Entrevista da semana: Karina Valentim: vida dedicada à dança do ventreKarina ValentinA trajetória da bailarina e professora Karina Valentin Mantovani nos faz crer que cada pessoa nasce com um dom, ou até mesmo destino. Hoje, quem olha para ela – uma mulher jovem, bonita, simpática, decidida e realizada na dança - não imagina que foi uma criança gordinha, tímida e sem afinidade com as aulas de educação física.
Filha de Izabel Lopes Neves e Gervasio Valentin, Karina nasceu em Bauru, no dia 28 de maio de 1978. Descobriu a paixão pela dança ainda na infância. A dança do ventre, sua verdadeira paixão, entrou na sua vida há 13 anos. Formada no curso técnico de processamento de dados e graduada em psicologia, a bailarina há quatro anos decidiu largar o emprego formal no departamento de Recursos Humanos em uma editora da cidade para se aventurar e se dedicar exclusivamente à dança.
Proprietária da Ká Valentin – Escola de Dança do Ventre, Karina tem entre suas principais premiações o terceiro lugar em um Concurso Internacional de Dança do Ventre Clássica, no Cairo (Egito), quando concorreu com mais de 200 bailarinas de diferentes partes do mundo. Mas o principal mérito da dança do ventre, diz, é a integração com a comunidade árabe de Bauru e região, que valoriza muito o trabalho das bailarinas da escola. “Há quatro anos nosso grupo se apresenta na principal festa da comunidade árabe de Bauru, a da independência do Líbano”, conta.
Casada com o vereador Fernando Mantovani, aos 31 anos ela vive uma experiência única em sua vida: ser mãe. A pequena Manuela nasceu no dia 28 outubro deste ano e é a primeira filha do casal. Referência na dança do ventre não apenas no Brasil, Karina recebeu a reportagem do JC e contou um pouco de sua história profissional e pessoal. Comunicativa, ela abriu o coração para falar da família.
Jornal da Cidade – Como a dança surgiu na sua vida?
Karina – A dança está presente na minha vida desde a infância. Fui uma criança muito tímida, gordinha e não tinha e, ainda não tenho, habilidade com nenhum esporte. Na aula de educação física, quando a professora dava alguma brincadeira com bola, ela ia para um lado e eu para outro. Me realizava quando tinha as coreografias e os festivais da escola. A dança sempre me ajudou neste sentido. Ajudou a levantar minha auto-estima. É o que eu gosto de fazer desde criança. Ainda criança fiquei um tempo sem dançar e retornei com 13 anos às aulas de jazz e ballet. Quando eu entrei no colegial, com aquela rebeldia da adolescência, parei de fazer tudo. Mas ao ingressar na faculdade retomei a dança do ventre. Essa foi a dança que mais me encantou, que realmente é minha paixão, tanto é que me dedico a ela há 13 anos e não pretendo abandonar nunca.
Jornal da Cidade – Por que retomou ao mundo da dança com a dança do ventre?
Karina – O universo da dança do ventre me encanta, tem toda a simbologia especificamente para a mulher. Além disso, a história dos povos egípcios e árabes tem algo muito mágico, às vezes até meio sonhador. Claro que depois que você começa a entender a realidade destes povos vê que não é tão mágico em alguns aspectos, mas, no geral, a dança do ventre surgiu num meio que valorizava muito o universo feminino e isso me encantou desde o princípio.
Jornal da Cidade – Quando descobriu que gostava de dançar, qual foi o seu primeiro passo?
Karina – Procurei uma escola. A minha primeira professora foi a Renata, que era de Lençóis Paulista e vinha para Bauru dar aulas. Fiquei durante um ano com ela, mas a Renata parou por problema de saúde. Na seqüência, comecei a fazer aula no Teatro Municipal com a professora Graciele, com quem fiquei dois anos. Depois tive como mestra a professora Nuriá, fiquei durante cinco anos na escola dela. Fiz parte da equipe, fui estagiária, foi um período bacana. Depois dessa época abri minha escola, a Ká Valentin – Escola de Dança do Ventre. A partir daí passei a fazer aula em São Paulo com Lulu Sabonge, minha grande referência no Brasil. Fiz o curso para me tornar professora com ela. Além disso, tive aula com professores internacionais.
Jornal da Cidade – Quando decidiu que era a hora de ter sua própria escola de dança?
