09 de julho de 2026
Geral

Primeiro contato com drogas ocorre ainda na infância

Juliana Franco
| Tempo de leitura: 4 min

Fenômeno antigo na história da humanidade, o uso de drogas constitui um grave problema de saúde pública, com conseqüências pessoais e sociais. Até aí nenhuma novidade. Mas o que tem preocupado autoridades e pais é o crescimento do índice de crianças que fazem o primeiro contato com álcool ou drogas ilícitas antes mesmo dos 12 anos. Em Bauru, cerca de 40% das pessoas atendidas pela Secretaria do Bem-Estar Social (Sebes) nos programas, desenvolvidos com a ajuda do Centro de Atenção Psicossocial/Álcool e Drogas (Caps/AD), com este foco, se encaixam faixa etária.

O dado mostra que a cidade apresenta uma realidade parecida com a do Estado. Uma pesquisa realizada pelo Centro de Referência em Álcool, Tabaco e Outras Drogas (Cratod), órgão ligado à Secretaria de Estado da Saúde, aponta que 40% dos jovens atendidos nem sequer ingressaram na adolescência, iniciando o uso de drogas entre os 7 e os 11 anos. O estudo foi realizado entre 2007 e 2009, com 112 jovens, de 12 a 18 anos, que são atendidos no Cratod.

São vários os motivos usados para justificar estes índices. Darlene Tendolo, titular da Sebes, aponta o não cumprimento da lei e a liberdade excessiva dos pais como alguns dos principais problemas.

Segundo ela, ao mesmo tempo em que a lei brasileira define como proibida a venda de bebidas alcoólicas para menores de 18 anos, por exemplo, é pratica comum o consumo de álcool pelos jovens, seja no ambiente domiciliar, em festas, ou mesmo em ambientes públicos. “Além disso, as propagandas de cervejas na TV, que chegam a diversas casas de diferentes classes sociais, mostram a bebida gelada, pessoas bonitas, que bebem, se divertem e não têm nenhuma responsabilidade ou preocupação”, revela a secretária.

“Sem contar que, muitas vezes, o primeiro contato com o álcool é feito dentro de casa, quando pai molha a chupeta do filho no copo da bebida ou dá um golinho para que ele experimente e não fique com vontade. Isso é cultural no nosso País. E, infelizmente, temos atendido um alto número de crianças usuárias de drogas”, acrescenta.

Dos entrevistados pelo Cratod, 2% possuem apenas 7 anos, 4% têm 8 anos, 9% estão com 10 anos e 15% têm 11 anos. Pelo menos 33% dos jovens usuários com 11 anos disseram estar fora da escola e 91% dos estudantes do último ano do ensino médio apresentaram defasagem escolar. Do total de entrevistados, 57% afirmaram ter sido o tabaco a primeira droga a ser consumida. Ainda segundo o levantamento, a maconha aparece em segundo lugar na escolha dos adolescentes com 51%; em seguida o álcool, com 38%; os inalantes, com 18%; a cocaína, com 17%; e, por último, o crack, com 10%.

O estudo mostra uma tendência dos jovens a optarem primeiramente pelas drogas consideras lícitas, fato explicado pela maior facilidade de acesso. Normalmente, o primeiro contato ocorre dentro da própria casa, por meio de familiares ou amigos próximos.

____________________

Caps

Segundo a psicóloga Valéria Moron Perri Gimenes, os adolescentes e pré-adolescentes que são atendidos pelo Centro de Atenção Psicossocial/Álcool e Drogas (Caps/AD) chegam dependentes. “Eu estou à disposição das crianças de 0 a 12 anos no Caps Infantil, que tenham contato com álcool e droga. Mas não tenho nenhum paciente. A partir dos 12 anos, trabalho no Caps AD. A dificuldade que temos é pelo fato que eles já chegam usuários”, revela.

“Temos problema neste meio do caminho. Esses adolescentes não nos procuram na infância, no começo do consumo de bebidas ou uso de drogas. Quando chegam, já são dependentes. Talvez o grande problema seja não conseguirmos suprir esse buraco entre os 7, 8 e 9 anos, quando eles começam a experimentar, é que os pais não percebem”, complementa a psicóloga.

Quanto mais cedo os jovens passam a consumidor drogas, maiores as chances de adquirirem dependência química. Por isso, Valéria explica que os pais precisam ficar atento se os filhos não têm interesse na escola ou apresentam comportamentos disfuncionais como agressividade, isolamento e irritabilidade. Essas são algumas atitudes inerentes ao envolvimento com essas substâncias.

“Além disso, a criança apresenta mudanças no comportamento do sono, ou dorme o dia todo ou tem insônia. Nenhum dos dois sintomas é comum entre crianças de 8 a 12 anos. Também podem ter modificações na alimentação, uma hora comer demais e depois ficar sem comer. É possível perceber as variações em coisas básicas”, revela.

Em média, o Caps AD atende cerca de 25 adolescentes por semana, na grande maioria meninos. “Recebemos de 20 a 25 meninos por semana e de 4 a 6 meninas. O alto índice de meninos é porque eles cometem mais delitos e são encaminhados para nós”, conta a psicóloga.