Em dias que muito se fala dos problemas e das notas policiais envolvendo a AHB, o foco da saúde pública municipal anteriormente às eleições municipais nem é lembrado. Muitas promessas de nosso alcaide (então populíssimo e vitorioso candidato), no tocante seriedade que carece a saúde pública, eram levadas à população bauruense. Lembrando que naqueles dias essas mazelas já aconteciam e poucos (embora neguem) sabiam e se abstiveram de cessar essa sangria do dinheiro público da saúde conveniada (AHB X Governo do Estado de São Paulo), não sabendo por que motivo esse inadmissível silêncio.
O ex-vereador João Parreira, meu irmão e amigo, no plenário de diversas sessões da Câmara Municipal de Bauru, bem que já reclamava a realização de auditoria nas contas da AHB, motivos plausíveis certamente haviam e muitos contemporizaram. Enquanto isso, o malfeito à saúde de centenas de milhares de bauruenses e municípes de cidade vizinhas, corria como as águas de rio caudaloso.
Embora o descaso seja generalizado, mesmo assim fiquei assustado com o fato vivido por outro “amigo João”, esse popularmente desconhecido e necessitado dos serviços públicos de saúde. Chegando de viagem, na segunda-feira p.p., minha esposa me dizia que o amigo João sofreu um entorce em um dos tornozelos com trauma no joelho e foi ao Pronto-Socorro Municipal de Bauru, onde passou das 23h, de sexta-feira até por volta das 5h do sábado.
Durante esse lapso de tempo, a imensa espera pelo atendimento médico se viu no fato estarrecedor que alguns profissionais de saúde, se é que merecem esse título, deixaram os pacientes - muitos deles em péssimo estado de saúde - aguardando o “descanso intrajornada” para uma soneca inaceitável dos maus profissionais da saúde.
Não é fantasiosa essa situação, é comum chegar em altas horas da noite no Pronto- Socorre Municipal de Bauru e ter que aguardar por pronto atendimento em meio a um ínfimo número de servidores públicos trabalhando, enquanto alguns, maus exemplos de funcionários públicos, dormem no trabalho. No caso específico, foram flagrados com o rosto sonolento e aspecto denunciante de quem estivera dormindo, eis que se via também um deles com uma coberta dobrada às mãos.
Enquanto alguns surrupiam o dinheiro público, outros vão para o turno de trabalho no serviço essencial à população e, quiçá, por carga de trabalho extra em outra jornada e para pessoa jurídica diversa a fim de ter uma melhor renda mensal, deixam de lado o jargão administrativo, a saber: o interesse público prepondera sobre o particular; fazendo da prestação de serviços a que se obrigou um objeto de descaso e chegam a cometer crimes contra a Administração Pública.
Isso é preocupante e é também motivo primordial de preocupação à Secretaria de Saúde cuidar de casa (saúde municipal), para depois pensar nos problemas que as polícias Federal e Civil, bem como o Ministério Público e a Procuradoria da República, vêm investigando.
Ninguém fiscaliza nada e muitos desinteressados com a coisa pública fazem o que pesam fazer como se tratasse de relação diretamente com o particular, o que não é verdade. Ou a saúde não um é direito de todos e dever do Estado?
Descaso no pronto atendimento do PSM de Bauru é caso de polícia, deve ser também investigado, inclusive pela Corregedoria Administrativa. Caso não mereça tal providência, o termo pronto atendimento perde a sua essência e fica à mercê da monstruosidade de maus servidores públicos que preferem dormir, enquanto do lado lá estão aqueles que ecooam incontáveis, propulsionados pelas dores e angustias que os acometem.
Quem sabe, infelizmente, se algum paciente, por causa de triste nota, foi vítima de perda de sentido, função ou membro - e porque não indagar -, se pagou com a própria vida enquanto esperava por real pronto.
Essa lamentável nota é um chamamento às autoridades municipais da realidade do serviço público de saúde dos pronto-socorros da cidade. Servidor (seja médico, enfermeiro etc) tem que cumprir seus horários integralmente trabalhando e jamais dormindo ou deixando os pacientes à espera de pronto atendimento até que interesses particulares estejam satisfeitos.
Finalizando, esta nota não é uma depreciação do tão mautratado serviço público, pelo contrário, é a exposição de um arauto do bem comum, pedindo para extirpar mazelas inaceitáveis frente a direitos constitucionais intocáveis e dignificar os melhores exemplos de servidores públicos, pois crê que o adágio popular uma laranja podre numa caixa estraga a outras aqui não se aplica, pois o caráter de pessoas de bem não pode ser atingido por atitudes nocivas à administração pública ora denunciadas. E como pessoas de bem, tenho certeza, a grande maioria dos servidores públicos da saúde municipal é marcada por tal virtude; cabendo destacar negativamente somente as vicissitudes atacadas.
No trabalho, enquanto uns descansam outros carregam pedras; na saúde, se alguns “descansarem” outros podem ou poderão sofrer estigmas irreversíveis ou ter a vida ceifada por omissão brutal de péssimos agentes da saúde.
Sebastião Fernando Gomes - advogado