Frito, assado, quente ou tradicionalmente gelado e com uma gama de sabores que vai do exótico cupuaçu com frutas do bosque ao tradicional chocolate, o sorvete permite uma ampla possibilidade de combinações e ainda pode ser encontrado com ou sem leite, e apreciado em palitos, cestinhas ou sob a forma do famoso cascão.
Passados 175 anos da chegada do sorvete ao Brasil, talvez ninguém pudesse imaginar que todas essas variações um dia seriam possíveis. Naquela época, foi preciso trazer um navio com gelo, vindo de Madagascar, para começar a fabricar o alimento aqui. As sorveterias marcavam dia e hora para a degustação, uma vez que, preparado, não havia como conservá-lo.
Mas os tempos mudaram e, atualmente, com a ajuda da tecnologia, o que não falta é inspiração e criatividade para os proprietários das 80 sorveterias cadastradas na Prefeitura de Bauru. Esses estabelecimentos disputam a preferência da clientela dos bairros, que consome cerca de 1,692 milhões de litros por ano.
Um deles é o de seo Valdir Antônio de Oliveira, 47 anos. Consumidor nato de sorvetes, ele decidiu transformar sua paixão em negócio e há três anos e meio abriu uma sorveteria próxima ao residencial Camélias. A variedade de sabores é a tática usada por ele para cativar os clientes e expandir o mercado. No total, são 400 opções catalogadas, sendo que 96 ficam em exposição no balcão.
E para quem acha que capuccino, amarula e kinder ovo são sabores exóticos, Oliveira tem uma novidade. “Sob encomenda, estou produzindo sorvetes de tomate com manjericão, parmesão com azeitona preta e chá verde com uva branca e alecrim. Eles são chamados de gourmet, ideais para pratos requintados da alta gastronomia”, conta.
A variação diet também é uma aposta de Oliveira. “É preciso atender este público, mas com cuidado porque saúde é coisa séria, não é porque o sorvete foi feito com aspartame que ele é diet. É preciso saber se o produto é reconhecido no Ministério da Saúde. Os verdadeiros diets são feitos com sucralose, um derivado natural do açúcar”, explica.
Inovar também é o verbo que comanda a sorveteria de Alessandro Denrique Leandro, 33 anos. Ele é dono do negócio localizado no Jardim América há sete anos e, neste período, criações não faltaram, como a introdução dos sorvetes fritos, assados e quentes na cidade.
“Foi uma forma de manter o movimento durante o período de frio. No começo a aceitação foi baixa, mas ainda assim insisti. Encarei as críticas como forma de melhorar. Este é o sétimo ano que estas variações fazem parte do meu cardápio e são sucesso. Em um domingo chego a vender cerca de 150 unidades do tipo”, recorda.
É pesquisando que Leandro encontra alternativas para alavancar suas vendas. Para ele, independente da estação, é tempo de criar. “Não é porque no calor vende bem que eu vou me acomodar. Estou trazendo uma novidade para este verão: o ‘sorbet’. É um sorvete mais leve, à base de água, que não vai leite. É ótimo para as pessoas que têm alergia à lactose”, conta.
Qualidade
Outro fator que exige atenção por parte dos produtores de sorvete é a qualidade. Grande parte dos esforços são destinados a garantir a proximidade do sabor do alimento com o da fruta. “A qualidade é essencial. O sorvete tem de ser real, se aproximar ao máximo do gosto da fruta que ele deriva”, analisa Leandro.
Uma tradicional sorveteria localizada na Praça das Cerejeiras também aposta suas fichas na qualidade. Existente há 51 anos, é a mais antiga da cidade e teve de se adaptar para se manter atuante. “No começo foi fácil ganhar o público, não tinha concorrência. Com o tempo, novos estabelecimentos abriram, percebi a queda nas vendas e tive de me adequar. A solução foi elevar a qualidade do sorvete, e tem dado certo”, analisa Élio Ferrari, 65 anos, proprietário da sorveteria.
Ferrari trabalha com 40 sabores, sendo que 30 ficam em exposição no balcão. “Os sorvetes têm pedaços de frutas. Muitas vezes chega a formar fila para comprar. Por conta deste sucesso será possível inaugurar um espaço mais amplo e sofisticado em breve”, conta.
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Frutas geladas
Gengibre, gabiroba, pequi e jatobá são alguns dos 47 sabores de picolé que lotam os congeladores da sorveteria de Iliete Vanzella. Ela é sócia de uma franquia especializada em sorvetes com sabor de frutas do cerrado, localizada no Jardim América.
Vanzella conheceu a marca quando era cliente e se apaixonou pelo produto. “Morava em Campo Grande, no Mato Grosso do Sul, quando experimentei o picolé pela primeira vez. Abrir uma franquia foi apenas conseqüência, eu não conseguia chupar outro tipo de sorvete”, lembra.
Ela conta que a primeira a se arriscar foi sua irmã, que abriu uma loja em Bonito (MS). “Como lá é cidade turística, sempre aparecia gente do Interior paulista dizendo que seria bom se tivesse uma franquia por aqui, foi então que decidi abrir em Bauru”, explica.
O estabelecimento de Vanzella está na cidade há cerca de sete meses e já é famoso: chega a vender cerca de 30 mil picolés nos meses de calor. O sucesso, segundo ela, se deve ao fato de ser um alimento saudável, com uma gama de sabores exóticos, que se aproximam muito ao real sabor da fruta.
“A intenção é dar ao cliente a idéia de estar comendo uma fruta gelada, e somente no palito isso é possível. A massa precisa de emulsificantes e gordura para ficar cremosa, o palito não. Já os sabores exóticos são a nossa marca registrada. O legal é que quem conhece a fruta sabe que o sabor é igual”, aponta.
O campeão de vendas é o taperebá, também conhecido no Nordeste como cajá. O segundo lugar fica com o refrescante cagaita, que parece unir o sabor do hortelã com abacaxi e limão. O picolé de cajá-manga ocupa a terceira posição no ranking de vendas e tem, além do sabor, outro diferencial: fica melhor acompanhado de sal.
Mas se engana quem pensa que todas estas inovações são suficientes para garantir as vendas no inverno. “Precisei inventar algumas coisas para comercializar no frio. Sabores exóticos com petit gateau ou calda quente comandaram as vendas neste período”, conta.