11 de julho de 2026
Tribuna do Leitor

Carta à professora Graziella Moura


| Tempo de leitura: 4 min

Lemos sua carta e gostaríamos de fazer alguns esclarecimentos. Fazemos parte de um grupo oriundo de uma parceria entre o Capsi (Centro de Atenção Psicossocial infantil) e o segmento de psicologia da educação da Unesp de Bauru. Somos mães de alunos que, apesar de nossa solicitação para retê-los, foram promovidos para a segunda, terceira e até para a quarta-série do ensino fundamental sem estarem plenamente alfabetizados e que, por essa razão, não conseguem realizar as atividades que são propostas em sala de aula. As conseqüências desta lamentável realidade, às quais nós observamos de perto, são falta de motivação, baixa auto-estima, vergonha por não conseguir realizar os exercícios, sentimentos de incapacidade que fazem com que a criança tenha medo de se expor ao erro, insegurança e, por fim, desistência de ir à escola. Assim, não nos sentamos nos bancos de uma faculdade para estudar sobre avaliação escolar, mas sabemos o que acontece com nossos filhos e temos consciência de que a progressão continuada, da forma como vem sido aplicada, é extremamente prejudicial para o desenvolvimento educacional e psicológico da criança.

O conteúdo expresso na carta que redigimos foi endereçado às autoridades governamentais e tratou-se de uma crítica ao sistema público de ensino atrelada à reivindicação pela reversão do sistema de progressão continuada, reivindicação da qual a senhora mesma afirmou ser a favor. Desta forma, gostaríamos de deixar claro que temos, sim, todo o direito e a competência para exigir uma melhor educação para nossos filhos. Estamos apenas exercendo nossa cidadania e, a nosso ver, as instituições de ensino e os professores, que estão sempre reclamando a participação ativa dos pais na vida escolar dos alunos, deveriam valorizar e incentivar nossa iniciativa em lugar de recriminá-la.

Sabemos de nossas obrigações enquanto responsáveis por nossas crianças e é exatamente por sermos mães dedicadas que queremos garantir a nossos filhos uma educação de qualidade, a qual é a chave para um futuro com melhores oportunidades. Temos consciência da importância da mediação do professor no processo de desenvolvimento e aprendizagem da criança, o qual não se dá de forma espontânea, e é exatamente por isso que estamos nos mobilizando. Sabemos também que alguns pais não cumprem com seus deveres por diversos motivos, mas isso não isenta do poder público da responsabilidade de fazer sua parte. Quanto às condições salariais e de trabalho dos professores, somos solidárias às suas queixas e compartilhamos de sua indignação no que se refere ao descaso com que os educadores são tratados pelas políticas educacionais que são aplicadas. Diante disso, sugerimos que a senhora faça como a gente: lute por melhores condições de trabalho assim como nós estamos lutando por uma educação de qualidade para nossos filhos. Dado que estaremos lutando por uma mesma causa, já que a segunda reivindicação não acontecerá sem a primeira, acreditamos que professores e pais devem se unir ao invés de criticar uns aos outros em uma rivalidade sem sentido.

No que se refere à autoridade do professor em sala de aula, esta foi retirada pelo próprio governo, não pelos pais de alunos. Defendemos que os professores tenham total autoridade e autonomia tanto para apreender materiais inadequados ao ambiente escolar quanto para corrigir a indisciplina, desde que o façam com respeito, afinal, nós pais não temos controle sobre o que as crianças fazem em sala de aula. Além disso, gostaríamos de esclarecer que a crítica que fizemos ao desrespeito dos professores com relação aos alunos não deve ser generalizada. Sabemos que assim como existem pais realmente preocupados com o futuro de seus filhos, também existem professores realmente comprometidos com a educação das crianças. Temos consciência de que alguns alunos são desrespeitosos com os professores e condenamos isso. A relação professor-aluno deve se pautar no respeito mútuo. Com relação à perda de autoridade, nós pais sofremos o mesmo. Perdemos autoridade de forma que não podemos repreender nossos filhos com severidade ou somos seriamente punidos. Sofremos do mesmo mal dentro de nossa própria casa.

Para concluir, gostaríamos de alertar que professores e pais estão lutando pelos mesmos ideais e que, só irão efetivamente alcançá-los quando se unirem. Do contrário, aí sim ficaremos do mesmo jeito. Por esse motivo, convidamos a senhora e os leitores que se interessarem a juntarem-se a nós no dia 12/12/09, às 9h, na praça Machado de Melo para a realização de uma passeata até a praça Rui Barbosa por uma escola pública de qualidade. Até lá!

Esse grupo é formado por mães de crianças que estão sendo atendidas no Centro de Atenção Psicossocial Infantil de Bauru (Capsi). http:/ projeducacao. blogspot.com