Simples, caprichosa e muito comunicativa. Essas são algumas das muitas qualidades de Thereza Bortone Corrêa, 90 anos, conhecida em Bauru pela vida dedica à música e aos grupos de orfeões (também conhecidos como corais) dos Colégios Guedes de Azevedo e São José, na qual foi regente. Receptiva, Therezinha, como era carinhosamente chamada pelos alunos, abriu as portas de sua casa e contou um pouco de sua história, suas paixões e na despedida, presenteou a equipe de reportagem com uma apresentação “particular” de piano.
Nascida na província de Udine, Itália, ela veio ao Brasil com 3 meses de idade, trazida pelos pais: o brasileiro Armando Dias Bortone, que foi à Europa lutar na Primeira Guerra Mundial, e a italiana Giustina Venchiarutti, que apesar de ser formada em medicina na terra natal, não conseguiu legalizar o diploma no Brasil, mas com a qualificação legal de enfermeira obstetra atuou como parteira.
“Papai era italiano, mas meu avô veio para cá e conheceu minha avó. Casou-se com ela, voltou para a Itália, mas deixou papai aqui para estudar. Ele retornou à Europa aos 17 anos e se inscreveu como voluntário na Primeira Guerra Mundial. No final da guerra conheceu mamãe e se casaram”, relembra.
Apesar do registro italiano, Therezinha também foi registrada no País quando chegou. Nos primeiros meses, a família morou em Santa Cruz das Palmeiras (SP). “Mas mamãe, que era muito positiva, disse que não ficaria na cidade porque era pequena e eles não conseguiram fazer carreira lá. Ela que escolheu vir para Bauru”, conta.
A paixão pela música teve influência da mãe Giustina, que tocou violino por muitos anos e sonhava em ser musicista. “Mamãe estudava muito violino, mas depois largou e se formou em obstetrícia. Meu avô não a deixou ser musicista. Ele dizia que ela precisava fazer uma carreira na qual poderia ganhar a vida, e para ele não se ganhava a vida com música”.
Therezinha começou estudar piano aos 7 anos. A irmã, um ano mais nova, também se formou pelo curso normal e era musicista. “Certamente a minha irmã era a musicista da família. Mas, é engraçado. Ela seguiu carreira de professora primária e eu fui me dedicar à música”, revela.
Em 1941, após retornar de São Paulo com o marido, com quem se casou em 1940, estava desempregada. Foi aí que resolveu pedir emprego na secretaria do Colégio Guedes de Azevedo. “Como eu estudei lá, o diretor na época falou que eu não ia trabalhar na secretaria, mas que ia ser professora de música. E mandou eu começar na segunda-feira”.
Em 1946, no ano do Cinqüentenário de Bauru, o prefeito da época Ernesto Monte, pediu para que as instituições de ensino da cidade preparassem uma apresentação musical para a comemoração. “Tive que formar um orfeão correndo e consegui, ele tinha 120 vozes de meninos e meninas. Também fui chamada para lecionar no Colégio São José e formei um orfeão lá”, diz. “Na primeira apresentação, nem roupa eu tinha. Minha irmã me mandou uma”, acrescenta.
A apresentação foi um sucesso. Prova disso foi o início da tradicional homenagem a Santa Cecília, padroeira da música. No mesmo ano, no dia 22 de novembro, dia da santa, o orfeão do Colégio Guedes de Azevedo se apresentou pela primeira vez no antigo Teatro São Paulo, na rua 1º de Agosto.
As fotos de Therezinha, todas legendadas e guardadas com carinho em um álbum, mostram o grande público das apresentações que se tornaram tradicionais nas décadas de 1940 e 1950. O público ficava na calçada para escutar a apresentação. “Eu gostava de todos os cantores arrumadinhos. Os uniformes eram branco e azul marinho e os sapatos tinham que ser todos iguais. Eu era enjoada para isso”, relembra a professora revendo as fotos das antigas apresentações.
Therezinha ficou à frente do orfeão do Colégio Guedes de Azevedo por 27 anos, até que um problema no braço a afastou de uma das suas maiores paixões. “Essas fotos, esses papéis, essas recordações são minha vida, tenho muita saudade”, afirma mostrando seus arquivos.
Aos 90 anos, ela lembra do nome de grande parte dos alunos e durante a entrevista, cantarolou algumas das músicas que faziam parte das apresentações. Além de atuar como educadora nos dois colégios, Therezinha foi professora do Conservatório Bauruense de Música.
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Família
Therezinha casou aos 21 anos. Mãe de Maria Luiza Corrêa Domingues, tem três netos e dois bisnetos. Apesar da dupla cidadania e de ter nascido na Itália, ela não conhece nenhum parente por parte da mãe. “A família da mamãe ficou lá. Conheço apenas uma prima que veio para cá com o meu primo. Nunca fui para a Itália”, conta.
Ela ensinou a filha a tocar piano. Apesar de resistir no começo, Therezinha presenteou a reportagem do JC com uma apresentação particular no piano em sua sala. Sem partitura, com as notas musicais na memória, tocou diversas músicas e finalizou com o Hino Nacional. Modesta, após emocionar a pequena platéia, disse não saber mais tocar piano. “Estou enferrujada, não sei mais tocar piano”, finaliza, sorridente.