09 de julho de 2026
Política

Marina contesta meta de CO2 de Lula

Lilian Grasiela
| Tempo de leitura: 11 min

A senadora Marina Silva (PV/AC), pré-candidata pela legenda à Presidência da República, esteve ontem pela manhã em Bauru e região, a convite do deputado federal José Paulo Tóffano (PV/SP), para divulgar o Programa Brasil Sustentável. Antes de ministrar palestra sobre o tema na Universidade do Sagrado Coração (USC), em Bauru, a senadora falou ao Jornal da Cidade, no Café com Política, sobre sua trajetória política, a mudança do PT para o PV, a questão da Amazônia e propostas que compõem o Programa Brasil Sustentável, que quer transformar o atual sistema econômico em um modelo voltado para a baixa emissão de carbono e o crescimento da geração de emprego e renda. Marina também contestou o compromisso assumido nesta semana pelo governo Lula de levar até a Conferência do Clima de Copenhague, na Dinamarca, agendada para dezembro, a meta de reduzir os índices de emissão dos gases do efeito estufa na atmosfera entre 36,1% e 38,9%, até o ano de 2020.

O encontro foi acompanhado pelo pré-candidato a uma vaga na Assembléia Legislativa do Estado Clodoaldo Gazzetta, pelo deputado federal Talmir Rodrigues (PV/SP), por Tóffano, pelo prefeito Rodrigo Agostinho, pelo presidente do PV, Raul de Paula, e por prefeitos, vereadores e militantes do PV na região. Da USC, a senadora seguiu para uma visita à prefeita de Pederneiras, Ivana Camarinha, participou de almoço com empresários e autoridades em Jaú, fez palestra sobre sustentabilidade na Câmara do município e terminou sua agenda com um jantar em Bocaina.

Jornal da Cidade- Como foi sua trajetória de militância política no Acre até a decisão de filiar-se ao PT?

Marina - Quando eu entrei na universidade, passei para o movimento estudantil. Ajudei depois o Chico Mendes a fundar a Central Única dos Trabalhadores e, em 84, ele foi eleito coordenador da CUT no Acre e eu fui a vice-coordenadora da CUT. Quando foi feita a fundação do partido dos trabalhadores, houve naquela época uma divisão na comunidade de base porque um grupo achava que deveria continuar militando no PMDB, que era a resistência democrática na época da ditadura ainda, e um grupo achava que deveria fundar o PT junto com o Lula. Eu fiquei junto com o padre João Carlos, que era da opinião que ficasse o PT e não o PMDB, mas ainda não era filiada. Era uma militância social. Em 85, diante das ameaças que o Chico Mendes sofria constantemente de morte, a gente decidiu que ele sairia candidato a deputado estadual e que, talvez, se ele se elegesse, seria uma forma de protegê-lo dos que queriam assassiná-lo. Como ele era mais conhecido em Xapuri e não era conhecido em Rio Branco e nos outros estados e eu já tinha uma certa inserção, então nós fizemos uma dobradinha, ele para estadual e eu para federal constituinte, em 86. Em 85, eu havia me filiado ao PT por entender que, naquele contexto, o único partido que tinha identificação com a luta de resistência contra a destruição da floresta e da expulsão das comunidades tradicionais das quais eu fazia parte de origem porque minha família toda era de seringueiros, era o PT, aonde fiquei durante trinta anos.

JC - A senhora disse “por entender que, naquele contexto, o único partido que tinha identificação...”. Hoje a senhora entende que ele não tem esse posicionamento?

Marina - É que na época era o único. Eu acho que hoje nós temos outros que também têm um posicionamento, inclusive o próprio PV que foi criado pelo Chico Mendes, mas naquela época, no final da década de 70, início da década de 80, os partidos eram todos conservadores, com raríssimas exceções de pessoas que tinham visão progressista. O PT era, digamos assim, o partido que se organizou da luta social que nós fazíamos. Hoje, nós já temos outros partidos. Na Época, o PC do B ainda era muito insipiente, o PV só foi criado depois, outros partidos como o PPS, o PSB só bem depois surgiram no Acre.

JC - Como foi sua saída do PT e a entrada no PV?

