08 de julho de 2026
Geral

Noel mais antigo do País é bauruense

Rodrigo Ferrari
| Tempo de leitura: 5 min

Considerado o Papai Noel mais antigo do País em tempo de atividade (está no mercado há mais de quatro décadas), Sílvio Ribeiro, 60 anos, é uma verdadeira celebridade natalina. No final do ano, a agenda dele fica lotada. Dia sim, dia não, é possível se deparar com o ator em algum programa de TV em rede nacional. Ele já foi fotografado ao lado de sumidades da telinha como os irmãos Sandy Leah e Junior Lima - na época em que ainda cantavam em dupla -, a estrela global Ana Maria Braga e o “príncipe da Jovem Guarda”, hoje apresentador da Gazeta Ronnie Von.

Sílvio, que é membro da International Order of Santas - entidade com sede nos Estados Unidos, que congrega os bons velhinhos profissionais do mundo inteiro -, também comanda o mais tradicional curso de formação de papais noéis do Brasil.

Nas aulas, os candidatos a Papai Noel aprendem desde como fazer o característico “ho, ho, ho” e montar o figurino do personagem, até como lidar com crianças ou portar-se diante de assuntos polêmicos.

Esse currículo invejável fez com que Sílvio se tornasse uma verdadeira referência, quando o assunto é Natal. Atualmente ele é considerado, nos meios especializados, o Papai Noel oficial do Estado de São Paulo.

O que muita gente não sabe é que, ao contrário do que reza a lenda, o Papai Noel mais famoso do País não veio de algum canto gelado do planeta como a Rússia, a Finlândia ou o Pólo Norte. O “Bom Velhinho” Sílvio nasceu numa cidade onde o clima é bem quente, sobretudo nesta época do ano.

Papai Sílvio Noel é bauruense nato. Vive na Capital há décadas, mas guarda muitas lembranças de sua infância, na Vila Cardia. “Havia uma cratera enorme perto de minha casa”, recorda-se.

Seu pai era gerente industrial da Anderson Clayton, antiga empresa do setor alimentício cuja sede, em Bauru, estava instalada nas imediações de onde, mais tarde, seria construído o Condomínio Residencial Vila Inglesa. A casa onde a família morava ficava no terreno da própria fábrica.

“Tinha um gramado enorme, piscina. Havia, ainda, um poço artesiano na entrada da fábrica. Lembro-me que se formavam filas enormes de pessoas que iam buscar água”, conta Sílvio, que, por parte de mãe, é parente distante do comandante João Ribeiro de Barros, jauense pioneiro na travessia aérea sem escalas do Atlântico Sul.

Foi numa loja, em Bauru, que Sílvio teve o primeiro contato com um “Bom Velhinho” de “carne e osso”, experiência, aliás, que hoje ele define como “decepcionante”. “Cercado por crianças, lá estava ele, distribuindo pirulitos. Pedi ao meu pai que me pegasse no colo para que eu o visse melhor. Mas, ao aproximar-me, percebi que o Papai Noel tinha grandes seios, e seus cabelos longos escapavam do capuz. Surpreendido e desapontado, disse ao meu pai: ‘Ele não é Papai Noel, não! É uma mulher!’ Essa imagem ficou gravada até hoje na minha cabeça”, relata.

Em 1960, a família mudou-se para Marília, onde o rapaz passou a manifestar seus primeiros dotes artísticos. Chegou a ser cantor em uma rádio AM de lá. Em 1967, Sílvio resolveu mudar-se para São Paulo. Foi quando teve a oportunidade de acertar as contas com o personagem de uma vez por todas.

Sílvio trabalhava numa loja de departamentos na avenida Celso Garcia, no setor de recepção de mercadorias. Depois de seu expediente, ele costumava vestir-se de Bom Velhinho e circular pelo estabelecimento. Jovem e com um travesseiro improvisado na barriga, o rapaz provocava risos por todos os lugares onde passava. Os colegas o chamavam de neto do Papai Noel. “Foi nessa época que nasceu o fascínio pelo personagem”, explica.

Mais tarde, Sílvio se formaria ator profissional pela Escola de Artes Dramáticas (EAD) da Universidade de São Paulo (USP). Antes disso, trabalhou com informática em diversas empresas brasileiras. Chegou a fazer estágio de um ano na National Cash Register Center, em Dayton City, no Estado norte-americano de Ohio.

À noite, trabalhava como Papai Noel em uma grande loja chamada Central Magazine. Na ocasião, acabou sendo convidado por um estúdio para uma ponta em um filme, vestido como o personagem. De volta ao Brasil, seguiu no ramo da informática, até que, em meados do anos 70, viu sua veia artística falar mais alto.

Desde então, encarnar o Bom Velhinho tornou-se o ganha-pão de Sílvio. Em seu curso de capacitação de Papai Noel (que conta com apostila e tudo mais), ele aliou as técnicas aprendidas na EAD com a experiência adquirida no tempo em que atuou como voluntário do Centro de Valorização da Vida (CVV) Samaritanos.

Ao longo desses anos, ele retornou a Bauru em algumas ocasiões - entre elas, para os velórios do pai e da mãe.

“Eles gostavam muito da cidade. Queriam ser enterrados aí quando morressem”, afirma. Os dois estão sepultados no Cemitério da Saudade, na Vila Cardia, a algumas quadras de distância do local onde ficava a antiga casa da família.

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Segredo é falar pouco e não prometer

Com mais de quatro décadas de experiência no ramo, o ator Sílvio Ribeiro explica que o segredo para se criar um Papai Noel convincente para as crianças é falar pouco e não fazer promessas impossíveis de serem cumpridas. “Se falar muito, fatalmente será identificado”, afirma. Sobre a questão das promessas, ele diz que um bom Papai Noel precisa compreender o psicológico dos pequenos. “Você nunca deve perguntar ‘O que você quer ganhar de Natal?’ mas sim ‘Qual será seu presente este ano?’. É preciso ser realista, mesmo que a criança diga que quer algo que seus pais não têm condições de comprar”, diz.

Nessas situações, Sílvio costuma dizer que vai torcer bastante para que a criança ganhe o presente desejado. “Mesmo que não seja agora, algum dia ela realizará seu sonho”, afirma. Se pudesse, ele gostaria de fazer com que cada menino e menina do mundo recebesse aquilo que sempre desejou.

“Mas, infelizmente, isso não ocorre”, lamenta. Na opinião dele, os meios de comunicação, principalmente a TV, atuam como fábricas de ilusão que induzem as crianças ao sentimento desenfreado de consumo. “Às vezes, tenho pena das crianças, pois sei que elas nunca terão acesso a toda essa parafernália eletrônica que a mídia tenta lhes vender”, diz.