Apesar de sua ampla aceitação social, o consumo de bebidas alcoólicas, quando excessivo, passa a ser um problema. Em Bauru, dados de grupos dos Alcóolicos Anônimos (A.A.) e do Centro de Atenção Psicossocial Álcool e Drogas (Caps-AD) mostra que a maioria dos dependentes que procuram tratamento é formada por homens “maduros”, entre 40 e 50 anos.
O dado é confirmado por pesquisa realizada pelo governo dos Estados Unidos, divulgada recentemente pelo jornal ‘Folha de São Paulo’, revela que muitos adultos mais velhos têm abusado do álcool no país.
O estudo, realizado junto a quase 11 mil norte-americanos com pelo menos 50 anos, revela que 23% dos homens e 9% das mulheres entre 50 e 64 anos admitem ter abusado do álcool no mês anterior. Entre os adultos com 65 anos ou mais, mais de 14% dos homens e 3% das mulheres admitiram ter tido esse comportamento - definido como tomar cinco ou mais doses de álcool em uma única ocasião.
Segundo Luciana de Oliveira Martins, enfermeira e chefe do Caps AD, a faixa etária dos atendidos no programa é de 25 a 50 anos e cerca de 80% são do sexo masculino. “A maioria das pessoas que fazem tratamento com a gente tem entre 40 e 50 anos. Existem casos em que os dependentes são trazidos por familiares, mas nesta faixa etária, dos homens mais velhos, grande parte procura espontaneamente, pois o alcoolismo já pesou em suas vidas”, explica. “Muitas destas pessoas já tiveram perdas tanto na vida familiar quanto profissional e até mesmo no dia-a-dia”, acrescenta a enfermeira.
No A.A., que no último dia 5 de setembro completou 62 anos no Brasil, a situação é a mesma. Segundo informações do grupo da cidade, a freqüência maior nas reuniões, que ocorrem diariamente, são de pessoas entre 40 e 50 anos. “Mas, no nosso caso, cerca de 90% destas pessoas chegam acompanhados ou encaminhados por familiares. Inclusive, recentemente, um homem com cerca de 50 anos passou a freqüentar as reuniões levado por seu pai”, explica João, nome fictício de um integrante do grupo há 20 anos.
Jovens
Mas o abuso do álcool também é um problema juvenil. No A.A., por exemplo, no último ano houve aumento na procura por apoio entre pessoas de 23 a 30 anos. “Talvez seja por causa da divulgação maior do nosso trabalho. Essa mudança não significa que houve aumento no consumo de álcool nesta faixa etária”, explica João.
O estudo do governo dos Estados Unidos aponta que, entre universitários de 18 a 24 anos, 25% admitiram uma bebedeira recente. A chefe do Caps-AD explica que as histórias de vida dos pacientes do Caps AD mostra que o consumo de bebidas alcóolicas na vida dos jovens começa cedo, entre 12 e 16 anos. Em muitos casos, no próprio âmbito familiar.
“Há também o caso das pessoas que passaram a beber em meio social, quando começaram a freqüentar festas”, conta. “O grande problema é que as pessoas julgam o alcoolismo, muitas vezes, pelo sujeito jogado na sarjeta. Aquele que tem família, emprego e faz uso diário da bebida não é considerado alcoólatra, apesar de ter tido perdas durante toda a vida”, complementa Martins.
Além das perdas no âmbito familiar e na vida profissional, sintomas clínicos também pode ser sinais de alcoolismo. “Sintomas gástricos são os mais freqüentes. Além disso, outro indício é quando no café da manhã a pessoa já toma uma bebida alcóolica para conseguir passar o dia ou até mesmo trabalhar. A procura por ajuda ocorre tarde porque, apesar da doença estar instalada, o alcoólatra não consegue enxergar”, revela a enfermeira.
Segundo a chefe do Caps AD, existem muitos jovens que já fazem uso diário de álcool e quando chegam na faixa de 25 anos já estão com o alcoolismo instalado. “Não é a maioria dos casos, mas a gente recebe pacientes nesta faixa etária que se encaixam neste quadro”, afirma.
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Caps-AD
Levantamento realizado pela Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo entre os anos de 2004 e 2007 aponta crescimento de 119,45% no número de atendimentos de pessoas em busca de tratamento contra o vício do álcool. Somente em 2007, os 47 Centro de Atenção Psicossocial (Caps) que atendem dependentes químicos realizaram 321.162 atendimentos.
A busca por tratamento contra o alcoolismo tem aumentado inclusive entre aqueles em que o vício já chegou a pontos extremos. O número de atendimentos de cuidado intensivo, ou seja, que demandam atendimento diário, saltou de 125.262 em 2004 para 283.552 em 2007, alta de 126,4%.
De acordo com Luciana de Oliveira Martins, enfermeira e chefe do Caps-AD de Bauru, o tratamento da unidade consiste na terapia associado ao uso de medicamentos, quando necessário. “Quando o paciente chega em fase aguda da doença, em estado de desintoxicação ou de abstinência, estão se faz necessário o uso de medicamento em determinado período”, explica.