10 de julho de 2026
Cultura

Coleção dá nova roupagem à música erudita

Da Redação
| Tempo de leitura: 3 min

A colheita se deu entre os bares dos subúrbios americanos da década de 50, os grandes teatros de todos os séculos e os lábios franceses contemporâneos.

A safra, no entanto, transformou-se em licor com sabor da brisa do mar carioca. E é pela doce embriaguez da bossa que o pianista e arranjador Keco Brandão conquista os ouvintes nessa compilação de três álbuns lançada pela gravadora Lua Music. Intitulada “Collection ‘n’ Bossa”, ela reúne CDs com interpretações de standards do jazz, temas da música erudita e homenagens a compositores franceses, todos em roupagem bossa nova.

Ritmo e harmonia se unem no “Jazz ‘n’ Bossa”, álbum em que Keco se dedica a reler com sofisticação grandes temas jazzísticos.

O gênero primo-irmão da bossa ganha um peso a menos de Sinatra e um quê a mais de Tom Jobim em versões de standards como “Night and Day” (Cole Porter), “Day Dream” (Duke Ellington) e “The Days of Wine and Roses” (Henry Mancini/ Johnny Mercer).

Já em “Classical ‘n’ Bossa”, o desafio foi o oposto: unir temas atemporais da música erudita com a modernidade do gênero brasileiro. O segredo do sucesso? Um respeito profundo às composições originais, que manteve o arranjador conectado às idéias clássicas mesmo nos momentos de maior ousadia criativa. Assim, Beethoven, Rachmaninoff e Bach aterrissam no século XXI sem turbulências.

Para fechar o ciclo, um momento de homenagem pessoal de Keco às lembranças sonoras de sua infância. “France ‘n’ Bossa” traz um culto repaginado ao cancioneiro francês como forma de honrar também os antepassados do músico. Com boas releituras de trilhas contemporâneas, como “Ne Me Quite Pas” (Jacques Brel), “L’ammour C’est Comme um Jour” (Charles Aznavour/ Yves Stéphane) e “Je T’aime Moi Non Plus”, o álbum promete agradar não só aos amantes tradicionais da música francesa, mas trazer novos admiradores à arte das terras de Napoleão.

Quem decidir degustar o projeto de uma tacada só vai se surpreender com a capacidade de Keco em harmonizar gêneros muitas vezes distintos.

A coerência entre os três álbuns é um dos grandes méritos do arranjador, que não adaptou a bossa aos estilos, mas incorporou-os ao gênero, como um fio condutor – basta ouvir releituras como “Sinfonia n.o 40 em Sol Menor” (Mozart) e “La Bohème” (Charles Aznavour/ Jacques Plante) para reconhecer essa proeza.

Algumas versões, no entanto, primam por sonoridades criativas, como a de “La Vie em Rose” (Louiguy/ E. Piaf) e “Estudo em Mi/ Opus10” (Chopin).

Em outros momentos, é a própria melodia original quem se sobrepõe, como em “Cena de ‘O Lago dos Cisnes’” (Tchaikovsky). E é justamente na arte de reunir e temperar todos esses temas em único espaço que reside a maestria de Keco Brandão. “Collection ‘n’ Bossa” mostra, enfim, que Tom Jobim, Edith Piaf e Debussy não estão assim tão longe um do outro.

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Sobre Keco Brandão

Keco Brandão é compositor, arranjador, vocalista, programador, instrumentista e produtor musical. Em 2005, foi indicado pelo pianista e arranjador César Camargo Mariano para compor a nova banda da cantora Gal Costa em turnê do álbum “Hoje”.

Keco ingressou como produtor musical em 2007 no canal de notícias “Record News”. No mesmo ano, foi indicado como pianista para acompanhar a artista plástica e compositora Yoko Ono, em performance no Theatro Municipal da cidade de São Paulo.

Nas produções para novelas, arranjou e produziu para artistas como Zizi Possi, Leila Pinheiro, Ângela Ro Ro, entre outros.

Atualmente acompanha, como tecladista e arranjador, artistas como Zizi Possi e Jane Duboc e trabalha como criador, arranjador e produtor musical na produtora de som Lua Nova e na gravadora Lua Music, sob a direção de Thomas Roth.