Em sessão solene, ontem, na Câmara Municipal de Bauru, Reynaldo Galli recebeu o título de “Cidadão Bauruense” por ter se destacado pela sua sabedoria, inteligência, conhecimentos jurídicos acumulados ao longo do tempo e por ser uma pessoa que sempre serviu os amigos com grandeza e generosidade.
Nascido em Monte Azul Paulista, foi correndo pelos campos, livre como toda criança deve ser, que o juiz aposentado teve uma infância alegre, saudável e bastante travessa. Arteiro como os meninos do Interior costumam ser, para “seo” Reynaldo, as peraltices renderam cicatrizes e boas histórias a contar: “Era tão levado que rasguei a perna em uma cerca de arame farpado porque estava correndo atrás de um gato”, sorri ao lembrar da boa infância.
Do Interior para a Capital, ele estudou direito e, um ano após a formatura, já havia passado em um concurso para magistratura e se tornado juiz. “Sempre procurei fazer justiça e minha alegria é ouvir das pessoas que sou uma pessoa justa”, diz sobre a profissão.
De todas as paixões, talvez o Palmeiras seja uma das maiores. Além do futebol, a família também o move. Viúvo, o “Cidadão Bauruense” se casou pela segunda vez e teve mais um filho para completar seu quarteto de herdeiros. Confira, abaixo, os principais trechos da entrevista que Reynaldo Galli concedeu ao Jornal da Cidade e alguns trechos da homenagem que recebeu, ontem.
Jornal da Cidade - O Senhor se inspirou em alguém para cursar direito?
Reynaldo Galli - Acredito que tive uma certa influência de um tio meu que foi juiz de direito. Meus avós eram imigrantes da Itália e meu pai sempre trabalhou muito. Somente dois irmãos puderam estudar porque a vida de imigrantes não era fácil. Um tio meu se formou engenheiro agrônomo e outro, advogado e depois foi juiz. Então, essas duas carreiras me atraíram desde menino.
JC - Foi um menino feliz?
Galli - Fui criado em uma cidade pequena e minha infância foi muito gostosa. Meu pai tinha fazenda e eu vivia caçando com estilingue. Fazia coisas simples que, hoje, as crianças quase não fazem, como jogar futebol e correr pelo mato. Só tem uma coisa que eu gostaria de ter feito e não pude. Naquela época, não tínhamos piscina e meus pais não permitiam que eu fosse a rios, então, não aprendi a nadar. Consegui depois de velho, mas pouco. Também fui muito travesso, inclusive guardo marcas dos tempos de menino. Uma tarde vi um gato, e eu não gostava de gatos, corri atrás dele, ele pulou uma cerca de arame farpado, segui o bichano, me enrosquei todo no arame da cerca e rasguei a perna inteira. Ainda tenho as cicatrizes.
JC - E dos tempos de faculdade, tem boas lembranças?
Galli - Fiz faculdade na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Na época da faculdade, trabalhava com o doutor Manuel Pedro Pimental, que era um dos grandes criminalistas de São Paulo. Foi secretário da justiça e da segurança pública. Então, ele foi promovido a um cargo grande e deixou o escritório dele para mim e um sobrinho dele. Mas era muito grande, tinha muitas despesas e resolvi estudar para concursos. O primeiro que prestei foi para o Ministério Público, mas não passei. Nesse meio tempo, comecei a advogar em Tupã e fiz um concurso para magistratura. Passei e tomei posse em 1963. Me formei em 1962 e me tornei juiz um ano depois, então, pouco advoguei.
JC - Como era o jovem Reynaldo Galli?
Galli - Era briguento. Sempre fiz política universitária e fui contra a esquerda porque não acho que ela resolva alguma coisa. Era engajado dentro da faculdade, mas não tenho um fato marcante daquela época. Havia desavenças normais, mas giravam em torno de discussões. Sempre respeitei meus colegas que tinham ideais diferentes e eles também me respeitavam.
JC - O senhor nunca pensou em entrar para a política?
Galli - Não. Nunca participei. Primeiro que, quando jovem, não pensei sobre isso. Na época de cursinho, eu era muito amigo de um político e sempre o apoiei, mas eu mesmo nunca quis me candidatar a nada. Atendendo ao pedido de um amigo que tenho desde que cheguei a Bauru, Abel, este ano me filiei ao Partido Trabalhista Brasileiro (PTB).
JC - Quando o senhor chegou a Bauru?
Galli - Cheguei em 1973 para ser juiz. Eu trabalhava em São Carlos e o juiz que estava em Bauru me propôs uma permuta. Ele queria ir para São Carlos e, como eu já conhecia a cidade e meus pais moravam aqui, aceitei a troca.
JC - A carreira de juiz foi o que o senhor esperava?
Galli - Foi. Olha, é uma carreira muito trabalhosa, mas foi muito gratificante. Fui juiz substituto em Presidente Prudente e, de Rancharia até Presidente Epitácio, fui juiz em todas as comarcas. Depois, fui juiz na alta paulista, exceto Adamantina. Posteriormente fui para São Carlos, Bauru e me promovi para São Paulo apenas para me aposentar, em 1983.
JC - Quais foram os altos e baixos de sua carreira?
