08 de julho de 2026
Articulistas

A título de quê?

Edson Valentim de Freitas Filho
| Tempo de leitura: 3 min

Viver a “arte” do teatro – essa parece ser a marca de uma história da qual não deveríamos nos orgulhar. Condena-se Chavez, quando no fundo se deseja ser um Chavez. Apressadamente se condena os militares hondurenhos que defendem sua Carta Constitucional, na expectativa de se ver um aprendiz de golpista voltar à ribalta. E se faz essa condenação sem expressar a mesma indignação com Castro, cujo governo está assentado sobre o mesmo pilar que dizem condenar – golpe. Apressadamente se devolveu a Cuba dois jovens atletas perseguidos pela ditadura comunista, mas se luta com unhas e dentes para manter em território pátrio um homem legalmente julgado e condenado em seu país como criminoso – como se nossos próceres tivessem mais conhecimento e autoridade que a Suprema Corte do país que julgou tal personagem.

Agora se prepara uma recepção para alguém que nega o holocausto (e que deseja o mesmo que Hitler – dizimar todo um povo). O ditador alemão não usou bomba atômica porque não a possuía. Mas nosso ilustre visitante a está construindo.

A título de que a visita? Não podemos nos esquecer que a história brasileira registra perseguição aos judeus durante a Segunda Guerra, quando na aparência fazíamos parte das tropas aliadas que combatiam justamente os que perseguiam os judeus. Em que época se fazia isso? Numa época de ditadura. Em que época recebemos tal visita? Num momento em que nossos ilustres líderes políticos desejam ardentemente ver nossa nação virar uma Venezuela, uma Cuba ou até, quem sabe, um Irã.

A título de que a visita? Comercial? O Brasil não depende do Irã, comercialmente. Diplomacia? Só se, publica e particularmente, seja colocado ao ilustre visitante que o povo brasileiro repudia veementemente os posicionamentos externados por ele. No entanto, o risco que corremos é mais uma vez a “arte” teatral se fazer presente – dizer para a platéia o que a platéia quer ouvir, mas agindo nos bastidores de forma diversa. A questão está nas motivações e nos comprometimentos particulares.

Infelizmente somos um povo que exalta Biggs, indeniza com dinheiro público aqueles que tentaram implantar aqui uma ditadura comunista pelas armas, somos um povo que torna herói – com direito a feriado – um personagem nada exemplar, que nutre as redes de TV assistindo a seus noticiários e programas que exaltam o crime, a traição, a mentira, e em nada destacam o valor do caráter, do casamento, da família.

E vez por outra aparecem aqueles que querem culpar Deus pelo que está aí. Chegam a negar a existência de Deus apenas por observar que o mundo vai de mal a pior – “se Deus existisse essas coisas (ruins) não aconteceriam”. Mas colhemos o que plantamos. O tempo da colheita difere, dependendo da semente. Mas a colheita vem. E o que hoje estamos semeando com nossas atitudes (inclusive com nosso silêncio) um dia será colhido.

Por isso, registro aqui o meu “não”. Não compactuo com isso. Não aceito essa visita (pois não vem acompanhada de arrependimento). Não aceito essa cultura. Não quero ficar em silêncio. Digo não a quem nega o Holocausto. Digo não a quem deseja um Holocausto em pleno século 21.

O autor, Edson Valentim de Freitas Filho, é pastor da Igreja Batista Bereana e presidente do Conselho de Pastores Evangélicos de Bauru