10 de julho de 2026
Articulistas

País longe de ser civilizado

Iolanda Toshie Ide
| Tempo de leitura: 3 min

Quando não um, nem dois, nem uma dezena, mas sete centenas, uma turba inclusive (pasmem) professores, sob a alegação de que a vítima trajava um vestido curto perseguem uma jovem indefesa, ameaçando de estupro inclusive, (pasmem) por professores, sob a alegação de que a vítima trajava um vestido curto. Houve quem afirmasse que aqui é o Brasil, não o Irã dos Aiatolás. Pois bem, se aqui aconteceu não foi por acaso, apenas explicitou-se o desrespeito que ocorre cotidianamente com mulheres, adultas ou não.

As relações de gênero são mais que assimétricas, são hierárquicas. Uma das faces é revelada pela disparidade entre salários de homens e mulheres exercendo uma mesma função. Em 2009, na América do Sul e do Caribe, o Brasil se classificou em 82° lugar em igualdade de gênero, posição atrás de Equador, Argentina, Peru, Paraguai, principalmente devido ao quesito salários. Quando se trata da classificação internacional, segundo o Relatório do Fórum Econômico Mundial, o Brasil se classifica em 114° lugar. A África do Sul que, há tão pouco tempo condenou o apartheid , está em sexto lugar. É de se indagar pelos motivos pelos quais uma mulher desempenhando mesmo trabalho recebe um salário menor que o do homem.

É preciso reconhecer que a aprovação da Lei Maria da Penha constitui-se num importante avanço, mas dentre os agressores de mulheres, apenas 2% dos denunciados foram penalizados. Há todo um aparato que sustenta a lucrativa indústria que captura a vida e o corpo das mulheres. Dos paparazzi, estilistas, cineastas até chefes de seção de supermercado e a propaganda que usa o corpo da mulher para vender até amortecedor de caminhão, ... tudo está organizado (ou desorganizado) de modo a fazer da mulher objeto das fantasias masculinas. Nesse mundo androcêntrico, a mulher não pode ter existência própria, projeto próprio, anseios próprios. Quando tem, é punida, com salários menores mesmo quando tem maior grau de escolaridade. Se não se submete às conveniências androcêntricas, aí estão as fogueiras de ontem e de hoje.

Olympe de Gouges só foi aceita quando colocou a vida em risco na vanguarda da Revolução Francesa, mas quando tentou a aprovação da Declaração dos Direitos da Mulher e da Cidadã, teve como resposta a guilhotina. No interior do que se convencionou chamar “lar”, o estafante trabalho doméstico sem remuneração sem férias e sem descanso semanal, enfim, o desrespeito, atinge a totalidade das mulheres. Os xingamentos, as ameaças, os espancamentos, a tortura, mais de um quinto das mulheres. Não são raros os casos de invalidez e morte.

O assédio sexual ocorre todos os dias com seqüelas múltiplas: desde abandono do emprego (ou da escola), insônia, anorexia, fobias, distúrbios vários até suicídio. A despeito da legislação aprovada, reiteradamente a vítima é ainda mais penalizada com calúnias, ameaças e até demissão. Nem o assediador não é punido nem a vítima é protegida e/ou indenizada como prevê a legislação.

O ocorrido na UNIBAN está em sintonia com esse quadro. Não se cogitou de punir culpados. Além da omissão de socorro, a vítima foi tratada como ré. Por fim, como se não bastasse, a expulsão seguida da feliz reação do Ministério da Educação. Isto explica nossa colocação na classificação sobre igualdade de gênero. É preciso mudar se pretendemos ser o país civilizado que ainda não somos como prova o acontecimento.

A autora, Iolanda Toshie Ide, é presidente do Conselho Municipal dos Direitos das Mulheres de Lins, professora aposentada da Unesp e colaboradora de Opinião