Karina – A escola vai fazer quatro anos, mas antes de abrir a escola já dava aula particular há bastante tempo. Tive vários momentos de reviravolta profissional. Primeiro me formei em processamento de dados no Colégio Técnico. Hoje, eu olho para trás e vejo que não tem absolutamente nada a ver comigo. Quando terminei o colégio fui para a faculdade de psicologia, atuei na área durante muitos anos. Quando trabalhava no departamento de recursos humanos da editora Alto Astral surgiu a vontade de ter a escola, pois o volume de alunos foi aumentando e chegou um momento que eu percebi que tinha que me dedicar exclusivamente a uma coisa só. Não estava mais dando conta das duas profissões. Tomei coragem e decidi sair da editora para abrir a escola. Desde então me dedico a ela. Atualmente, somos em quatro professoras na escola que, além da dança do ventre, oferece aulas de balé, jazz e dança espanhola. O número de alunos oscila, mas temos cerca de 100 alunas de todas as idades, desde o infanto-juvenil até a terceira idade.
Jornal da Cidade – A dança tem o mesmo significado para todas as idades?
Karina – Não existe limite de idade para dançar. O cuidado que temos é com as crianças. Abordamos a dança de uma maneira lúdica, já que no Ocidente a dança do ventre tem um apelo mais sensual. Não precisa ser assim a todo momento, ela pode ser algo mais de brincadeira, mais de charme, voltado ao universo de uma menina que está virando mulher. Na escola abordamos desta forma.
Jornal da Cidade – Você tem alguma experiência fora do Brasil?
Karina – Minha primeira experiência internacional - e única até agora -, foi no Egito. Fui em 2008 para o Festival Internacional no Cairo. Participei do concurso internacional de dança do ventre clássica e fiquei em terceiro lugar. Essa foi a colocação mais importante que eu tive, principalmente porque foi uma surpresa. Inclusive ocorreu um fato engraçado, pois estava hospedada no hotel que o concurso foi realizado. Dancei, participei, curti junto com minhas alunas que me acompanharam e ficaram na torcida. Mas, como não imaginava que em um concurso de mais de 200 competidoras do mundo inteiro eu tivesse alguma chance, voltei para o quarto depois das apresentações e comecei a arrumar minhas malas, não fui no jantar de premiação. Até que uma amiga minha que estava na premiação me ligou dizendo “Karina corre aqui, você ficou em terceiro lugar”. Eu atravessei correndo o corredor do hotel, que era gigantesco. Foi muito emocionante.
Jornal da Cidade – Tem outro prêmio de destaque em sua carreira?
Karina – Na minha escola o prêmio mais recente foi esse ano. O nosso grupo ganhou o prêmio “Destaque Mercado Persa de 2009”. É o maior evento de dança do vente do Brasil. Participamos pela primeira vez. A competição ocorreu no mês de abril, em São Paulo. O público do evento é de mais de três mil pessoas, sem contar que mais de 200 bailarinos participam.
Jornal da Cidade – Quais os benefícios da dança do ventre?
Karina – A procura por aulas foi muito grande na época da novela “O Clone”. Neste período em que o interesse aumentou surgiu o problema de que muitas pessoas, sem experiência, começaram a dar aula. Por isso, sempre digo que é preciso haver critério quando se escolhe qualquer profissional que vai trabalhar com o seu corpo. A dança do ventre pode ser benéfica para as mulheres de qualquer idade, mas é preciso ter um cuidado na hora de escolher quem vai te orientar neste caminho. Na maioria das vezes, a gente vê a dança do ventre como entretenimento, mas ela surgiu como maneira de celebrar a vida. Ela fazia parte de um ritual religioso, por incrível que pareça, dedicada a uma deusa-mãe. Houve uma época que não existiam religiões patriarcais, mas sim matriarcais, que viam a mulher como capaz de gerar e nutrir a vida. A dança surgiu neste universo, para celebrar a natureza feminina, para preparar o corpo da mulher para vivenciar a sexualidade de uma maneira sadia e o corpo para a gestação e para o parto. Além disso, tem o lado psicológico em que a mulher se sente mais sensual, charmosa e feminina.
Jornal da Cidade – Encontrou alguma dificuldade na sua trajetória?
