Quando criança, não me lembro bem quem me contou uma passagem da Bíblia, onde um jovem franzino, em um ato heróico, enfrentou sozinho um gigante que ameaçava a existência de sua comunidade. Felizmente, ele conseguiu derrotar “aquele” que ameaçava a sua sobrevivência, bem como a dos seus. Primeiramente, gostaria de deixar claro que não estarei discutindo a qualidade dos serviços que a concessionária da rodovia Comandante João Ribeiro de Barros, a Bauru-Jaú, presta a quem dela se utiliza, não só na questão da segurança, qualidade da pista de rolamento e serviços de emergência (do qual já tive que recorrer e fui muito em atendido). O que quero discutir é até onde vai a responsabilidade de uma empresa particular, que ganha uma disputa pública para duplicação e conservação de uma rodovia estadual, dela aferindo enormes lucros com a exploração de pedágios, aluguel para a passagem de cabos de fibra ótica etc. Ao contrário do que muitos possam pensar, o impacto que a duplicação de uma rodovia causa ao meio ambiente é muito grande. Por isso, essas empresas são obrigadas a realizar obras e monitoramento com a finalidade de minimizar ao máximo esses fatores impactantes. Nesses impactos, podemos citar o atropelamento de animais silvestres, uma vez que com as duplicações não só a área de pista que o animal tem que atravessar aumenta, mas também a velocidade mínima permitida aos veículos. E esses acidentes geralmente se tornam fatais aos animais, sendo que, inclusive, algumas universidades brasileiras já possuem até cursos de pós-graduação em Ecologia de Estradas. Outro grave problema é que com as pistas duplas temos aumentada a área de impermeabilização de solo e, geralmente, a água da chuva é coletada em canaletas e direcionada para pontos de descarga chamados de dissipadores, que tem como função diminuir a sua força, evitando-se problemas de erosão do solo. Pois bem, acredito que você, leitor, principalmente se visitou o nosso Zoológico nos últimos meses, já esteja sabendo do problema que estamos passando com a nossa represa, que foi construída em 1977 e nos últimos dois anos tem sofrido um rápido processo de assoreamento, prejudicando não só o seu visual, como também a produção de peixes para a alimentação de nossos animais e o fornecimento de água para alguns tanques de banho em recintos no seu entorno. Esse assoreamento tem como causa as erosões que se formaram a partir de 2007 na área de Reserva Legal da Unesp, que se situa a montante desta represa, dentro da Área de Proteção Ambiental Municipal “Vargem Limpa-Campo Novo”, causadas pelo direcionamento para este local, por parte da concessionária, de águas pluviais da rodovia e da avenida Nações Unidas. A empresa alega não ser a responsável pelos fatos, uma vez que quando assumiu a responsabilidade sobre a rodovia a água já tinha esse local como ponto de escoamento. Ora, senhores, como podem querer se livrar da responsabilidade com uma desculpa dessas? Sim, antes a água era direcionada para um local próximo, porém, a pista era simples, não havia canaletas (o que permitia que a água escorresse por diversos locais sem acúmulo), e isso pode ser provado por fotos áreas já enviadas ao Ministério Público, onde a imagem não mente e mostra que em 1996 (antes da duplicação) e em 2004 (após a duplicação) não existia nenhuma erosão no local. A mesma só aparece em foto aérea tirada em outubro de 2007, quando a empresa já havia sido alertada através de ofício, pela presidência do câmpus da Unesp local, sobre os problemas que ali se iniciavam (ofício este também já encaminhado ao Ministério Público). Não querer assumir a responsabilidade do que ali ocorre é acreditar na impunidade, na não-fiscalização da qualidade dos serviços prestados por quem de direito e na incapacidade da população atingida se revoltar com o que assiste. O Ibama local já se manifestou e multou a empresa em R$ 500 mil pelos danos provocados em represa pública, o Centro Técnico Regional de Bauru da Coordenadoria de Biodiversidade e Recursos Naturais da Secretaria Estadual do Meio Ambiente e a Artesp (Agencia Reguladora de Serviços Públicos Delegados de Transporte do Estado de São Paulo) já vistoriaram o local e deverão emitir parecer nos próximos dias. O Ministério Público já trabalha na investigação há um ano e o vereador Roque Ferreira foi impedido por liminar judicial impetrada pela concessionária de fazer manifestação no posto de pedágio contra este dano ambiental. Voce, leitor, pode ajudar Davi a derrotar Golias novamente. Mostre sua indignação e exija uma solução para o caso. Protocole sua queixa na ouvidoria da Artesp (0800-7278377).
O autor, Luiz Antonio da Silva Pires, é zootecnista e diretor do Parque Zoológico Municipal de Bauru