09 de julho de 2026
Nacional

Com recepção a Ahmadinejad, Brasil quer voz no Oriente Médio

Folhapress
| Tempo de leitura: 2 min

Brasília - As atenções do mundo diplomático se voltarão amanhã para Brasília, onde o presidente Luiz Inácio Lula da Silva receberá o polêmico colega do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, num encontro para selar a aproximação das potências regionais com interesses convergentes.

Ao estender o tapete vermelho para um dos líderes mais polêmicos do mundo, Lula colocará à prova a pretensão de transformar o Brasil em potência diplomática capaz de dialogar com polos geopolíticos antagônicos sem ser cooptado.

Oficialmente, os EUA alegaram ver com bons olhos a hipótese de o Itamaraty ajudar a normalizar as relações do Irã com o Ocidente.

Mas o sentimento dominante em Israel e países europeus mescla ceticismo e resignação com a decisão brasileira de receber um presidente conhecido pelas posições provocadoras, acusado de patrocinar atos terroristas no Oriente Médio e que é expoente de um programa nuclear suspeito de ter fins militares -o que Teerã nega.

Para os críticos, Lula comete, ao receber Ahmadinejad, um erro de avaliação que pode prejudicar a candidatura brasileira a um assento permanente no Conselho de Segurança (CS) da ONU em vez de alavancar a ambição do Itamaraty de entrar no rol dos protagonistas globais.

Um diplomata europeu disse à reportagem que o Brasil se engana ao achar que é apropriado ser “amigo de todo mundo”.

Há ainda forte repúdio à visita do iraniano na frente interna. Movimentos judaicos, homossexuais, baha’is e grupos de defesa direitos humanos vêm organizando protestos anti-Ahmadinejad e prometem fazer barulho. Partidos de oposição, como o PSDB, apontam os laços Brasil-Irã como prova da politização da diplomacia brasileira pelo presidente petista.

A visita de Ahmadinejad chama ainda mais a atenção pela conjuntura em que ocorrerá.

O Brasil, que assume em janeiro cadeira rotativa do CS, será o primeiro país ocidental a receber o iraniano após a sua contestada reeleição em junho.

O conservador teve o apoio explícito do líder supremo, Ali Khamenei, teoricamente alheio a disputas políticas, e usou o aparato de segurança nacional para calar à força uma onda de protestos que viu indícios claros de fraude no pleito.

Enquanto boa parte do Ocidente repudiava a violência contra manifestantes, Lula saiu em defesa do iraniano, comparando os protestos a choro de torcedores de futebol.

Lula deixou claro que considera Ahmadinejad um interlocutor como qualquer outro e que o Brasil continuará expondo com clareza suas diferenças, principalmente sobre o questionamento do Holocausto.

O governo brasileiro também insiste em que conversas de paz no Oriente Médio devem incluir a participação de todos os envolvidos. O Brasil sustenta que o Irã é um país incontornável, e que isolar Teerã acabaria beneficiando as alas mais radicais do regime. Há ainda interesse em aumentar o comércio, hoje modesto.