São Paulo - Bem-disposto e com vontade de voltar a jogar futebol com os amigos da empresa onde trabalha. Assim o ferramenteiro Carlos Fernando Rangel, 38 anos, resume seu sentimento, dois dias depois do acidente provocado pela queda de três vigas na obra do Rodoanel, sobre a rodovia Régis Bittencourt, em Embu (Grande São Paulo), ocorrido na noite de sexta-feira.
Ao lado da mulher Patrícia e de Felipe, um dos dois filhos do casal, Rangel conversou com a reportagem no hospital Alvorada, na zona sul de São Paulo, onde permanecia internado até a tarde de ontem. Ele sofreu uma fratura no punho esquerdo e foi submetido à cirurgia na madrugada de anteontem.
Segundo Rangel, tudo aconteceu em uma fração de segundo. “Estava na Régis a uns 80 km/h. Uma viga começou a rachar de cima para baixo. Quando eu vi, já tinha despencado. Desviei para a direita e acho que foi isso que me salvou”, disse. “Jogo futebol todas as sextas com o pessoal da empresa. Naquela dia, estava voltando da quadra para casa. Passo ali todos os dias”, afirmou.
Ele disse, também, que o resgate chegou rápido, mas que ficou cerca de duas horas presos nas ferragens até ser retirado de dentro do veículo e ser colocado em uma maca. De lá, foi levado para o Hospital Geral de Itapecerica da Serra.
Rangel permaneceu consciente durante todo o tempo e afirmou, ainda, que não pensou em morte. “Quando começou a fumaça, inalei um pouco de pó, pensei “agora não vai dar mais’. Quis pegar o celular e ligar para casa, mas estava preso”, lembra.
Nascido em São Paulo, ele trabalha há cinco anos em uma metalúrgica no município de Embu. Em fevereiro de 2010, Rangel comemora 20 anos de casamento com Patrícia, ao lado dos dois filhos, Felipe, 19 anos, e Fernanda, 14 anos. Como corintiano, espera comemorar também o centenário do seu time de coração. Até lá, espera já estar pronto para voltar ao trabalho.
Perguntado se ficaria com medo de passar pelo mesmo local onde ocorreu o acidente, Rangel demonstra um misto de tranqüilidade e apreensão. “É esquisito. Tem que ter muita confiança. Não sou de ficar com medo, mas tem que ver, né?”, afirmou.
O filho Felipe diz que a família só teve a confirmação de que o pai era uma das pessoas envolvidas no acidente próximo da meia-noite. “A gente estava vendo a reportagem na televisão. Certeza mesmo a gente só quando falaram ‘um homem de 38 anos’. Batia com os horários, e com ele não ter chegado”, contou.
A respeito de uma futura indenização, Rangel espera não ter muita dor de cabeça.
O secretário Estadual de Transportes de São Paulo, Mauro Arce, afirmou anteontem que as três pessoas que ficaram feridas no desabamento de vigas do Rodoanel serão indenizadas rapidamente.
Além do ferramenteiro, outras duas pessoas ficaram feridas: a estudante Luana Augusto Coradi, 21 anos, que já teve alta, e o motorista do caminhão Reginaldo Aparecido Pereira, 40 anos, que continua internado em observação no Hospital Geral de Pirajussara, em Taboão da Serra.
O laudo da perícia do Instituto de Criminalística (IC) deverá ficar pronto em 30 dias.
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Obras sem autorização
São Paulo - Os funcionários das empreiteiras que constróem o trecho Sul do Rodoanel faziam obras na rodovia Régis Bittencourt sem autorização da Autopista - concessionária que administra a rodovia - na última quinta-feira. A obra era feita no mesmo local do acidente.
Um engenheiro que é coordenador de tráfego da Autopista foi até à delegacia de Polícia Civil de Embu (na Grande SP) e fez um boletim de ocorrência de preservação de direito contra o consórcio, já que a concessionária deveria ter sido comunicada sobre a obra, para alertar os motoristas que trafegavam pelo local.
Funcionários da Autopista flagraram a interdição da pista que foi feita pelo consórcio com o auxílio da Polícia Rodoviária Federal (PRF). De acordo com o boletim, os guindastes seriam instalados na pista da rodovia para o içamento das vigas de apoio do Rodoanel.
Segundo a Autopista, o boletim não é criminal, ele apenas garante que caso algum acidente fosse provocado naquele dia não seria de responsabilidade da concessionária. A Autopista disse ainda que o consórcio tinha autorização para colocação de dez vigas entre os dias 7 e 10 de novembro. No entanto, nos dias 7 e 8 a chuva impossibilitou que os trabalhos fossem feitos. No dia 9, uma das máquinas apresentou um problema e no dia 10 foram colocadas as quatro vigas (três caíram no dia seguinte).
Na quinta-feira, seriam colocadas as seis vigas restantes, mas a obra estava reprogramada para este final de semana (14 e 15 de novembro), conforme autorização da Autopista.