Dançar a música sem ouvi-la, apenas observando e sentindo a pressão provocada pelas ondas sonoras. Parece uma proposta surrealista, mas é a realidade de 11 alunos, entre 13 e 22 anos, do projeto “Movimento” desenvolvido pelo Núcleo Integrado de Reabilitação e Habilitação (Nirh) do Centrinho, da Universidade de São Paulo (USP) câmpus Bauru. Há quatro anos, o street dance (dança de rua) conquistou meninos e meninas com surdez profunda, moradores da cidade e da região. Absortos no silêncio, eles ganham auto-estima e reconhecimento num espetáculo em que não há coadjuvantes.
Na noite de ontem, o grupo ampliou horizontes e quebrou a placa de silêncio que os separa de toda a sociedade em mais uma apresentação. Desta vez, o palco do espetáculo foi a Associação Luso-Brasileira. Apesar de não ouvirem, o ritmo que vem da força das ruas contagiou pernas, braços, ombros e cabeças, induzindo jovens com deficiência auditiva a movimentos sincronizados e muito expressivos por meio do street dance.
Maria José Benjamin Buffa, coordenadora de projetos de reabilitação de surdez do Centrinho, conta que a idéia do desenvolvimento de um projeto ligado a música partiu dos próprios pacientes do Nirh. “Percebemos que eles têm um grande interesse pela dança, que gostam de dançar e muitas vezes montam as coreografias, imitam o que vêem na televisão”, revela.
A partir deste percepção, a professora Maria Eugênia Zeca, da Academia de Dança Sigma, aceitou o desafio de desenvolver o trabalho de dança com os pacientes de forma voluntária. Os resultados foram animadores e a adesão tão grande que o projeto completou quatro anos em 2009. “Uma vez por semana, ela ensaia com os nossos dançarinos”, explica Maria José.
A fonoaudióloga do Nirh, Giani Maria Cabrini Ernestino, conta que devido à privação sensorial, muitas vezes os surdos não são estimulados a conhecer a dança e o universo da música. Ela afirma que esse pensamento faz parte de muitos centros de reabilitação para surdos. Mas, para alguns surdos, o som é percebido por meio de vibrações acústicas e, em geral, a coreografia é memorizada.
“Além disso, eles contam com a ajuda de um ouvinte para acompanhar o início de cada intervalo de tempo das músicas”, conta. “A parte mais importante deste trabalho é que o interesse partiu deles. No ano passado, na festa que fizemos no Dia Nacional do Surdo, perguntamos o que eles queriam na comemoração. Para a nossa surpresa pediram um DJ”, acrescenta.
Música e ritmo
De acordo com Giani, a música é algo muito presente na vida deles, pois vivem com pais, irmãos e amigos de escola que são ouvintes. “Sem contar que hoje a televisão é muito apelativa em relação a música”, afirma.
“Eles tinham um grande desejo de estar dançando e a primeira dança foi mais copiada, eles imitavam a Maria Eugênia e outras alunas da academia. Mais tarde, a professora foi trabalhando os tempos da música e os próprios alunos criaram parte da coreografia”, complementa.
A fonoaudióloga conta que esses alunos conseguem discriminar uma música de rock de uma lenta por meio da vibração e até mesmo por pouco vestígio auditivo. No caso o street dance foi mais fácil de trabalhar por ser uma dança forte, de repetição, com marcos sistematizados e não depender muito de molejo de quadril. “Apesar que muitos deles têm esse requebrado. Existem ouvintes que dançam que têm menos gingado que nossos alunos”.
Durante o trabalho, uma caixa de som é colocada no tablado, para que o grupo sinta as vibrações. Além disso, o Nirh possui uma sala especial, sem revestimento, que vibra bastante. Algumas atividades, com a da festa com o DJ, foram realizadas neste ambiente. Entre os ídolos deste grupo são destacados Maycon Jackson e Madona.
“Eles precisam da Maria Eugênia apenas para marcar o tempo, senão podem dançar um pouco mais rápido ou mais lento, sem acompanhar a música. Até porque, a dança eles sabem do início ao fim, muitos dos passos foram montados por eles”, conta Giane, entusiasmada.
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Auto-estima
Entre os resultados do trabalho de dança, a coordenadora de projetos de reabilitação de surdez do Centrinho, Maria José Benjamin Buffa, destaca a elevação da auto-estima e a integração com outras pessoas.
“Eles se sentem capazes de dançar e gostam muito de se apresentar, de conhecer novas pessoas. Quando encontram outros grupos de dança, os ouvintes querem aprender a libras para conversar com eles e essa é a verdadeira inclusão”, revela. “Existe um reconhecimento de que apesar da surdez, são capazes, têm potencial e devem ser respeitados”, finaliza.