Li um artigo uma vez, sobre Madre Tereza de Calcutá, que contava sobre a abordagem de um jornalista que, elogiando seu trabalho, disse-lhe que embora o que ela fizesse fosse muito nobre, ele considerava esse trabalho como uma gota de água no oceano.
Madre Tereza respondeu-lhe que seu trabalho era, sim, uma gota de água no oceano, mas que sem essa gota o oceano seria um pouco menor e que para ela bastava que aquela pequena gota fizesse a diferença na vida de quem a recebesse. Meu esposo foi assaltado no dia 9/11, em plena luz do dia, no centro da cidade.
À noite estivemos na Delegacia de Polícia para fazer um boletim de ocorrência. Qualquer cidadão comum, que trabalha para sobreviver, fica tenso dentro de uma Delegacia de Polícia, vendo policiais chegando com gente criminosa, com vítimas, enfim, trazendo problemas que a polícia precisa resolver.
Fomos atendidos pela escrivã de polícia Lívia. Que policial educada e gentil. No seu trato para conosco percebemos o quanto essa moça faz a diferença naquele ambiente difícil, onde chega gente decente, vítima de uma sociedade deturpada, mas também passa por lá a escória da sociedade que agride, que mata, que rouba, que fere. Outro dia fui atendida no Pronto-Atendimento do hospital da Unimed, de onde saí pouco mais de meia- noite.
Fui atendida pelo dr. Nilton Enedino, que estava como plantonista naquela noite. A gente se acostuma a passar pelos P.A.s da vida, sempre tumultuados, com gente passando mal e todo mundo querendo ser atendido logo e onde dificilmente os médicos conseguem examinar o paciente. Mas fui surpreendida pelo atendimento desse médico que me examinou como se eu estivesse em seu consultório particular, me encaminhou para aplicação de medicação, se interessou pela minha melhora e só me liberou quando eu realmente tinha condições de voltar para casa.
Lidamos diáriamente com gente que faz o possível e o impossível para tornar mais difícil a vida das pessoas e quando estamos a ponto de perder a fé na humanidade somos surpreendidos por gente que não abre mão da sua gota d’água no oceano, gente que faz a diferença por onde passa.
Conheço gente que faz essa diferença. Gente comum, profissionais que colocam o amor ao próximo acima do lucro, gente que acha que não faz nada, mas que no dia-a-dia, faz tudo para tornar menos difícil a vida das criaturas que atravessam seu caminho.
Conheço gente como a Beatriz da vida digna, que não tem dinheiro para colocar piso na sua casa, mas dedica sua vida a resgatar e cuidar de animais rejeitados, machucados, abandonados por uma sociedade injusta e cruel que se esquece que os pobres animais são criaturas de Deus e merecem respeito e cuidados.
Conheço enfermeiros, policiais, comerciários e comerciantes, pastores, veterinários, médicos, donas de casa, gente comum mesmo, que a despeito do reconhecimento ou da obtenção de lucro, são capazes de fazer a diferença na vida das criaturas de Deus, mesmo que essa diferença seja uma pequena gota d’água no oceano.
Gosto de pensar que quando Deus olha pra gente assim, Ele pensa que Jesus não morreu em vão. Deus olha pra gente assim e vê pessoas se empenhando em seguir o exemplo de Jesus. Gente que Deus quer salvar e levar para o céu um dia, pra nunca mais ver tanta miséria, dor e sofrimento. Gosto de olhar pra Jesus e saber que Ele é o meu exemplo; que esse é o exemplo que eu quero seguir.
Sou uma cidadã comum. Trabalho no R.H. do Hospital da Unimed e embora a correria do dia-a-dia parece nos engolir, me empenho ao máximo para tentar ser uma pequena gota d’água no oceano. Me empenho ao máximo pra tornar a vida das pessoas um pouco menos difícil.
Sou humana, nem sempre acerto, mas quero crer que estou no caminho certo, buscando ao máximo fazer com que a minha pequena gota d’água torne o oceano um pouco maior, um pouco melhor.
Talvez o que eu faça não signifique uma grande diferença, mas se essa pequena diferença minimizar um pouco as dificuldades de alguém, então terei a certeza de que Jesus não morreu em vão, quando morreu por mim também.
Silvia Betti Neves - coordenadora de R.H. do Hospital da Unimed