08 de julho de 2026
Geral

Amigos desvendam o Caminho da Fé

Maíra Soares
| Tempo de leitura: 4 min

O ilustrador publicitário Adelmo Barreira, 47 anos, e o engenheiro mecânico Marcos de Alencar Ribeiro, 49 anos, percorreram de bicicleta o Caminho da Fé brasileiro para sair da rotina, superar seus limites e reforçar sua religiosidade. Inspirado no Caminho de Santiago de Compostela, na Espanha, a rota de peregrinação brasileira foi criada em 2003 e tem 497 quilômetros de trilha árdua que pode ser percorrida a pé, de cavalo ou bicicleta. Durante todo o desafio, a dupla teve o apoio do amigo Uriel de Almeida, que fez o trajeto de jipe.

O grupo saiu de Tambaú, Interior de São Paulo, no dia 12 de outubro, às 8h, e chegou a Aparecida no Norte, no Vale do Paraíba, cinco dias depois, às 17h40, após percorrer 425 quilômetros. O percurso, que atravessa a Serra da Mantiqueira, pelo sul de Minas Gerais, revelou belas paisagens e muitos desafios.

A chuva foi companheira constante e dificultou o percurso logo no início da jornada. “No primeiro dia, já estava cansado porque estava fazendo uma campanha e tinha ficado três noites sem dormir. Além disso, nós pegamos uma tempestade muito forte que derrubou duas árvores no caminho. Nós tivemos que removê-las para poder passar. Isso me esgotou fisicamente e a chuva estava muito fria. Então, quando cheguei no hotel, tive hipotermia”, conta Adelmo, que aponta este como o momento de maior dificuldade.

A superação dos limites do corpo e da mente tinha que acontecer a todo momento para que os ciclistas conseguissem pedalar a meta de 60 quilômetros diários. “Todos os dias eu cheguei no meu limite”, relata Marcos.

O caminho é todo sinalizado com setas amarelas e placas indicando a direção a ser seguida. Ao longo da trilha há diversas pousadas crendenciadas à Associação de Amigos do Caminho da Fé, de Águas da Prata, criadora do caminho, onde os peregrinos podem fazer suas paradas.

Segundo Adelmo, toda a dificuldade e o cansaço são amenizados ao atingir o topo de uma montanha. “O lugar é maravilhoso porque o relevo é montanhoso. Mas por ser assim, o caminho é muito difícil porque você sobe e desce montanhas o tempo todo. Teve uma subida em que pedalamos oito quilômetros sem parar, é extremamente cansativo. Mas, quando você chega lá em cima, você vê que vale a pena todo o seu esforço para chegar lá. Isso não tem preço”, diz.

A paisagem que conquistou os viajantes e impressionou por sua beleza foi Luminosa, uma cidadezinha localizada no meio das montanhas de Minas Gerais.

“Luminosa é uma cidade cravada no meio da montanha com as casas todas juntinhas. Você vê de cima da montanha um aglomerado de casas com uma igreja no meio. Você olha em volta e é só montanha, rio, estradinha de terra. É muito bonita a vista”, descreve Adelmo.

Motivação

Embora o nome do percurso e seu destino final, Aparecida do Norte, onde fica o Santuário Nacional de Nossa Senhora Aparecida, tenham referência religiosa, a rota desperta o interesse dos aventureiros e dos que querem fugir da rotina.

Marcos está no primeiro grupo. “Minha motivação foi mais religiosa e como desafio pessoal. Durante o caminho acontecem coisas impressionantes, que te dão força para continuar. Você sente que não está sozinho, que há uma força maior com você lá. Não tivemos escorregões não caímos um tombo, mesmo pegando chuva em quase todos os dias. Não dava nem para acreditar que com chuva, andando em pedra, não tivemos um arranhão sequer”, alega.

Já Adelmo se enquadra no segundo. “O intuito foi de passear, largar o trabalho e sair da frente do computador. A sensação que tive quando cheguei foi a de estar 100% satisfeito com o que eu tinha feito. Foi muito bom física e psicologicamente”, diz.

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Aprendizado

Dificuldade, superação de limites e belas paisagens foram mais que suficientes para emocionar os amigos no momento da chegada e fazê-los aprender pelo caminho.

“É maravilhoso. É emocionante quando você chega e vê a Basílica, dá aquele nó na garganta, não tem como se segurar. A gente percebe que a vida pode ser bem mais simples, que a gente precisa de muito menos do que a gente tem para viver bem”, pondera Marcos.

“Aprendemos a valorizar as pequenas coisas. A gente trabalha tanto, ganha dinheiro, compra um monte de besteira que às vezes não dão prazer nenhum. Um dia você resolve pegar a bicicleta, ir para o meio do mato e descobre o que é estar tranqüilo, sem ninguém atormentando. Não precisa muito para você se divertir”, conta Adelmo.

Marcos já está formando um grupo para repetir a ventura em agosto de 2011 e Uriel garante que, com planejamento, é possível atingir o ponto de chegada. “ A idéia é incentivar outras pessoas a fazer também porque a impressão que se tem é que é uma coisa muito difícil cumprir essa meta. Mas, com planejamento, como eles fizeram, é possível. Eu só desaconselho a fazer sem apoio”, orienta.