A dona de casa Catarina Torres dos Santos não sabe o que é tomar um banho de chuveiro há, aproximadamente, dois meses. O abastecimento de água em sua residência, na Vila Dutra (zona noroeste de Bauru), foi cortado pelo Departamento de Água e Esgoto (DAE) no final do ano passado. Atualmente, ela tem de caminhar cerca de três quilômetros pelos trilhos da ferrovia até uma “bica” situada nas proximidades da Estação Aduaneira do Interior (Eadi), às margens da rodovia Bauru-Marília (SP-294).
Em 1999, quando o imóvel foi adquirido, Catarina e o marido, que faz bicos como eletricista (ganha R$ 10,00 ao dia, em média), não faziam ideia de que os antigos moradores haviam colocado um “gato” (modo como são popularmente conhecidas as ligações clandestinas de água ou energia) no hidrômetro. A família pagava a tarifa mensal normalmente, sem saber que, futuramente, viveria seus dias de “vidas secas”.
No final do ano passado, durante uma vistoria, técnicos do DAE identificaram o “gato” e a água foi cortada. Além de Catarina e o marido, o imóvel abriga mais quatro moradores - quatro dependentes químicos que o casal resolveu acolher sob seu teto -, além de gatos, cachorros e galinhas. Sem água (e consequentemente sem rede de esgoto), a família se viu obrigada a improvisar: transformou em latrina o quintal da residência.
Eles costumam urinar ao ar livre, em terrenos baldios do bairro. Para depositar os excrementos, eles improvisaram uma espécie de banheiro químico nos fundos do imóvel. “A gente joga serragem e creolina em cima da sujeira, mas mesmo assim o cheiro fica insuportável”, reclama Catarina.
Ontem à tarde, a equipe do Jornal da Cidade esteve no local e pôde constatar esse fato. À noite, enquanto este texto era escrito, eu ainda sentia aquele odor nauseante encalacrado em meu nariz. No momento em que me aproximei do banheiro improvisado, meu estômago revirou-se. Comecei a tossir desesperado, pensei que fosse vomitar ou até mesmo desmaiar.
“Não dá para ficar aqui por muito tempo. Vamos para fora, procurar ar limpo”, diz Catarina. O mau cheiro tem incomodado os vizinhos do imóvel. Alguns têm crianças pequenas em casa e acreditam que a situação possa trazer algum tipo de epidemia para o bairro.
Apesar das queixas, muitos vizinhos fazem questão de ajudar Catarina, doando água, comida, roupas e até alimentos. Além disso, a dona de casa vai à “bica” pelo menos três vezes ao dia, para lavar roupa e buscar água para todos os habitantes (humanos e não humanos) da casa. Em cada “viagem”, costuma carregar 18 litros do líquido.
Dias atrás, ela machucou a perna durante o trajeto. O ferimento não tem apresentado sinais de melhora. Catarina acredita que isso se deva ao fato de ela sofrer de diabetes. Além de ter o abastecimento de água cortado, a família foi acionada criminalmente pelo DAE.
Segundo Catarina, sua dívida com a autarquia já ultrapassa R$ 4 mil, incluindo-se a multa de R$ 97,20 mais o valor corrigido das tarifas que deixaram de ser pagas no decorrer do período em que o “gato” esteve em funcionamento. Ainda de acordo com ela, pela proposta apresentada pelo DAE, a família poderia optar por parcelar a dívida em até 94 vezes de R$ 254,00.
A dona de casa Rosa Bueno, 52 anos, também viu o abastecimento de água de seu imóvel na Vila Dutra ser interrompido, por motivo semelhante ao de Catarina. Ela não chegou a ser acionada criminalmente por furto, mas precisou pagar uma multa amarga para que sua situação pudesse ser regularizada. Atualmente, paga cerca de R$ 100,00 ao DAE, todos os meses (incluindo o valor do líquido consumido, que gira em torno de R$ 20,00).
Rosa e a filha de 12 anos sobrevivem com uma renda mensal de pouco mais de R$ 140,00. Para dar conta das despesas fixas da casa (das quais a mais alta é a tarifa do DAE), Rosa também apela para alguns improvisos como cozinhar em um fogão à lenha. “O gás está caro demais. Tenho outras coisas mais importantes para comprar”, diz.
Nas últimas semanas, a irmã de Rosa, a dona de casa Aparecida Bueno, 52 anos, também tem enfrentado o drama da falta de água. Para contornar o problema, os moradores da casa, localizada no Jardim Andorfato (zona noroeste de Bauru), buscam auxílio com amigos e parentes.
“A louça a gente lava na casa de minha tia (uma das filhas de Aparecida). Além disso, os vizinhos enchem nossa caixa d’água para que a gente possa tomar banho”, afirma Larissa Cristina Pereira, 14 anos, neta de Aparecida.
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Haiti
“Isso aqui não é o Haiti. É Bauru”, diz a líder comunitária Rose Lopes, ao comentar a situação das famílias que tiveram o abastecimento de água cortado. Na opinião dela, o Departamento de Água e Esgoto (DAE) deveria tratar os casos descritos por um viés mais humano.
“Essas pessoas só deixam de pagar a conta porque não têm dinheiro suficiente. A prioridade para elas é comprar comida”, afirma Rose.
Ela questiona a tarifa social praticada pelo DAE. Atualmente, para ficar isento da taxa, a família tem de consumir até cinco metros cúbicos de água ao mês. “Na periferia, é comum encontrar casais com vários filhos. Para pessoas nessa situação, 5 mil litros de água não dão para quase nada”, diz.
Na noite de anteontem, a dona de casa Catarina Torres dos Santos, citada no início da matéria, teve ao menos um motivo para comemorar. Choveu, e ela pôde recolher a água que Deus (na visão dela) enviou do céu.
“Fiquei tão feliz. Enchi um monte de baldes e garrafas. Eu estava rezando tanto para que as chuvas viessem...”