Galli - Sempre tive muita dificuldade nas questões de família. Normalmente, as separações envolvem problemas afetivos, pessoais, filhos...E isso me angustiava muito, principalmente quando se tratava de pessoas mais pobres. Você ter que repartir um salário mínimo entre filhos, esposa, marido... A miséria é tanta que te causa uma angústia enorme. Não há o que se fazer, por isso o direito de família sempre me causou uma certa tristeza. Agora, a profissão em si sempre me causou satisfação. Eu procurei ser um bom juiz ao longo de todos esses anos e dentro das minhas limitações.
JC - O que é ser um bom juiz?
Galli - Vou te contar uma história. Quando sai da cidade de Lucélia, fui homenageado. Recebi uma placa com dizeres que não me esqueço nunca: “Ao doutor Reynaldo Galli, um justo”. Achei aquilo muito bonito. A população achar que eu fui justo é muito gratificante. Sempre procurei fazer justiça.
JC - Voltou a advogar depois da aposentadoria?
Galli - Sim. Fechei meu escritório ano passado e estou encerrando os casos que estão em andamento com meu colega de escritório Marcelo Cury.
JC - O senhor está no seu segundo casamento...
Galli - Sim. Minha primeira esposa faleceu e há cerca de 14 anos, me casei novamente. Casei-me pela primeira vez aos 27. Mesmo tendo filhos, é muito difícil viver sozinho, já que cada um tem a sua vida. Acho que há necessidade de uma parceria, da convivência com uma pessoa que seja afetivamente grata a nós. Assim, conheci minha atual esposa, nos damos muito bem e vivemos felizes e em harmonia.
JC - O que a família simboliza para o senhor?
Galli - Significa muito. Acho importantíssimo um pai amparar os filhos e ter o reconhecimento afetivo deles. Graças a Deus, meus filhos são pessoas que eu estimo muito e que me dão efetivas demonstrações de me estimarem também. Tenho seis netos que também são minha alegria.
JC - O senhor tem amigos de longa data?
Galli - Sim. Tenho amigos desde o tempo da faculdade. Alguns deles vieram para a cerimônia, ontem, onde recebi o título de “Cidadão Bauruense”. Não vivo sem meus amigos e me sinto muito bem na presença deles. Gosto muito de um bom bate-papo e um churrasquinho.
JC - Quais são as histórias que o senhor conta sobre sua carreira?
Galli - (Risos...) Certa vez (essa não esqueço), um sujeito foi preso em flagrante por aplicar o “conto do bilhete”. Sempre fui contra deixar alguém preso sem que a pessoa seja perigosa. Então, o sujeito foi ao interrogatório com muletas e sem uma perna e o advogado dele pediu o relaxamento da prisão em flagrante. Como era da minha índole não deixar alguém preso antes da condenação definitiva, concedi. Sai do fórum e fui tomar café em um bar. O sujeito estava lá, sem muletas e com uma perna mecânica. O dono do bar me contou que ele havia pedido uma pinga. Quando entrei, o proprietário do estabelecimento perguntou se ele queria gelada ou sem gelo. Ele olhou para minha cara e disse: “Pode ser da torneira mesmo”.
JC - Como se sentiu ao receber o título de “Cidadão Bauruense”
Galli - Nunca procurei o título. Mas agradeço muito, especialmente aos amigos que me indicaram e aos que estiveram presentes. Receber uma homenagem assim é uma emoção muito grande e gratificante. Difícil foi conter as lágrimas no discurso.
JC - O senhor disse que seu hobby é leitura.
Galli - É, sim. Entre minhas obras preferidas estão os livros de Erico Verissimo. Também gosto muito de histórias policiais e tenho a coleção completa de Agatha Christie. Também gosto de viajar para o Nordeste do Brasil sempre que posso. Conheço alguns países da América Latina e já fui para os Estados Unidos assistir à Copa do Mundo de Futebol.
JC - E a paixão pelo futebol?
Galli - É grande. Sou fanático pelo Palmeiras, e já fui mais. Já briguei e discuti muito por causa do esporte. Na minha opinião, o grande time do Verdão foi aquele do Rivaldo. A gente sabia que a equipe ia vencer de goleada. Aquele time me deu muita alegria.
JC - O senhor é um homem realizado?
Galli - Sinto-me assim. Preservei o que meu sogro me proporcionou e deixei tudo aos meus filhos. Eles estão bem e com isso me sinto feliz. A vida se desenrolou para mim de uma maneira que Deus me deu tudo. Tudo o que almejei, eu alcancei. Agora, só espero poder ver a copa de 2014 (risos).
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Perfil
• Nome: Reynaldo Galli
• Idade: 73 anos
• Local de Nascimento: Monte Azul Paulista
• Signo: Capricórnio
• Esposa: Denise
• Filhos: Renata, Fernanda, Ciro e Cláudio
• Hobby: Leitura
• Livro de cabeceira: Obras de Érico Veríssimo
• Filme preferido: Aventura
• Estilo musical predileto: Bossa Nova
• Time: Palmeiras
• Para quem dá nota 10: Aos que se dedicam a auxiliar o próximo
• Para quem dá nota 0: Aos que desprezam os direitos humanos