Se hoje em dia é difícil imaginar uma criança vindo ao mundo em outro lugar que não seja um hospital ou maternidade, há algumas décadas o cenário era inverso: via de regra, lugar de nascer era em casa. Fundamentais, as parteiras simbolizavam mais que o instrumento para a chegada de nova vida em lares, mas alento para famílias que não tinham a quem recorrer para auxiliar no nascimento de seus novos membros.
Requisitadas, principalmente, em áreas rurais, onde a presença de médicos era escassa, fizesse chuva ou sol, elas eram responsáveis pela vinda à luz de diferentes gerações de uma mesma família.
Em Bauru e região, até os idos da década de 1960, não foi diferente. “Até os anos 50 ou 60, não haviam tantos médicos. Tinha os hospitais, Santa Casa, mas a assistência para partos, ainda mais junto à população da zona rural, era difícil”, comenta a historiadora Márcia Navas Sobreira, da Universidade do Sagrado Coração (USC).
Autora de livro com trecho dedicado à célebre Parteira Bernardina, responsável pelo corte do cordão umbilical de muitos bauruenses no início do século passado, a estudiosa atribui intervenção médica em nascimentos apenas às classes mais abastadas. “Os ricos é que procuravam por hospitais e que solicitavam os chamados médicos de família”, completa.
Em sua obra, intitulada “Santos Populares”, a historiadora relata o que conseguiu extrair das raras fontes documentais sobre Bernardina Maria Conceição, cujos préstimos, de tão admirados na cidade, renderam-lhe até denominação de praça. Após sua morte, em 1940, ela empresta o nome para o jardim ao lado da avenida Pedro de Toledo, na confluência entre as ruas Cussy Júnior e Quintino Bocaíuva.
O local, denominado assim até hoje, foi batizado “Parteira Bernardina”, salienta a historiadora, por meio de decreto assinado pelo então prefeito Nicola Avalone Júnior. O prestígio de Bernardina é endossado também por outra lei municipal, que institui o túmulo onde está sepultado o corpo de Bernardina, no Cemitério da Saudade, como jazigo perpétuo, ou seja, decretado intocável.
A escassez de documentos sobre a antiga parteira, comenta a historiadora da USC, é justificada pelo fato de Bernardina ser negra e filha de escravos. “Não há fotos ou qualquer outro tipo de imagem. A falta de informações sobre ela é justificada por ela ter nascido no tempo da escravidão, ser analfabeta. Por isso não encontra-se quase nada”, atribui.
Mesmo com as limitações que a sociedade lhe impôs pela cor da pele, a parteira Bernardina, que, entre populares que freqüentam seu túmulo – crentes em supostos milagres ou intersecções da graça divina – também é chamada de “Mãe Preta”, deteve grande prestígio entre diferentes camadas da sociedade bauruense na época.
Em 1932, chegou a ser processada por curandeirismo, mas, ressalva a estudiosa, foi tranqüilamente absolvida. “A assistência que prestava tanto às parturientes quanto às crianças recém-nascidas era muito admirada”, detalha a historiadora, ao relatar que a maneira com que Bernardina aprendeu o ofício ainda permanece desconhecida.
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‘Na roça’
Mesmo em épocas que partos caseiros ficaram para o “tempo da onça”, a presença dessas profissionais, apesar de rara, em nascimentos fora do hospital também se fez necessária, como atesta a parteira já aposentada Romilda Radiguieiri Fermino.
Moradora de Piratininga, aos 61 anos, ela fez a maioria dos partos em hospital, como enfermeira. No entanto, esporadicamente, um ou outro chamados, geralmente na zona rural, eram feitos, ocasiões em que a parteira tinha que entrar em ação sozinha. “Aí era na raça mesmo”, comenta a hoje dona de casa, que, nestes casos, tinha como únicos “auxiliares” o estojo de instrumentos e a coragem. “Sempre fui muito calma, isso me ajudava”, atribui Romilda, que, mesmo “fora de combate”, não arredaria de um chamado hoje em dia. “Hoje em dia seria difícil, pois temos hospitais, médicos. Mas, numa situação crítica, claro que voltaria”, assegura.