Muito interessantes e importantes para nossa reflexão e discussão saudável os artigos e cartas publicadas pelo Jornal da Cidade, em torno do assunto corrupção, que estão semanalmente na mídia e que faço questão de guardá-los. Sua contribuição tem sido valiosa para a compreensão desse estigma que assombra a sociedade. Infelizmente, ela não só a nossa e nos coloca diante do paradoxo corrupção X impunidade.
Em artigo anterior, destaquei a contribuição do Padre Beto, em que aponta a causa (a seu ver) desses dois flagelos que se alastram pelos meandros ocultos da sociedade, verdadeiros caramujos africanos que vicejam sempre longe da transparente luz solar. Nesta oportunidade, quero destacar a contribuição de outro colaborador assíduo do Jornal da Cidade, na investigação desse tema, o professor de Ética e doutor em Comunicação pela Universidade de Navarra, Carlos Alberto Di Franco.
Para o conhecido reverendo, conforme a primeira carta, a corrupção reside na existência do que denomina “consciência alienada, aquela que não nos permite pensar, ser e agir de forma autêntica.”. “A pessoa que possui uma consciência alienada é aquela que se sente mais forte quando pode submeter-se a uma autoridade e ser parte dela, desde que esta seja exagerada, deificada”. Quer dizer, a pessoa deixa-se influenciar por outros, que passam por autoridades ou pessoas conceituadas, em virtude da posição que ocupam, sem o serem na verdade.
Por consequência, a pessoa acredita e “ não reflete, não pensa” e por isso nem avalia o que essa autoridade solicita ou ordena, isto é,” não age criticamente”. E assim passa a aplaudir e até a colaborar com um possível corruptor que apresenta duas personalidades. “A consciência alienada faz com que uma pessoa tenha determinado discurso, mas faz o contrário desse discurso”. E essa afirmação é válida para os mandantes como para seus cúmplices ou colaboradores, todos alienados.
Para o doutor Carlos Alberto Di Franco, em seu artigo de 12 de janeiro deste ano, há duas causas para o aumento da corrupção na sociedade: a certeza da impunidade e o relativismo ético. “O criminoso sabe que a probabilidade de um longo período de reclusão só existe na letra morta da lei. O nosso drama é a falta de eficácia na aplicação da lei”. “O teatro das CPIs, a reeleição de inúmeros corruptos, a novela inacabada dos escândalos que se sucedem e tantas outras bofetadas na cidadania compõem o ambiente perfeito para a institucionalização do crime. A fibra moral da sociedade vai-se desfazendo numa velocidade assustadora”.
A outra causa mencionada é o relativismo ético e a ausência de limites, que estão na raiz da patologia social..." ...são causas ideológicas mais profundas para o eclipse da ética e para a explosão das ações criminosas". "O relativismo está, de fato, na origem do enfraquecimento da democracia e nas agressões cada vez mais brutais aos direitos humanos".
“Na verdade, as bases racionais da modernidade foram minadas pelo relativismo. Rompeu-se, dramaticamente, o nexo de união entre vontade e razão. Dessa forma, as pessoas passaram a confundir gosto com vontade. Por isso, o gosto, o capricho, o prazer (incluindo as suas manifestações mórbidas e doentias) passaram a impor sua força cega. Um dos traços comportamentais que marcam a decomposição ética da sociedade é, efetivamente, o desaparecimento da noção da existência de relação entre causa e efeito. A responsabilidade, conseqüência direta e lógica dos atos humanos, simplesmente desapareceu. O fim justifica os meios. Sempre. Trata-se da conseqüência lógica do raciocínio construído de costas para a verdade e para a ética.” Como consequência, a verdade mesma deixou de interessar. Tudo se torna relativo. Alguém cometeu um crime? Será mesmo um crime? Depende de quem cometeu. É amigo da família ou companheiro? Ele tem prestígio ou há condições de barrar a investigação? Interessa a alguém punir ou não?A ética ou a verdade é relativa, dependendo de quem cometeu o deslize. Isto é o relativismo que impera hoje, minando os alicerces morais da sociedade. E quem embarcar nessa ideologia, moralmente podre e de baixo nível, não tem do que se orgulhar perante a história das instituições da cidade, a história de sua própria família ou a sua própria história.
Às vezes uma pessoa pode até ter uma tradição familiar moralmente irrepreensível, mas deixa-se influenciar por um discurso de um hábil e vivaldino corrupto, através de seus apelos emocionais, que evocam amizade familiar, companheirismo. Por conseqüência, baixando o escudo da reflexão, deixa de agir criticamente, esquece princípios, juramentos, responsabilidades assumidas em funções ou cargos, e o que acontece? A corrupção vence mais uma etapa para continuar impondo-se altaneira e o cidadão ou cidadã, vencido, humilhado, diante da história e, pior, de sua própria história, não encontra mais condições de jactar-se, diante de quem conhece os fatos, como um baluarte da herança familiar de incorruptibilidade, entrando, assim, para a categoria dos seres fracos, sem condições de reverter o dano moral que causou para si próprio. E às vezes para receber, na frente, um tapinha nas costas de agradecimento e, por trás, à boca pequena, um belo epíteto de panaca ou idiota.
Caleb Patrício de Barros - professor - membro da A.P.I. e da ABLetras