09 de julho de 2026
Articulistas

Consciência Negra e brasilidade

Alexandre Braga
| Tempo de leitura: 3 min

Hoje, há um sentido muito forte de pertencimento étnico ao grupo formando por pretos, pardos e negros. Isso é resultado direto de mais de 30 anos de ação política do Movimento Negro, das políticas afirmativas, pelas quais membros do grupo étnico negro são beneficiados com ofertas de serviços, programas e equipamentos públicos voltados para suprimir as desigualdades sociais e raciais nos mais diversos níveis e de uma maior inserção do elemento negro nos meios de comunicação, principalmente a partir das deliberações da Conferência de Durban – que tratou do tema do combate ao racismo, realizada em 2001, e das atividades de comemoração dos 500 anos da descoberta do Brasil, no ano de 2000. Esse conjunto sistêmico amalgou e foi o responsável pela boa situação em que se encontra o principal grupo humano que formou e deu identidade ao Brasil. Nesse viés é possível falar, inclusive, do surgimento do negro-brasileiro. Ou seja, do agrupamento humano que orgulhosamente trouxe suas raízes da África, se sanduichou da cultura europeia e se misturou a outros tantos povos que aqui vieram fazer residência, como os turcos, árabes, japoneses, formando assim uma nação nova, una e absolutamente inédita, a nação brasileira.

A quantidade de detalhes tem ainda um capítulo especial feito e construído pelos povos indígenas, que também reivindicam participação nesse estrato social. As dores do passado e o ranço não deram lugar ao um conflito racial da parte negro-índigena, mas ao contrário, esses sempre buscaram a integração e o convívio pacífico com o estrangeiro. Quem empregou a discórdia foram os alienígenas motivados por interesse de classe e a serviço da exploração comercial daquilo que a nação brasileira tinha de mais vantajoso. A tortura, os maus-tratos e o açoite nas senzalas eram empregados para forjar um domínio estamental e criar uma “raça” branca privilegiada e parasitaria. Portanto, o racismo teve e tem uma função estratégica para continuar o domínio de um grupo humano sobre o outro e dar manutenção aos privilégios de classe, consolidando assim a hegemonia cultural, econômica e política da elite sobre os demais elementos étnicos; cuja tonalidade e intensidade da exploração comercial eram feitos por meio de uma subliminar e invisível discriminação racial apoiada pela ideologia da tranqüilidade no convívio e acesso aos bens econômicos produzidos pelo suor de índios e negros.

Essa exploração só agora começa a ser eliminada. Dessa forma, o despertar da consciência negra traz consigo a elevação da autoestima, o início do fim de toda forma de preconceito e um grande sentimento de brasilidade, como local em que se realizam concretamente a vida, o desenvolvimento das relações sociais e onde acontecem a cidadania de fato. Brasilidade e negritude, no nosso caso, são elementos intrinsecamente formadores da Pátria, elo maior que nos une. E essa pátria tem um sabor reconhecidíssimo ainda melhor, pois tem conteúdo da mais antiga tradição africana, toda a bravura indígena e a contribuição dos elementos alienígenas, pela qual a miscigenação – à força ( com os estrupos, violência sexual e depuração étnica ) ou como agente civilizacional -, fez nascer esse povo brasileiro; com suas contradições, mazelas e esperanças em fazer do Estado brasileiro um ente promotor da paz e desenvolvimento em que as atuais políticas afirmativas terão papel fundamental para tornar pratica o sonho de justiça social, não a um grupo, somente como acontecia no passado escravista, mas a todos e todas sem distinção.

O autor, Alexandre Braga, é coordenador de Comunicação da UNEGRO e membro do Fórum Mineiro de Entidades Negras. bragafilosofia@yahoo.com.br