A pintura do veículo, em especial da carroceria não é apenas para embelezar, mas principalmente para proteger as partes metálicas contra oxidação. O mesmo se dá com todas as demais peças pintadas ou com diferentes acabamentos superficiais. As chamadas peças metálicas são em sua grande maioria feitas de aço ou de alumínio, materiais que sofrem oxidação por ação do oxigênio do ar ou da água. Quando não são pintadas, estas peças devem ser zincadas ou cromadas, que são processos galvânicos ou eletroquímicos no qual é depositada uma fina camada de zinco ou cromo respectivamente sobre o material, protegendo-o contra corrosão. No caso do cromo, existe uma variante de cromo polido que dá um acabamento brilhante e muito bonito, como usado em parachoques, frisos e grades.
A rigor, apenas as peças internas do motor e da transmissão não são pintadas, pois são permanentemente embebidas em óleo lubrificante. Todas as demais peças externas são protegidas de alguma forma. Veja dentro do capô do motor, existem diversos suportes de sensores ou de equipamentos se são parafusados posteriormente à carroceria e tem um acabamento zincado branco ou amarelo, de proteção. São bonitos e altamente eficientes.
A carroceria ou monobloco, mais especificamente, passa por um processo de pintura sofisticado e muito eficiente. Primeiro, todo o conjunto é lavado e desengordurado logo após a soldagem, seguindo então para um banho de imersão completa em enormes tanques com um produto que servirá de primer, penetrando e protegendo todo e qualquer cantinho escondido da carroceria. É o chamado processo cataforético. O primer é assim depositado em toda superfície interna e externa do conjunto e depois será seco dentro de uma estufa. Com isso, garante-se uma total proteção contra ferrugem ou oxidação.
Após este processo, a carroceria passa por uma estação onde serão aplicadas colas e vedantes onde for necessário, para garantir a estanqueidade das emendas de chapa e impedir a entrada de água externa dentro do habitáculo, caso das caixas de rodas, portas e portamalas, por exemplo. Passa por outra estufa e após a cura dos produtos, vamos à pintura propriamente dita. Antigamente usava-se tinta líquida aplicada em várias camadas por pistola pneumática. Este processo só é usado ainda hoje em alguns processos de repintura em oficinas ou quando as peças não são metálicas, caso de peças plásticas ou de fibra de vidro, por exemplo. As montadoras trabalham hoje em dia na produção de veículos novos com uma pintura a pó em um processo conhecido como eletrostático, com a tinta aplicada por pistolas especiais em processo manual ou robotizado. A carroceria entra na cabine de pintura e fica aterrada, enquanto que a tinta passa por uma pistola ligada ao pólo positivo do sistema. As duas cargas opostas criam um campo eletrostático em volta da peça a ser pintada que atrai as partículas de pó inclusive por trás da peça, posição nunca alcançada por jatos de tinta líquida. Assim, garante-se uma cobertura melhor do substrato. Em seguida à deposição da tinta em pó, o conjunto pintado vai para outra estufa para que o pó seja adequadamente derretido e aderido à peça.
Pinturas sólidas são aquelas com cores básicas, enquanto que as metálicas contêm partículas de alumínio que dão aquele efeito conhecido. As sólidas têm brilho pelo próprio acabamento da tinta, enquanto que as metálicas exigem uma camada extra de verniz para dar o brilho final. Por isso que a opção pintura metálica custa mais cara nas concessionárias.
Antigamente usavam-se diversos tipos de tinta líquida, como a laca nitrocelulose (que exigia polimento constante) ou o esmalte sintético, com brilho mais duradouro. As pinturas com dupla camada dão acabamento mais uniforme e retém o brilho por mais tempo, demandando menos manutenção. A grande vantagem das superfícies pintadas é que permitem conserto e repintura, seja em parte ou na peça toda. Em caso de recuperação de acidentes, uma boa funilaria consegue devolver seu carro à antiga forma e com uma pintura que parece nova, desde que bem feita. Pouquíssimos carros não precisaram de pintura externa. O mais famoso deles foi o De Lorean, usado nos filmes “De volta para o futuro”, cuja carroceria era de chapas de aço inox escovado. Dava um acabamento impressionante mas não aceitava reparo de jeito nenhum... Desenvolvem-se algumas carrocerias plásticas já na cor definitiva e tintas regenerativas, isto é, se riscar, a própria carroceria volta à cor original. Mas ainda é coisa pro futuro.
* Marcos Serra Negra Camerini é engenheiro mecânico formado pela Escola Politécnica da USP, pós-graduado em administração industrial e marketing e engenharia aeronáutica, com passagens como executivo na General Motors (GM) e Opel. Também é consultor de empresas e é diretor geral da Tryor Veículos Especiais Ltda.
Seu site é www.marcoscamerini.com.br.