Marina - Foi difícil, foi muito difícil, porque é uma vida inteira de dedicação, de investimento. Eu tenho toda a minha trajetória política institucional dentro do PT. É como eu disse no dia em que saí: às vezes, é preciso que você saia da casa em que você está e construa uma outra casa para continuar junto na mesma vizinhança, na mesma rua, no mesmo bairro, mas em uma outra casa. Infelizmente, no Brasil, os partidos, e nesse caso o PT também, não foram capazes de perceber a importância da questão socioambiental para o Brasil e o mundo em que pese ter identificação, no caso o PT, com as questões sociais, da democracia e de defesa dos direitos humanos. Nessa agenda, as pessoas que militavam dentro do PT eram um grupo muito particular, sem grande influência dentro do partido, e sem que o partido assimilasse essa questão como sendo o eixo estratégico da sua atuação ou, pelo menos, se dispusesse a transitar para isso. Eu tive a honra de ser ministra do meio ambiente convidada por Lula.

JC - O fato de ter sido convidada para ser a pré-candidata do PV à Presidência da República pesou na sua decisão de deixar o PT?

Marina - O que me animou foi a idéia de que o desenvolvimento sustentável era prioridade na atuação do partido. Fiz uma discussão difícil, dolorosa, com meu partido anterior, o PT, mas cheguei a conclusão de que deveria fazer essa mudança até porque as pessoas com as quais eu conversava, meus amigos e companheiros, sempre faziam um apelo sincero de que eu deveria ficar. Mas eles sempre diziam: - você deve ficar para continuar fazendo esse embate dentro do PT, tentar convencer o PT da importância da sua luta, nós sabemos que ela é muito importante - e eu pensei: eu já estou há trinta anos fazendo isso e acho que é o momento não mais de ficar fazendo embate para convencer o PT, é de fazer o encontro com aqueles que querem fazer dessa questão uma prioridade.

JC - A senhora já conhecia o prefeito Rodrigo Agostinho, não é?

Marina - Sim, o Rodrigo, o nosso prefeito, é do PMDB, mas temos uma relação de amizade. Então, eu sinto que há um acolhimento muito grande. Obviamente que o acolhimento é pelas idéias, pelo projeto de ver um país como o Brasil, que é uma potência ambiental, dando importância a esse seu diferencial. O Brasil não pode continuar, no século XXI, usando os mesmos referenciais para o desenvolvimento do século XIX, do século XX, aonde a visão dos recursos naturais é de que eles eram infinitos, de que não iam se acabar nunca e que a gente podia fazer o que bem quisesse. Quando a gente olha para a Mata Atlântica, a gente vê que, ainda que fosse um milhão e trezentos mil quilômetros quadrados, quase se acabou. Quando a gente olha para o rio Tietê na parte em que ele não está preservado, a gente vê que é possível sim destruir algo muito importante para a sociedade, para o desenvolvimento econômico. O Brasil têm que mudar o modelo de desenvolvimento e essa discussão estava sendo deixada de lado.

JC - A questão da Amazônia, para a senhora, é uma questão prioritária? Como a senhora vê essa questão de se manter o desenvolvimento, mas com a preservação da floresta? Esse foi um dos principais pontos onde a senhora divergiu do governo?

Marina - Quando eu saí do governo, foi interno ao governo, mas, particularmente, com o ministério da agricultura e alguns ministérios que polarizavam muito, não em tudo, diga-se de passagem, para não fazer injustiça, mas em alguns pontos importantes, havia um tensionamento sim. A Amazônia é o lugar aonde nós podemos testar essa idéia de fazer diferente do que fizemos até agora porque ela ainda tem mais de 80% de área preservada. Então é possível fazer diferente, valorizando a floresta em pé e, ao mesmo tempo, promovendo o seu uso sustentável, melhorando a vida dos 25 milhões que estão ali e fazendo com que ela continue prestando serviços ambientais importantes para o Brasil e o planeta. No caso do Brasil, ela é uma espécie de caixa-d’água. Segundo o projeto Rios Voadores, a Amazônia produz 20 bilhões de toneladas de água por dia e as regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste seriam um deserto se não fosse a Amazônia. Se perdermos a floresta, é possível que no futuro essas regiões possam se transformar em deserto. E não há como imaginar a região mais populosa do nosso país com escassez de água, que aliás nós já temos. A Amazônia é um desafio de como desenvolver cerca de 5 milhões de quilômetros quadrados do nosso país gerando riquezas para o Brasil e para a região, mas protegendo as riquezas que temos ali de biodiversidade, de recursos hídricos.

