia & Negócios

Chuva não explica apagão, diz IPMet

Tisa Moraes
| Tempo de leitura: 4 min

O apagão que atingiu os Estados da região Centro-Sul do País entre a noite de terça e madrugada de quarta-feira, quando 18 Estados ficaram parcial ou totalmente às escuras, dificilmente foi provocado pelas chuvas fortes ou pela queda de um raio. Segundo o Instituto de Pesquisas Meteorológicas (IPMet) da Universidade Estadual Paulista (Unesp), um dos três mais importantes do Brasil, a suspeita é de que o blecaute tenha sido motivado por outras causas que não as intempéries daquele dia.

Em entrevista coletiva concedida anteontem em Brasília, o ministro de Minas e Energia, Edson Lobão, culpou as condições meteorológicas adversas na região de Itaberá (SP) pelo curto-circuito nas linhas de transmissão da energia gerada na usina hidrelétrica binacional de Itaipu. “Todos chegaram à conclusão que foram descargas atmosféricas, ventos e chuvas muito fortes na região de Itaberá (SP). Houve uma concentração desses fenômenos atmosféricos ali. O que provocou um curto-circuito nos três circuitos que levam a Itaberá, que vêm de Itaipu”, disse. No encontro com a imprensa, no entanto, nenhuma medida emergencial para evitar que o problema se repita ficou estabelecida.

Mas, conforme aponta o meteorologista do IPMet Mateus da Silva Teixeira, as imagens detectadas pelo radar do instituto não apontaram chuvas incomuns naquela região, que fossem capazes de provocar tamanho problema. “A chuva que atingiu Itaberá não teve nada de excepcional, foi uma tempestade fraca, muito comum no Estado. A parte mais forte de chuva nesse mesmo sistema de nuvens, detectado pelo radar, caiu em Taquarituba, que fica 40 quilômetros ao Norte de Itaberá”, comenta o meteorologista.

Para efeito de comparação, Teixeira ressalta ainda que, no mesmo horário, uma chuva muito mais intensa atingiu a cidade de Jaú (a 47 quilômetros de Bauru). Conforme o Corpo de Bombeiros daquela cidade informou anteontem ao JC, a chuva foi forte na cidade na noite em que ocorreu o apagão, mas não causou grandes transtornos além da queda de árvores em uma estrada municipal.

“Na imagem do radar, é absurdamente nítida a diferença entre a intensidade de chuvas de Jaú e Itaberá naquele dia”, frisa Teixeira. Em Bauru, na terça-feira, o IPMet registrou chuvas isoladas de intensidade moderada entre 19h45 e 21h30. Neste horário, as chuvas mais fortes se localizavam na região de Pederneiras, mas as nuvens carregadas se deslocaram e passaram a atingir a cidade de Jaú por volta das 22h13, horário do apagão. A exemplo de outras cidades de médio e grande porte em todo o País, Bauru e região ficaram às escuras até as 3h20 de quarta-feira.

Chances mínimas

Contrariamente ao que se pode imaginar, o meteorologista do IPMet explica que uma tempestade pode receber uma série de classificações, que vai de fraca a extrema. A variação se dá de acordo com a intensidade e freqüência de descargas elétricas, ventos e chuvas. “É possível que ocorra uma tempestade com pouca chuva, com uma intensidade fraca e que passe por uma região rapidamente. Isso é muito comum nesta época do verão”, exemplifica.

Em nota divulgada anteontem, o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) também destacou que as chances de um raio ter causado o apagão são “mínimas”. Segundo especialistas do Grupo de Eletricidade Atmosférica (Elat), embora houvesse uma tempestade passando sobre a região de Itaberá no momento do blecaute, nenhuma descarga elétrica foi detectada próxima às linhas de transmissão.

Além disso, mesmo que um raio tivesse atingido diretamente a rede, a intensidade das descargas registradas (abaixo de 20 mil amperes) não era suficiente para causar nenhum problema nas linhas de energia que passam pelo local, com tensões de 600 mil e 750 mil volts. “O instituto é especialista em raios e nós só temos que concordar com o que foi dito”, frisa o meteorologista do IPMet.

“Para desligar uma linha como esta seria necessária uma descarga de, no mínimo, 80 mil amperes. E o raio teria de cair exatamente sobre a linha”, disse o coordenador do Elat, Osmar Pinto Júnior.

Em entrevista concedida anteontem ao Jornal da Cidade, o prefeito de Itaberá, Walter Sergio de Souza Almeida (DEM), ressaltou que não houve tempestade forte por volta das 22h. Segundo ele, choveu 40 mm, mas não houve queda de raios. O prefeito afirmou ainda que a cidade, assim como os municípios vizinhos de Itapeva, Itararé e Itaberá, permaneceram iluminados durante todo o período do apagão.