08 de julho de 2026
Geral

Satélites alcançam além da imaginação

Luiz Beltramin
| Tempo de leitura: 3 min

Se você, mesmo ao caminhar sozinho pela rua, em algum momento, teve a leve desconfiança ou sensação de ser observado, de algum modo, mude de opinião. Esteja certo disso. Com a visão cada vez mais aguçada, os sistemas de monitoramento e geoprocessamento via satélite vasculham com riqueza de detalhes a superfície terrestre, e, inevitavelmente, acompanham nossos passos dia após dia.

Dispositivos para uso meteorológico, telecomunicações, controle de desmatamento e geoprocessamento, seja militar ou civil, como o Google Maps (leia ao lado), além dos satélites a serviço do cada vez mais popularizado GPS, ou Global Positioning System, em Português, Sistema de Posicionamento Global, se aglomeram ao redor do planeta com as lentes voltadas para as nossas cabeças, direta ou indiretamente.

Apenas para o funcionamento do sistema de navegação pessoal GPS, pelo qual o usuário pode obter a localização precisa de qualquer ponto do globo e respectiva forma de chegar até a localidade apontada, é necessária uma constelação de 24 satélites, como explica o professor Sérgio Alves, titular do Instituto de Matemática e Estatística (IME) da Universidade de São Paulo (USC).

Conforme o acadêmico, em artigo científico publicado na Internet e pela “Revista do Professor de Matemática”, em 2006, os satélites interligados orbitam a uma altura de 20 mil quilômetros acima do nível do mar e asseguram precisão nas coordenadas apresentadas nos receptores por meio da troca de informações com estações de monitoramento terrestres.

“Os satélites percorrem uma órbita completa a cada 12 horas e cada um tem 28º de visualização sobre a Terra. Isso assegura que todo ponto da superfície terrestre, em qualquer instante, esteja visualizado por pelo menos quatro satélites”, ensina Alves, ainda no artigo de sua autoria.

Toda essa cobertura dá asas a imaginação e pode até alimentar sentimento, se não chega a ser paranóico, ao menos de incômodo com um suposto monitoramento de nosso dia-a-dia aqui embaixo. A sensação de que estamos sendo vigiados é retratada no cinema, que, principalmente nos filmes norte-americanos, evidencia a desconfiança da temida invasão de privacidade que vem do céu.

Entre as obras cinematográficas que intrigam o público a no mínimo pensar na hipótese de vigilância, “Inimigo do Estado” (Enemy of the State), de 1998, conta a saga de um advogado, vivido por Will Smith, que é perseguido pelo governo ianque porque possui, involuntariamente, a cópia de uma fita que registra o assassinato de um congressista que sabia demais, e era contra, o monitoramento da vida de cidadãos via-satélite.

Paranóia hollywoodiana a parte, nem tudo é ficção quando se trata da equação informação x espaço. “Hoje um satélite de uso comercial permite a observação de objetos com dimensão em até 50 centímetros”, detalha o professor doutor Carlos Frederico de Angelis, chefe da divisão de satélites do Centro de Previsão de Tempo e Estudos Climáticos (CPTec) do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), em São José dos Campos, que vai além : “imagine o que podem os satélites militares”, instiga.

A questão da privacidade, julga o professor, é polêmica, já que não existe legislação específica que proteja o cidadão contra eventuais “espiadinhas” lá de cima: “os países tentam acordos para a utilização pacífica do espaço, que é livre, algo que não tem como controlar”, enfatiza. “O espaço não tem dono”, acentua.