09 de julho de 2026
Bairros

Famílias comandam 90% das empresas

Wanessa Ferrari
| Tempo de leitura: 5 min

Empresas comandadas por membros de uma mesma família representam 90% do total de empreendimentos em atuação nos bairros da cidade. Levando-se em conta que há 8 mil negócios ativos e regulamentos no município, pode-se afirmar que 7.200 deles têm familiares entre seus administradores e funcionários. A constatação se baseia em estimativas e dados fornecidos pelo Serviço de Apoio às Micro e Pequenas Empresas de São Paulo (Sebrae-SP) e a Secretaria Municipal de Desenvolvimento Econômico de Bauru.

O destaque é ainda mais visível quando considerada a importância delas na saúde da economia do País, uma vez que grande parte das empresas familiares surge como alternativa para driblar o desemprego.

Por essa razão e pelo fato de apresentar problemas específicos, as empresas familiares exigem atenção especial por parte dos consultores empresariais, é o que explica Newton Rosseto, analista do Sebrae. “Além de representarem grande parte do mercado, apresentam maior número de problemas e em níveis diferenciados. É essencial solucioná-los para a empresa não acabar”, aponta.

Administração centralizada, remuneração incorreta, erro na destinação dos lucros, indefinição de funções, confusão de limites de autoridade e excesso de informalidade são os problemas que costumam afetar uma organização familiar.

Para que o negócio funcione e traga bons frutos é necessário separar o pessoal do profissional. “Não se deve confundir as coisas. É necessário o fundador delegar poderes e atribuir funções, como em qualquer outro tipo empresa. Os salários devem variar de acordo com o cargo e não com o grau de parentesco, e os lucros devem ser destinados primeiro à sobrevivência do negócio”, explica Rosseto.

O administrador de empresas Alexey Carvalho acredita que a falta de profissionalização também influa negativamente no negócio. “Os funcionários devem ser mantidos em uma empresa por competência e não por laços familiares”, afirma.

Carvalho dá ainda outra dica: “Procedimentos devem ser baseados em relações de trabalho, não familiares. Férias, pagamentos e de scontos não devem sofrer alterações”, explica.

Mas se as dificuldades incidem sobre a administração de uma empresa familiar, aspectos positivos também podem ser notados. Rosseto aponta a criatividade, a flexibilidade, a segurança e o envolvimento como sendo os principais.

“A pessoa não tem medo de expressar suas idéias, imaginando o que o chefe vai pensar. Não existe aquele medo de ser mandado embora ou de outra pessoa pegar o seu cargo. Sem contar o envolvimento, as pessoas se dedicam muito mais porque sabem que os benefícios serão revertidos para a família”, comenta o analista do Sebrae.

Nico Mondelli, secretário municipal de Desenvolvimento Econômico, acrescenta outra característica positiva do envolvimento de familiares na empresa: lealdade. “O negócio familiar pode ser descrito como um ambiente de trabalho único, que inspira maior cuidado e lealdade dos funcionários. As relações familiares geram motivações não usuais, estimulam a comunicação e aumentam a confiança”, aponta ele, que por muitos anos atuou na empresa da família, o Frigorífico Mondelli.

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Sucesso antes mesmo de nascer

A criação da empresa do pizzaiolo Anderson Barbosa fugiu um pouco às regras: surgiu por ‘aclamação’, há cerca de 10 anos. Barbosa trabalhava como pizzaiolo em um estabelecimento comercial da cidade quando foi convidado para fazer um evento particular na casa de um cliente e decidiu aceitar.

“Quando meu marido chegou lá, um amigo do cliente gostou muito da pizza feita por ele e o convidou para um outro evento, foi aí que percebemos que podia dar certo. Atualmente fazemos cerca de 15 eventos por mês”, conta Vanilza de Oliveira Silva Barbosa, 35 anos, esposa de Anderson e administradora da empresa.

Empolgados com a possibilidade de trabalharem juntos e conseguirem uma renda extra, Anderson e Vanilza decidiram investir no negócio. “Foi complicado conseguir verba para dar início ao projeto. Esta foi a principal dificuldade. Precisamos comprar fornos, material de trabalho e uniformes”, lembra Vanilza.

Uma alternativa encontrada pelo casal para minimizar os custos foi convocar a família para participar do empreendimento. Atualmente eles trabalham com mais seis irmãs de Vanilza, uma filha e um sobrinho. “Em todas as festas que fazemos todo mundo trabalha. Mesmo todos tendo outro emprego, exceto eu, ninguém reclama. Todos acham ótimo, porque dá para aumentar o salário no final do mês. Já minha filha e meu sobrinho, que ainda são adolescentes, encaram como diversão, eles adoram”, aponta.

E para quem pensa que trabalhar com tanta gente da mesma família pode ser sinônimo de confusão está enganado. “É maravilhoso ter a família unida, ainda mais quando o ambiente é de festa. É até engraçado, os eventos são o assunto da semana. Todos nós ficamos realizados de fazer parte de momentos de felicidade na vida das pessoas”, afirma Vanilza, que nunca pensou em desistir.

Para ela, a confiança é um dos maiores benefícios de se unir família e trabalho. “Todo mundo faz o serviço com a mesma qualidade e com o mesmo amor. Então, se um ficar doente, é fácil encontrar substituto. Isso é bom também porque podemos pegar mais de um evento por dia”, analisa.

Quando o assunto é sucessores, Vanilza não tem dúvida que o negócio vai se tornar um legado da família. “Minha filha tem apenas 12 anos e meu sobrinho 13, mas eles não podem ouvir falando que tem festa porque já querem ir junto. Por enquanto eles só ajudam, mas já demonstram intenção de assumir a empresa quando crescerem”, conta.

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Preparar sucessores para assumir o negócio é o principal desafio

De sua abertura até atingir a estabilidade, uma empresa familiar precisa superar muitos obstáculos. Quando tudo parece ter corrido bem, é hora de ultrapassar mais uma delicada barreira: a da sucessão. Não conduzir adequadamente esse processo pode comprometer a sobrevivência e a continuidade do empreendimento. Para o administrador de empresas Alexey Carvalho, este momento pode ser crucial.

“O fundador da empresa não pode administrá-la por toda a vida, ele precisa delegar poderes. O problema é que, em grande parte dos casos, os filhos não têm os mesmos ideais e objetivos dos os pais, e se negam a assumir os negócios. O fundador precisa preparar sucessores, profissionalizar pessoas, mesmo não sendo familiares, para assumir a diretoria da empresa”, explica.

A decisão deve levar em consideração o desejo de dar continuidade ao negócio. O secretário municipal do Desenvolvimento Econômico, Nico Mondelli, orienta que o comando da empresa não deve ser passado a um herdeiro por conta do grau de parentesco, mas pela competência e identificação com o ramo do negócio. “O fato de ser parente não credencia ninguém para a sucessão”, afirma.