JC - Em relação à Conferência do Clima de Copenhague, na Dinamarca, agendada para dezembro, como a senhora avalia as metas estabelecidas pelo Brasil para redução dos índices de emissão de gases de efeito estufa na atmosfera, fixadas entre 36,1% e 38,9%, até o ano de 2020?

Marina - No caso do Brasil, primeiro deu muito trabalho para que chegássemos às metas. Essa questão era tratada quase que como um dogma dentro do governo. Desde 2006, eu, juntamente com minha equipe e com a ajuda dos ministros Celso Amorim e Celso Rezende, conseguimos mudar esse processo e o Brasil passou a considerar a possibilidade de ter metas verificáveis e mensuráveis no âmbito da comissão como um processo ainda inicial envolvendo florestas. Criamos o Fundo Amazônia, com recursos da Noruega, e agora, pré-Copenhague, a sociedade brasileira fez uma pressão forte para que o governo brasileiro não fosse para lá de mãos abanando e que tivesse o sentido de urgência que precisamos ter com a contribuição dos países em desenvolvimento como forma, inclusive, de pressionar os países desenvolvidos que são responsáveis por maiores emissões de CO2. Até três meses atrás, o Brasil resistia a metas.

JC - E agora mudou a posição?

Marina - De três meses atrás, começou a considerar a possibilidade e, graças a uma ação integrada de setores do Congresso, no qual eu me incluo, de pessoas da academia e de vinte e duas grandes empresas de vanguarda que fizeram uma reunião também há uns três meses atrás, em São Paulo, dizendo que eles queriam assumir metas, que o governo fosse com o dever de casa feito sob pena de pagarmos um preço alto lá na frente em função de não termos feito os investimentos corretos para reduzir CO2, e também o esforço do Ministério do Meio Ambiente, o governo considerou ter meta. A meta de 36,1 % e 38,9% é uma meta de redução em relação à expectativa de emissão para o futuro, ou seja, se o Brasil, até 2020, iria fazer x% de emissão, ele está se comprometendo a fazer uma série de esforços na agricultura, no setor de energia, indústria, pecuária e desmatamento para chegar lá com uma redução em torno de 38,9% a 36,1%. Isso é uma projeção.

JC - Qual é a melhor solução, em sua opinião?

Marina - O correto era ter tido uma base a partir de 2005 e incidir em torno de 20% de redução sobre as emissões reais, que foi o que o governo de São Paulo fez que, no meu entendimento, obviamente, é uma proposta mais adequada. Eu primeiro propus que institucionalizasse a meta, e conseguimos institucionalizar no Congresso. Depois, que a meta fosse vinculada a um inventário, e isso conseguimos também. Só que as demais emendas que estabeleciam o corte a partir de 2005 e a redução em torno de 20% não foram possíveis, além de algumas outras propostas que, no meu entendimento, eram necessárias como, por exemplo, criar um portal para dar transparência, na internet, às ações de redução de CO2 para as empresas, o cidadão de modo geral e os formadores de opinião, como fizemos com o plano de combate ao desmatamento.

JC - Quais os principais pontos do Programa Brasil Sustentável?

Marina - Eu acho que o desafio que o Brasil tem é de mudar o modelo de desenvolvimento. E, para isso, nós vamos ter que ter respostas pensando na sustentabilidade, mas priorizando algumas questões. Por exemplo, a educação é algo estratégico para o país para fazer a transformação que nós queremos para os próximos vinte anos. É óbvio que uma questão como essa vai ser tratada. Continuarmos com uma política econômica que possa equilibrar a situação de crescimento com preservação também é fundamental. E, ao mesmo tempo, buscar como é que, na prática, se estabelece essa economia de baixo carbono. Para isso, vamos ter que inovar na indústria, no setor agrícola, vamos ter que criar as bases necessárias para que se tenha a energia limpa que precisamos. Ainda é muito pequena a quantidade de energia solar, eólica e de biomassa no Brasil.