Rio - Sean Goldman, 9 anos, embarcou com seu pai, David, para os Estados Unidos ontem, encerrando uma saga judicial de cinco anos que abalou as relações entre os dois países. A família do garoto chegou ao consulado norte-americano no Rio de Janeiro antes do prazo limite estipulado pela Justiça para a entrega do menino ao pai biológico norte-americano.
Visivelmente assustado e vestindo uma camiseta amarela, Sean caminhou até a representação norte-americana amparado por seu padrasto, João Paulo Lins e Silva, em meio a uma multidão de fotógrafos e jornalistas que aguardavam sua chegada.
A família brasileira do garoto optou por estacionar o carro longe da representação diplomática e caminhar até o local. O pai biológico chegou em um carro escoltado pela Polícia Militar e entrou pelo estacionamento da embaixada.
Um representante do consulado norte-americano disse à reportagem por telefone que a representação ofereceu a mesma entrada usada por David à família brasileira para evitar o “espetáculo da imprensa” e que aqueles que caminharam até o prédio o fizeram por opção.
Segundo o advogado da família brasileira, a avó materna, Silvana Bianchi, foi impedida de acompanhá-lo no vôo. “Tentei de todas as formas fazer com que a avó embarcasse para dar conforto ao menino, mas o governo americano vetou e o governo brasileiro aceitou essa situação”, afirmou o advogado Sergio Tostes, que representa a família materna de Sean.
O consulado, porém, nega a informação e disse que não recebeu nenhum pedido para que ela embarcasse no avião. Antes do meio-dia (horário de Brasília), pai e filho embarcaram em um avião fretado no Aeroporto Internacional do Rio de Janeiro rumo aos Estados Unidos. O consulado informou, porém, que o vôo não foi fretado pelo governo dos Estados Unidos, e disse não ter informações sobre quem teria pago pelo avião.
A entrega cumpriu decisão do Tribunal Regional Federal do Rio de Janeiro, que determinou o prazo para até as 9h da manhã de ontem, véspera de Natal, para que Sean fosse entregue ao pai.
A batalha judicial pela guarda do menino abalou a relação entre Brasil e EUA e chegou a ameaçar os bilhões de dólares de benefícios comerciais norte-americanos ao País.
David Goldman lutava pela custódia do filho desde 2004, quando a brasileira Bruna Bianchi, sua então esposa e mãe de Sean, trouxe o menino dos EUA, onde a família vivia, para o Brasil. Uma vez aqui, ela se divorciou de Goldman. Em 2008, Bruna morreu.
Goldman e o governo norte-americano alegavam que, sob a Convenção de Haia para a proteção de crianças, assinada por ambos os países, o caso de Sean configurava seqüestro infantil internacional.
A questão envolvia o pai norte-americano, que chegou ao Brasil na semana passada, e o padrasto, o advogado João Paulo Lins e Silva, com quem o menino vivia no Rio de Janeiro.
No dia 16, o Tribunal Regional Federal do Rio de Janeiro determinou que a guarda de Sean deveria ficar com o pai biológico e que o menino deveria retornar aos Estados Unidos 48 horas após a decisão.
No entanto, uma liminar concedida pelo ministro do STF Marco Aurélio Mello no dia 17 em favor da família brasileira impediu a entrega do menino a Goldman que, assim como a Advocacia Geral da União (AGU), entrou com um mandado de segurança no STF contestando a decisão de Mello.
Na noite de terça-feira, o presidente STF, Gilmar Mendes, determinou que Sean fosse entregue ao pai, cassando a liminar concedida por Mello à família brasileira.
A decisão de Mendes é preliminar e precisa da aprovação do plenário da Corte, porém é de caráter imediato, o que permitiu que Goldman voltasse com seu filho aos Estados Unidos. Após a decisão, a família materna de Sean disse que não recorrerá da decisão do STF, mas disse interesses econômicos do Brasil falaram mais alto que as vontades do seu neto.
____________________
Temor pelo estado psicológico do filho
Rio - David Goldman, seus parentes americanos e sua advogada já se preocupam com a transição de Sean do verão do Rio de Janeiro para o inverno rigoroso de Tinton Falls, cidade de 20 mil habitantes no Estado de Nova Jersey, a uma hora de Manhattan, onde vive o pai do garoto.
Segundo a advogada de David, Patricia Apy, psicólogos especializados em crianças e em situações similares à do menino foram acionados.
Em entrevistas à emissora de TV norte-americana NBC, feitas antes e depois de sair a decisão do STF, David Goldman disse que se preocupava com o estado psicológico do filho. “Eu não tenho idéia do que eles estão colocando na cabeça dele e isso é uma grande preocupação, que me dói no coração a cada segundo”, disse ele do hotel do quarto onde se hospedou, no Rio de Janeiro, referindo-se aos parentes e à família brasileira do menino.