09 de julho de 2026
Articulistas

Negócios do clima

Antonio Delfim Netto
| Tempo de leitura: 3 min

As seguidas alterações de pauta, a posição duvidosa dos líderes das potências mais poluidoras do Planeta, a “saia justa” em que foram metidos Obama e Hu Jintao pelo presidente Lula (que praticamente os constrangeu a estar presentes em Copenhague), todos esses excitantes episódios favoreciam as apostas no fracasso da conferência mundial do clima.

Não propriamente fracasso de público, pois eram esperados na Dinamarca nesta primeira semana de dezembro cerca 20 mil cientistas, climatologistas e ambientalistas (além de uma centena de Chefes de Estado), mas falência de acordos por dois motivos principais: 1) as reuniões preparatórias promovidas pela ONU não produziram nada próximo de uma ameaça de consenso em torno de uma só das questões fundamentais como, por exemplo, se os países desenvolvidos estariam motivados a financiar as transformações tecnológicas nas estruturas de produção de energia dos países pobres e emergentes.

2) Aumentaram muito as dúvidas e a desconfianças envolvendo a qualidade dos diagnósticos “científicos” sobre as causas naturais ou humanas responsáveis pelo efeito-estufa entre ambientalistas , e climatologistas depois da divulgação dos e.mails com indícios de “truques” estatísticos utilizados por pesquisadores da conceituada universidade britânica de East Anglia para exagerar a influência da atividade humana nas mudanças climáticas.

As discussões sobre os problemas do clima não são propriamente uma novidade. Os efeitos das emissões de gases com efeito estufa preocupavam cientistas já nas primeiras décadas da revolução industrial. Na Europa, em 1824 o matemático e físico francês Jean Baptiste Fourier procurou chamar a atenção para as prováveis conseqüências do crescimento das emissões de CO2 sobre o comportamento do clima. No século passado, nos anos 60, o economista Kenneth Boulding alertou os governos e os produtores privados para os efeitos do uso acelerado e descuidado dos recursos naturais e as possíveis conseqüências da emissão de gases sobre o futuro da atividade humana na face da terra.

Atualmente, em meio às controvérsias, aumentou razoavelmente a compreensão que é preciso levar em conta, como entendimento prévio à redação dos acordos, a relação entre os custos do combate à poluição e a redução do ritmo do crescimento econômico. A demora em entender isso tem sido um grande obstáculo à conclusão de quaisquer entendimentos, por mais que se esforcem os milhares de cientistas, ecologistas, ambientalistas e os 110 Chefes de Estado que estão em Copenhague.

Basicamente o que se precisa definir são os volumes de recursos que podem ser destinados para custear a redução das emissões do CO2, considerando que atingir as metas exigirá as seguintes opções: 1) ou cortar o crescimento do PIB, como os países foram forçados a fazer em 2009, por conta da crise bancária, ou 2) reduzir a relação CO2/PIB pela modificação das estruturas produtivas com o uso de combustíveis renováveis, ou 3) desenvolver novas tecnologias economizadoras de energia em setores vitais da economia, como o de cimento, aço, e transportes, ou finalmente 4) por uma combinação das três opções anteriores.

Quaisquer dessas combinações implicam em custos sociais e econômicos enormes, impondo riscos consideráveis às lideranças que se dispõem a implementá-las, o que explica em grande parte porque as decisões são sempre deixadas para as próximas reuniões do clima...

O autor, Antonio Delfim Netto, é professor emérito da FEA-USP e ex-ministro da Fazenda, da Agricultura e do Planejamento - e-mail: contatodelfimnetto@terra.com.br