11 de julho de 2026
Tribuna do Leitor

Bauru: cultura, cidade, cidadania...e o Sportv


| Tempo de leitura: 3 min

Na quinta-feira da semana retrasada - por volta de 23h45 - o Sportv deu um “pau” na cidade de Bauru, e merecemos, sem dúvida nenhuma. A matéria era sobre o Pelé e um texto muito bom sobre a importância do Rei do Futebol no mundo, o maior Atleta do Século XX, não tem qualquer referência dele na cidade em que começou a jogar. Para dizer que não tem, tem: um azulejo azul e branco no Supermercado Tauste anunciando BAC. Que vergonha meus amigos... que vergonha!

“O ar das cidades liberta”. Um ditado alemão de mais de oito séculos, devido à forte relação entre as liberdades e as cidades, lugar onde os homens conseguiram se libertar das formas mais tradicionais de servidão. Há discursos contrários, mas mesmo as controvérsias e os conflitos se manifestam de forma muito mais livre e plena nas cidades.

Pergunto eu: o que queremos de Bauru (não sei se é nossa cidade!)... afinal, a cidade constitui-se como um lugar de cultura, até porque a cultura necessita de liberdade e da diversidade, mas não sabemos nada sobre essa cidade.

Em qualquer cidade do mundo teria, pelo menos, um busto da pessoa mais importante da cidade ou das pessoas e, convenhamos, o maior jogador de futebol do século XX mereceria pelo menos um nome de praça e aqui nada!

Um amigo meu recentemente esteve no museu do Barcelona e falou: “Fiquei arrepiado quando entrei na sala dos troféus do Barcelona e ali estava a camisa e os títulos que o Romário ganhou pelo clube espanhol... e é Romário”... convenhamos, não uma grande referência moral, ética ou um cidadão exemplar!

O problema é que a cidade grande define-se por reunir muitas e diferentes pessoas. Essa diversidade, ao mesmo tempo em que é produtora de liberdade, pois o indivíduo não está preso a um único e hegemônico modo de ser e de pensar, é também fomentadora das mais diferentes manifestações culturais.

O que temos aqui são diferentes pessoas que, infelizmente, não sabem dos irmãos Godoy; não sabem do Fábio Sormani; não sabem do Maringoni; do físico Oscar Sala; do E.C. Noroeste; do GRSA/Itabom, do time de futebol de salão da FIB; não sabem do Edson Celulari; não sabem do Adriano Garib; não sabem do chope melhor do Brasil; não conhecem a escola de ensino médio que é referência na América do Sul, por ser a única que usa um laptop por aluno: o D'Incao; não conhecem Célio Fernandes; não conhecem Amauri Soares;... poderíamos citar mais uma dezena de bauruenses que estão pelo país trabalhando com sucesso.

Eu – particularmente - acho vergonhoso não conhecermos nada da cidade... se a afirmação de que a cidade é o lugar da liberdade, da cidadania e da cultura, deixamos a desejar em tudo... os alemães já diziam “O ar das cidades liberta” e eu, particularmente, acho que o ar aqui sufoca e muito! Aprendi que é por meio da lembrança dos lugares que as nossas experiências se fixam na memória e na nossa sensibilidade. Vou fixar o que, se não existe nada para tanto... que sensibilidade? Começamos a perdê-la!

Pertencer a uma cidade, a um Estado ou a uma nação não é apenas uma condição legal, mas o compartilhar de experiências é necessário que tenhamos memória e preservemos os lugares mais significativos de nossa cidade (será que ainda existe?) como forma de consolidar a relação de identificação e envolvimento dos cidadãos com a cidade.

É necessário e urgente que façamos alguma coisa, pois afinal a falta de memória leva ao caos e... sempre aparece alguma doença! Vamos começar a sanear, por favor! Fiquei envergonhado da reportagem do Sportv.

Paulo Neves - professor de história do Brasil, atualidades e cursos livre de teatro