09 de julho de 2026
Articulistas

Significado em liquidação

Rodrigo Nagem de Aragão
| Tempo de leitura: 2 min

Realmente, que tempo digno de se celebrar reside no final de cada ano. Tempo de celebrar o desapego ao comprar uma nova ilusão. Tempo de renovar nosso viciante ciclo consumista até que possamos nos consumir por inteiro novamente. Tempo de desejar satisfação própria e nos assentarmos sobre nossa própria soberba. É o tempo do Natal !!?? O maior feriado de origem religiosa da história se tornou o maior dos carnavais na cultura ocidental moderna. O suposto período de reflexão do espírito se tornou o tempo de festejar por festejar, ou melhor, de comprar para festejar !!! O Natal indubitavelmente perdeu sua natureza de magia e esperança, tornando-se mais um infeliz ritual de consumismo em massa. Durante o final de dezembro, somos bombardeados por uma histérica e alienante mídia, divulgando de maneira anormal liquidações, super-ofertas, queimas de estoque e outras demais típicas atividades natalinas, instigando comportamentos porcos que nos levam a compras fúteis e gastos exuberantes de maneira infundamentada. A questão toda é: até que ponto a filosofia capitalista consegue distorcer nossa visão de Natal? Até que ponto achamos o ideal de celebração em exterioridades? Até que ponto a coisificação de valores declarou como morto o real significado de ações concretas que deveriam nortear a essência de humanidade como este feriado?! A atual liquidez que torna a vida tão pobre e desprovida de sentido encontra cada vez menos resistência em ocasiões que deveriam existir para apoiar e festejar a grandeza da sociabilidade transcendental humana. O Natal, à medida que foi apoderado por um sistema decadente e insustentável de consumismo como instrumento de proliferação do mesmo, se tornou um ambiente fértil a potencializar atividades individualistas e fetichistas na sociedade.

A vida, movida pelo compulsividade de possessão, pede o excesso de compras e vendas num mercado sedutor, que oferece por meio da atmosfera carismática do dia 25 uma degradante oportunidade de adquirirmos bens materiais que comportam prazeres artificiais, felicidades momentâneas e rótulos vazios. Neste Natal, compartilho meu desejo ao Papai Noel: solidariedade e amor ao coração de todos os indivíduos desse mundo, para que sejam capazes de zelarem mais pelo bem comum do que para o conforto de seus próprios umbigos. Enquanto uns abrem presentes ao lado da árvore de Natal, outros morrem de fome embaixo de viadutos…

O autor, Rodrigo Nagem de Aragão, é bauruense vivendo no Canadá, onde é estudante de intercâmbio do Rotary Club Terra Branca - Distrito 4510