08 de julho de 2026
Bairros

Sonho e necessidade originam negócios

Wanessa Ferrari
| Tempo de leitura: 7 min

Sonhos, necessidades e ideais, aliados à união de habilidades e ao apoio encontrado nos parentes, propulsionam o surgimento de empresas familiares. Inicialmente, a idéia é criar um ambiente que possibilite gerar renda e empregar familiares parte dos comandantes da família. Posteriormente, os filhos são envolvidos nas tarefas e operações da firma.

A Toca das Embalagens é um exemplo típico do caso. Seo Moacir Romano, 52 anos, foi quem deu início à empresa, que, há cerca de 10 anos, é a responsável pela renda da família. “Trabalhei como vendedor durante 15 anos e fui demitido. Depois disso tentei viver como autônomo vendendo produtos na rua, mas não deu certo. Foi quando tive a idéia de abrir um estabelecimento onde toda a família pudesse trabalhar”, lembra Romano.

Para alcançar a estabilidade, ele passou por muitos desafios. “Tinha apenas o dinheiro da minha rescisão para dar início no negócio, e não era o suficiente. Meu sogro me cedeu um espaço, onde antes funcionava um bar, para montar a loja. Era pequeno, apenas duas portinhas, mas foi ali onde tudo começou”, recorda.

Os desafios marcaram o caminho da família Romano. Dificuldades para encontrar fornecedores, aprender a lidar com o dinheiro e ganhar público foram as principais barreiras a serem transpostas. “Tudo o que tínhamos era coragem e apoio familiar. Hoje, quando paro para pensar, vejo tudo isso como uma aventura, porque quando eu abri o negócio não me passou pela cabeça a possibilidade de dar tudo errado e perder o pouco dinheiro que tínhamos”, analisa.

Na opinião de Romano, a presença da esposa e dos filhos foi fundamental para a sobrevivência da empresa. Trabalhando juntos, o negócio cresceu e, com ajuda da sogra, se mudou para um espaço maior. “O ponto comercial é fundamental para os negócios prosperarem. Trabalhar em família também ajuda muito, nos unimos em torno de um mesmo objetivo”, aponta Romano.

Outra dificuldade é manter a família por perto. “Meus filhos já pensaram em seguir outras áreas, mas por enquanto não conseguiram entrar na faculdade. Neste ponto eu sou bem claro: eles não vão encontrar em nenhuma outra empresa os benefícios que eu os proporciono aqui. Comigo nunca serão demitidos. Tenho três funcionários que valem por cinco”, considera.

Dificuldades também não faltaram para a família Sousa. Proprietários da papelaria He-Man há 23 anos, o administrador Márcio Antônio de Sousa, 38 anos, lembra que não foi fácil manter a empresa funcionando.

“Tudo começou com uma idéia da minha mãe. Morávamos em Itapuí e ela já tinha tentado sociedade com uma tia, mas acabou não dando certo. Quando viemos para Bauru, percebemos a existência de três escolas estaduais de grande porte próximas à nossa casa, e os alunos compravam material escolar nos bares. Então ela decidiu tentar novamente e abriu a papelaria”, lembra.

Conforme o tempo passou, o negócio assumiu proporções maiores, e a família precisou buscar ajuda e se profissionalizar. “No começo, eu e meus pais dávamos conta do recado. Depois foi necessário envolver mais gente, e minha irmã veio trabalhar conosco. Busquei me aperfeiçoar e fiz um curso de administração, que nos ajudou muito”, conta.

A iniciativa da família foi essencial para a sobrevivência da empresa. “Dividimos as tarefas, porque no início as funções se confundiam muito. Hoje meus pais ajudam, minha irmã cuida do varejo e busco oportunidades no atacado e no corporativo. Cada um conhece o melhor para a empresa dentro da sua competência. Separar o dinheiro da empresa e da família é essencial. Não é porque tem R$ 10,00 no caixa que eu posso gastar”, ensina.

Também é graças à ajuda especializada que sobrevive a H. Razera Móveis. A empresa foi criada pelo patriarca da família, Seo Hélio Razera, há 42 anos, e já passou para a segunda geração.

Cássio Luiz Castilho Razera, 39 anos, atualmente divide o comando da fábrica com o pai, de 81 anos. O empreendimento é fruto do desejo de Seo Hélio de ter o próprio negócio. “No começo ele tentou sociedade com meu tio, mas não deu certo. Quando os filhos chegaram, cada um quis opinar um pouco e a parceria acabou. Meu pai foi tocando os negócios com minha ajuda. Eu sou formado em processamento de dados e trabalhava na época em uma faculdade na cidade, e no meu tempo livre eu dava uma mão a ele.”

