09 de julho de 2026
Bairros

Brincadeiras de rua sobrevivem ao tempo

Wanessa Ferrari
| Tempo de leitura: 5 min

O mês de janeiro chegou e trouxe com ele a alegria das crianças. Gozando de férias desde o início de dezembro, muitos pequenos pouco puderam aproveitar do último mês de 2009, uma vez que viagens, compras e compromissos familiares ditaram o ritmo do período. Mas agora, com tempo e energia de sobra para gastar, as crianças alteram o cotidiano dos bairros de uma forma toda especial: bolas, correria e muita brincadeira prometem agitar o verão e as ruas da Bauru.

A praça São Pedro, na Vila Dutra, tem sido palco para a diversão das crianças do bairro. Cerca de 15 crianças, munidas de pipas, bolas, bicicletas, patinetes, peões e petecas não se intimidam com as chuvas de verão e dominam o local, sempre acompanhadas de um adulto.

Soltar peão e jogar peteca são as brincadeiras preferidas de Rhuan Fernando de Assis Alves, 10 anos. Ele sempre vai até a pracinha brincar, especialmente nesta época, quando o local fica repleto de crianças.

“Acho muito legal brincar na rua, ainda mais na época de férias, quando temos mais tempo. Nesta período do ano fica um monte de gente soltando pipa aqui e eu adoro ver a pipa no céu. Na verdade, eu gosto mesmo é de jogar peão e peteca com meus amigos, confesso que é bem difícil, exige coordenação, mas é muito divertido”, conta Rhuan.

Ana Lúcia Rodrigues, 8 anos, sempre brinca no local acompanhada dos irmãos João Roberto Rodrigues, 12 anos, Eduardo Rodrigues, 6 anos, e do pai André Luiz Rodrigues, 35 anos. Para ela, o espaço disponível é o grande diferencial.

“Aqui na rua a gente tem mais espaço e mais amigos, dá para aproveitar melhor. Aqui meu pai me ensinou a soltar pipa e andar de bicicleta sem rodinhas. É muito bom poder brincar aqui”, conta Ana Lúcia.

André aponta o convívio como um dos benefícios da brincadeira de rua. “Sempre trago-os aqui quando tenho um tempo. Acho fundamental estimular o contato entre pai e filho. Meu pai fazia isso comigo e eu jamais me esquecerei. Não quero deixar meus filhos em casa jogando videogame, eles precisam gastar energia. Penso que brincando na rua as crianças crescem mais ativas e mais felizes”, analisa.

Outro fator que leva André a acompanhar os filhos é a preocupação. “Não posso privá-los de brincar aqui, mas também não dá para deixá-los vir sozinhos, é muito perigoso. Além dos perigos do trânsito, nunca sabemos quando vai aparecer alguém mal intencionado”, justifica.

João, o filho mais velho, aprova a iniciativa do pai. “Acho muito bom poder brincar aqui. Além do espaço, posso reunir meus amigos do bairro e da escola para jogar futebol”, completa.

A quadra 2 da rua Professor Antônio Guedes de Azevedo, na Vila Industrial, também foi transformada em um ‘ginásio’ temporário. Lá, Kaique Yuri Leita, 12 anos, e seus amigos se reúnem para tornar as tardes de janeiro mais divertidas.

“Faz mais ou menos quatro anos que brincamos aqui. Tudo começou quando meu amigo Lucas me chamou para brincar na casa dele, depois conhecemos mais alguns meninos que moravam próximos e passamos a brincar aqui na rua. O grupo só aumentou, porque sempre que estamos jogando chega mais gente para participar e acabamos fazendo novas amizades. Eu me divirto pra caramba”, conta Kaique.

Futebol americano, futebol, basquete e betes são as brincadeiras prediletas do grupo de meninos. O fato do espaço não ser próprio para isso pouco interfere na atividade dos amigos, que usam a criatividade para driblar os obstáculos.

“Com a gente não tem erro: os chinelos são usados para demarcar o gol, as lixeiras viram traves e qualquer pedaço de madeira se torna um taco para o betes. Quanto às regras, elas são próprias. Como não sabemos quais são as corretas, especialmente do futebol americano, inventamos tudo”, explica Kaique.

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Corda e esconde-esconde

É na batida da corda e ao som da música “Com quantos anos você pretende se casar” que meninos e meninas do bairro Joaquim Guilherme aproveitam o melhor que as tardes ensolaradas da infância tem para oferecer. Eles se reúnem todos os dias na quadra três da Rua Waldomiro Gonçalves Dias para brincar e fazer novas amizades.

“Vem até gente de outros bairros, como do Parque Viaduto, por exemplo, para brincar com a gente. É só um grupinho começar a brincadeira que daqui a pouco a rua fica lotada”, conta Franciele Torres de Mattos, 10 anos.

Além da corda, o esconde-esconde faz muito sucesso entre o grupo. “Me divirto muito brincando de esconde-esconde. É verdade que às vezes surgem algumas briguinhas, mas isso não significa nada, todo lugar é assim e toda criança briga. Nós resolvemos esses probleminhas com facilidade, e em pouco tempo tudo volta ao normal”, explica Isabela Guilhem Garcia, 12 anos.

Quando questionada porque gosta de brincar na rua, a resposta vem acompanhada de um coro: “Porque brincar sozinha e ficar trancada em casa não tem graça”, afirma Isabela.

O baixo fluxo de veículos na rua facilita a brincadeira das meninas e deixa os pais despreocupados. “Minha mãe não precisa se preocupar com a gente porque, além de passar pouco carro aqui, todos os vizinhos nos conhecem, então tem sempre alguém cuidando”, justifica Inara Guilhem Garcia, 9 anos.

E se engana quem pensa que hoje em dia a garotada só quer saber de jogos eletrônicos. “Eu gosto muito de ficar no computador, mas nada se compara a brincar na rua. Aqui meus amigos são reais e não virtuais. Posso conversar, brincar e rir de verdade”, compara Isabela.