09 de julho de 2026
Articulistas

O banal sem banalidade

José Renato Ferraz da Silveira
| Tempo de leitura: 3 min

Longe de Bauru, a saudade bate no peito. Nunca esqueço de onde vim! Nas gotas de chuva que molham o orgulho e a glória de minha árdua e suada conquista, sinto uma imensa vontade de voar. “Lembro de tudo que vivi e o que tenho por dentro ninguém pode me roubar”. Voarei e atravessarei vales, montanhas, rios - sem pagar pedágio, a multa pelo controle de velocidade e se arriscar por estradas esburacadas - para logo rever meus pais, gatos, cachorros, pássaros, amigos e colegas, enfim, você, doce e inesquecível amor.

Embora distante, acompanho o dia-a-dia bauruense através das notícias do site do Jornal da Cidade. Mesmo sendo obrigado a ler com cautela os “supostos” atos de corrupção – acusação de desvio de recursos públicos, superfaturamento e cobranças indevidas de serviços na Associação Hospitalar de Bauru – dos diretores da AHB Joseph Saab, presidente da associação há 14 anos; Marcelo Saab, dentista e filho do presidente; Vladmir Scarpp, superintendente e diretor financeiro; Samuel Fortunato, diretor técnico e responsável pelo setor de compras; Célio Parisi, conselheiro; e Maria Lúcia Lopes Saab, supervisora de serviço de apoio.

Bem, deixemos de lado esse tema delicado que exige muita, muita cautela. Hoje me adapto e convivo com uma nova realidade: encontro-me na cidade de Santa Maria, no Rio Grande do Sul. Cidade de conflitos entre portugueses e espanhóis. Recebeu uma forte presença de italianos e principalmente de alemães vindos de São Leopoldo.

Santa Maria, cidade esta por onde passou Lupicínio Rodrigues. Conheçam essa curiosidade! A vinda de Lupicínio para Santa Maria se deu porque quando ele tinha apenas 14 anos, compôs sua primeira música, “Carnaval”, para um cordão chamado Prediletos.

Precocemente, já freqüentava a boemia e suas amigas inseparáveis: as bebidas e as serenatas. O pai não gostou e o obrigou a se alistar no Exército, aos quinze anos, como “voluntário”. Em 1933, ele foi transferido para cá, e promovido a cabo. Aqui, conheceu Iná, que se tornaria uma grande musa inspiradora de sua obra. A relação chegou ao noivado, durando cinco anos, mas acabou porque a família da moça não aceitou a vida boêmia que Lupicínio levava.

Lupicínio Rodrigues é um dos compositores mais originais da música popular brasileira. Para muitos, ele se destacou como o criador da “dor-de-cotovelo”. A expressão, graças a ele, passou a designar um estilo de canção que trata das desventuras amorosas, um tema sobre o qual Lupicínio foi um criador imbatível.

“Suas músicas podem lidar com o banal, mas não são banais”, escreveu o poeta Augusto de Campos sobre ele. De fato, poucos foram capazes de tanta imprevisibilidade no âmbito da poesia da nossa música popular. De tanta força, fluência, precisão e contundência nos versos”. Na maior parte das crônicas publicadas no jornal “Última Hora”, de Porto Alegre, em 1962 e 1963, o compositor conta a história das suas músicas: “Eu tenho sofrido muito nas mãos das mulheres, porque sou muito sentimental, mas também tenho ganhado fortunas com o que elas me fazem...”.

A música que considero a obra-prima de Lupicínio Rodrigues é Felicidade, nela ele alcançou a tão sonhada projeção nacional.

Nesse momento é uma música que expressa esse estado de melancolia e carregado de boas lembranças que me encontro e partilho com o leitor. “Felicidade foi se embora E a saudade no meu peito ainda mora E é por isso que eu gosto lá de fora. Porque sei que a falsidade não vigora. A minha casa fica lá detrás do mundo Onde eu vou em um segundo quando começo a cantar O pensamento parece uma coisa à toa Mas como é que a gente voa quando começa a pensar”. Que saudades, Bauru!

O autor, José Renato Ferraz da Silveira, é doutor em Ciência Política pela PUC-SP, Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, professor adjunto da Universidade Federal de Santa Maria, UFSM. jreferraz@hotmail.com