Mas não foi possível conciliar as tarefas por muito tempo. Continuar com a fábrica funcionando passou a depender de uma decisão de Cássio. “Um dia meu pai percebeu que não dava mais para tocar a fábrica sozinho. Eu precisei escolher entre meu emprego e o sonho do meu pai. Decidi apoiá-lo”, recorda.

Foi quando Cássio sentiu a necessidade de ajuda especializada para fazer os negócios prosperarem. “Precisava fazer a empresa crescer, então recorri ao Serviço de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae). Desde então, estamos fazendo tudo certinho e alcançando bons resultados. Há quatro anos conseguimos abrir um show room para a nossa fábrica, isso alavancou nossas vendas”, garante.

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‘Trabalho é gratificante’

Quem vê uma empresa do porte do frigorífico Vangélio Mondelli dificilmente imagina que uma forte estrutura familiar a mantém ativa no mercado. No topo do seu organograma estão seis irmãos, que dão continuidade ao projeto do pai, um imigrante italiano.

Vangélio Mondelli veio para o Brasil em decorrência da Primeira Guerra Mundial (1914-1918). Aqui casou e em 1935 se mudou para Bauru. Para sobreviver, Vangélio começou a vender miúdos na rua. Percebendo a possibilidade do negócio dar certo, em 1951 adquiriu um açougue com o apoio da família.

“O primeiro a seguir os passos de meu pai foi meu irmão Gennaro. As mulheres da família não se interessaram e preferiram acompanhar os respectivos maridos. Gennaro ficou no comando da empresa até o início do ano passado. Depois de seu falecimento, estamos nos reorganizando. Eu assumi a presidência há pouco tempo”, conta Antônio Mondelli.

De acordo com ele, mesmo uma empresa familiar estruturada, presente há cerca de 70 anos no mercado, encontra dificuldades. “Para chegar até aqui foi um sacrifício. Meu pai era pobre e tinha dez crianças para sustentar, mas quem pensa que com o sucesso da empresa os problemas acabaram, está enganado. Cada crise financeira que o mundo passa nos afeta diretamente, as mudanças nos planos econômicos também são um desafio”, argumenta.

Profissionalizar-se. Esta é a dica de Antônio para empresas familiares que almejam o crescimento. “Chega uma hora que não dá mais para levar em conta os laços familiares, isso atrapalha na hora de enxergar soluções. Aqui no Mondelli estamos cogitando a possibilidade de preparar um sucessor que não seja da família. Já criamos um conselho administrativo formado por integrantes e não-integrantes da família”, conta.

A empresa, que conta com cerca de 1.000 funcionários distribuídos entre frigorífico e fazenda, é o orgulho de Antônio. “Trabalhar em família é gratificante. É bom saber que estamos mantendo e dando continuidade àquilo que meu pai e meu irmão mais velho lutaram tanto para conseguir.”

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Empreendedora desde a adolescência

O surgimento da Academia de Dança Corpo Livre, uma empresa familiar, foi no mínimo inusitado: o negócio foi adquirido pela matriarca da família Lobato para satisfazer o sonho da filha, que na época tinha apenas 13 anos.

Apaixonada por dança, Merene Caroline Lobato, 23 anos, pratica o esporte desde os 4 anos, sempre acompanhada de perto pela mãe, Lúcia Helena Lobato. Quando tinha 11 anos, Merene passou a fazer aulas na academia de um casal de bailarinos, onde sua mãe atuava como secretária. Dois anos depois, em 1996, o casal decidiu vender o negócios e se mudar para Campinas.

“Foi quando surgiu a idéia de assumirmos a direção da empresa. No começo tudo foi incerteza. Tínhamos apenas 15 alunos e tudo o que sabíamos aprendemos com os antigos donos, mas eu era decidida e sabia o que queria”, lembra Merene.

De acordo com ela, decisão mais acertada não poderia ter sido tomada. A empresa é a paixão da família. “O trabalho aqui é muito gratificante. O melhor de tudo é saber que meus pais acreditaram em mim e compraram a academia por minha causa. Nossa aventura deu certo”, afirma Merene.

A empresa, que completou 10 anos de funcionamento sob o comando de Lúcia, tem planos de expansão. A família pretende deixar o prédio alugado em breve e se mudar para um espaço próprio.

Merene conta que só foi possível prosperar por conta do respeito e apoio conquistado pelo trabalho juntos. “Tenho segurança em trabalhar aqui. Minha mãe me apóia, mas também me dá bronca. Já meu pai, mesmo sendo metalúrgico e tendo outro emprego, faz de tudo para nos agradar. E a participação dele é fundamental: ele ajuda com as fantasias, faz divulgação e, se precisar, até abre e fecha a cortina no dia do espetáculo”, orgulha-se.