10 de julho de 2026
Cultura

Homens vistos por caleidoscópios

Karla Beraldo
| Tempo de leitura: 3 min

Brinquedo comum entre as crianças, o caleidoscópio é um aparelho óptico cheio de pequenos vidros coloridos que, através do reflexo da luz, apresenta, a cada movimento, imagens variadas. É por essa perspectiva, como se tivesse um caleidoscópio diante dos olhos, que as personagens de “Réquiem - Um Estudo de Incômodos” pretendem mostrar o ser humano: nem apenas bom, nem só mal, mas definido por cada “caquinho-homem” que o forma.

O espetáculo, apresentado pelos alunos do curso de teatro da Divisão de Ensino às Artes da Secretaria Municipal de Cultura (SMC), estréia amanhã, no Teatro Municipal Celina Lourdes Alves Neves. A peça terá sessões também nos dias 16 e 17. Todas estão marcadas para as 20h30 e têm entrada gratuita.

Uma história sobre depressão, “Réquiem” foi criada a partir da leitura de textos de Nelson Rodrigues (“Vestido de Noiva” e “Álbum de Família”), Harold Pinter (“Volta ao Lar”), Frederico Garcia Lorca (“Bodas de Sangue”), Eugéne Ionesco (“A Cantora Careca”) e August Strindberg (“A Dança da Morte” - todos sobre família.

A partir da mesma temática - um lar em crise -, o texto do diretor Élio Andreotti narra a história de Alice e Antônio, cuja véspera do casamento é marcada por uma tragédia. É apaixonada por um homem que cometeu suicídio que Alice entra no altar e permanece, mesmo depois de muitos anos de casada. Vêm os filhos, mas a relação do casal continua fria e distante. É um ato de violência de Antônio contra o caçula, aos 10 anos, que será o responsável por abalar de vez todas as estruturas dessa família.

“Depois disso, o pai sai de casa, começa a beber, e o filho entra em uma grande depressão. Mesmo tendo sofrido com o ato do Antônio, ele se sente culpado pela separação dos pais. A partir dos dilemas que todas as famílias enfrentam, o objetivo final é mostrar que o ser humano não é um produto pronto; é acostumar as pessoas a refletirem sobre elas e depois sobre o outro, porque sempre existe uma razão”, comenta o diretor sobre a montagem que levará 42 pessoas ao palco, depois de oito meses de pesquisa.

“As oito personagens se multiplicam em 42 pessoas para mostrar, justamente, toda a ambigüidade e variedade de sentimentos pela qual somos formados. O pai agiu mal não porque odeia a família ou porque não tem caráter. São anos de angústia, que não justificam seus atos, mas que revelam-se em uma razão”, explica.

Para a produção de “Réquiem”, além dos textos de apoio, os alunos assistiram filmes e produziram “diários de bordo”, na tentativa de encontrar pontos comuns entre suas famílias e as apresentadas pelas obras. O espetáculo é o quarto trabalho do diretor desenvolvido a partir da temática “normose”, definida como patologia da normalidade.

“Esse é mais um resultado da pesquisa que fazemos em cima dos estudos de Pierre Weil e Roberto Crema. Para eles, se a nossa sociedade enquanto coletividade for a ruína, o motivo poderá ser a normose e não as catástrofes”, afirma. A primeira peça de título homônimo ao tema foi seguida da montagem “K” e “Deus Ex Machina”, apresentada no ano passado. “A intenção é sempre refletir sobre a nossa condição enquanto seres humanos”, finaliza.

• Serviço

Espetáculo “Réquiem - um estudo de Incômodos” estréia amanhã, às 20h30, no Teatro Municipal (avenida Nações Unidas, 8-9). A entrada é gratuita. Sessões também nos dias 16 e 17. Mais informações pelo telefone (14) 3235-1088.