Karina - Muitas. Quando eu comecei a dançar, olhava minha professora e achava que nunca ia conseguir fazer o que ela fazia. Procuro compartilhar isso com minhas alunas. Na dança o aprendizado é para sempre, sempre vai ter coisas que você absorveu, aprendeu e pode continuar aprendendo. O meu desafio agora é como bailarina - claro, procurar sempre me aprimorar, - mas também como professora, porque cada aluna exige uma atenção diferenciada, tem uma dificuldade específica e é preciso estar atenda para orientar da melhor maneira possível.
Jornal da Cidade – Para se tornar professora teve alguma formação específica?
Karina – Não existe cursos específicos que sejam obrigatórios, mas para atuar na área como professora e bailarina é preciso de um registro profissional, o DRT. Ele é concedido após uma prova no Sindicato de Dança.
Jornal da Cidade – Quais as influências que a dança teve em sua vida?
Karina – A dança me ajudou de muitas maneiras. Quando eu decidi ser professora foi para compartilhar essa alegria que a dança me trouxe. Em primeiro lugar, ela resgatou a minha auto-estima. Por meio da dança me tornei uma pessoa mais comunicativa, mais aberta e mais flexível. Primeiro fui aluna e, continuo sendo até hoje, me tornei bailarina e passei a me apresentar profissionalmente, o que foi um grande desafio. Agora o meu desafio é ser professora. Cada fase na dança teve um efeito diferente em mim. Quando eu comecei a dançar jamais pensei que chegaria neste ponto. Além disso, a dança me trouxe o Fernando.
Jornal da Cidade – Conte um pouco desta história. Como foi esse encontro?
Karina – O Fernando e eu já nos conhecíamos, mas nunca tinha havido um ‘link’. Ele me viu com outros olhos em um festival de dança, aqui em Bauru. Entre o tempo de namoro e casamento estamos juntos há seis anos e meio e o melhor é que ele é um grande companheiro. Me acompanhou quando eu resolvi sair do emprego formal para abrir minha própria escola. Além disso, apóia apresentações, sempre participa, fotografa. Digo que existe a Associação dos Maridos de Odaliscas e ele faz parte. Ele me dá suporte para que eu possa dançar com tranqüilidade.
Jornal da Cidade – Além da dança, o que você gosta de fazer?
Karina – Ser mãe da Manuela, que nasceu no dia 28 de outubro deste ano. Esse é o meu papel principal agora.
Jornal da Cidade – Você planejava ser mãe?
Karina – Sim, a Manuela começou a ser planejada no Reveillon do ano passado. Eu engravidei em fevereiro deste ano. Inclusive recebi um convite para participar de um festival em Barcelona em fevereiro, quando engravidei, e não fui. Recebi novamente este convite, mas novamente não vou porque a Manu está muito pequenininha e exige minha atenção exclusiva. Ela nasceu no dia 28 de outubro.
Jornal da Cidade – Programa ter outro filho?
Karina – Daqui uns dois ou três anos. Por enquanto a Manu terá todo o meu carinho e amor. A experiência da maternidade inunda o coração. Eu saio de casa com o coração apertado e volto correndo com saudades. Por isso, vou voltar para a escola devagar, quero me dedicar a minha filha.
Jornal da Cidade – Já sabe quando vai retornar à rotina da dança?
Karina – A partir de janeiro já retorno algumas turmas. Minhas alunas estão com as turmas de nível básico e intermediário, eu assumo as turmas de nível avançado.
Jornal da Cidade – Vai levar a Manuela com você?
Karina – Ela vai me acompanhar sim, mas vou deixar que ela escolha o que quer fazer sozinha. É claro que, como mãe, tenho a expectativa de compartilhar com a minha filha a minha paixão, mas a Manu vai escolher o que ela quer.
____________________
Perfil
• Nome: Karina Valentin Mantovani
• Idade: 31 anos
• Signo: Gêmeos
• Filha: Manuela Valentin Mantovani
• Hobby: Além da dança, ler
• Livro de cabeceira: “Manual de Pediatria” e outras publicações relacionadas a educação infantil
• Filme preferido: “Cidade dos Anjos”
• Estilo musical predileto: Árabe
• Time: Corinthians
• Para quem dá nota 10: Para minha mãe, Izabel Lopes Neves
• Para quem dá nota 0: Ao preconceito
• E-mail: kvalentin@terra.com.br