08 de julho de 2026
Geral

Mania de doença exige tratamento

Luiz Beltramin
| Tempo de leitura: 3 min

Não é rara a existência daquela tia que, sempre quando chega na casa da gente, nos faz preparar os ouvidos para um caminhão de lamentações. É só sentar na poltrona que os relatos de sofrimento sem fim começam: “Ai, tenho muita falta de ar, não dormi à noite porque estava com isso e aquilo e com uma tremenda dor assim e assado”.

Se você identificou algum familiar com esses traços - ou observa essas características em si mesmo -, fique atento. O caso está longe de ser hilário ou tratado simplesmente como “mania de doença e ir ao médico”.

Listado no Código Internacional de Doenças Mentais, o transtorno caracterizado pela crença persistente da presença de ao menos uma doença grave, conhecido também como hipocondria, requer tratamento específico, pois, apesar de fisicamente o paciente estar bem, o sofrimento é igual ou até maior do que os chamados “doentes de verdade”, atesta profissional especializada no atendimento psicológico hospitalar.

Além da busca - e conseqüente localização psicológica - involuntária por um problema de saúde, pessoas que sofrem do transtorno repetidamente buscam auxílio médico. Muitas vezes atendidos, diagnosticados e medicados, portadores da síndrome retornam em busca de atendimento na mesma especialidade, para ouvir não apenas a segunda, mas a terceira e quarta opiniões, daí por diante.

Mesmo com essa procura incessante pela atenção e, principalmente, ouvidos dos médicos ou demais profissionais da área de saúde, os “vidrados” em clínicas, hospitais e farmácias devem ser levados, e muito, a sério, adverte a psicóloga Bruna Burneiko Alves Meira, do Hospital Estadual de Bauru.

Especializada em psicologia da saúde e mestre em subjetividade e saúde coletiva, Bruna adverte para a complexidade do problema, que precisa ser encarado como patologia e requer encaminhamento pisquiátrico e psicológico. “Às vezes, as pessoas têm a idéia de que se trata de carência quando na verdade estão diante de alguém com um transtorno psicológico”, afirma.

A hipocondria, acentua, está enquadrada entre os chamados transtornos somatoformes, ou seja, aqueles que, de acordo com a psicóloga, são marcados por repetidas apresentações de sintomas físicos. No caso, o problema é caracterizado pela busca de problemas de saúde, excesso de remédios e procura exagerada por atendimento médico.

Entretanto, adverte Bruna, é necessária muita cautela para não rotular tanto aqueles que apenas vão a farmácia atrás de novidades, principalmente suplementos ou vitaminas, quanto os casos em que a pessoa, de fato, necessita de medicamentos e mesmo sem ter os problemas físicos diagnosticados os sente da mesma forma. “Por ter tanta convicção de que apresenta os sintomas, o paciente com o transtorno sofre como se realmente os apresentasse”, detalha a psicóloga.

Outros traços presentes em quem apresenta o transtorno, enumera a especialista, incluem a depressão, o isolamento social, ansiedade e até mesmo o prevalecimento visual dos males físicos queixados pelo paciente. “Mesmos com os sintomas não comprovados, para ele aquela dor é real”, reitera a psicóloga, esclarecendo ainda que a hipocondria surge, na maioria das vezes, após a metade da vida e, conforme o Código Internacional de Doenças (CID), é mais comum em mulheres.

Entretanto, ressalva, crianças e adolescentes também podem apresentar o distúrbio, decorrentes, em muitos casos, de traumas anteriores. “É fundamental a sensibilidade do especialista, para, dependo do caso, encaminhar o paciente a atendimento psiquiátrico e terapia com psicólogo”, orienta.